Jardim de Inverno, de Renaud Dillies e Grazia La Padula

Esta edição da Kingpin Books sublinha a aposta editorial diferenciadora da editora.

Jardim de Inverno traz aos leitores uma história singela e fabulosamente ilustrada, que nos recorda a existência de uma banda desenhada francófona que vai além das séries que conhecemos de sempre.

Solidão e urbanismo: as linhas de força de Jardim de Inverno

As cidades conseguem ser muito opressivas para o indivíduo. Sam, um jovem empregado de bar, sente-se isolado e perdido na cidade em que vive. O peso da solidão é aliviado pela namorada, a quem não se atreve confessar que a ama profundamente. Apesar de trabalhar num bar dedicado à música, os seus dias são de silêncio numa cidade cinzenta, sempre debaixo de chuva.

Será uma gota de água que lhe irá mudar a vida, voltando a despertá-lo para a riqueza das relações humanas. Uma gota insistente, que lhe cai do teto na mesa de jantar. Ao ir confrontar o seu vizinho de cima apercebe-se, desconcertado, que este talvez não esteja na posse das suas faculdades, pensando que se trata do seu filho. Sem querer ferir sentimentos, Sam recua e regressa à sua vida cinzenta, cheia de falsas incertezas. Do momento fica-lhe a sensação que deveria contatar os seus pais, com quem já não fala há demasiado tempo.

Este remoer agudiza ainda mais os seus sentimentos de solidão e falta de pertença. A vida na cidade parece-lhe desprovida de sentido, os seus habitantes sem alma, reduzidos a máquinas, desumanos quando se entrecruzam. Mas a água continua a pingar no seu apartamento, e Sam tem mesmo de confrontar o seu vizinho de cima. Ao visitá-lo, descobre o segredo que se encerra no apartamento: um luxurioso jardim interior. Um espaço impossível, num anónimo apartamento de uma cidade estéril, que o despertará da letargia impossível. Aprende que no meio do inverno mais cinzento, cada um de nós pode construir os seus oásis pessoais, sentido-se com isso mais completo. Este despertar clareia o espírito de Sam, que se deixa confessar os seus sentimentos mais profundos à namorada, deixa-se adoptar pelo vizinho, e acaba, finalmente, por telefonar aos seus pais.

A solidão urbana, com os sentimentos de incompletude e vazio interior não é um conceito inédito. É até um dos mais generalizados nas culturas pop e erudita, alicerçando muitas obras literárias e cinematográficas, dando tema a canções populares. Esta pequena história de Renaud Dillies, apesar de ter elementos encantadores, não se desvia muito da norma de narrativas dentro desta temática. Personagens solitários, que na cidade escura se cruzam com outros que lhes irão fazer redescobrir o gosto pela vida. Empatizamos com as personagens de Jardim de Inverno, desde o indeciso Sam à sua amada, e especialmente com o sorridente velhote que, sem ninguém no mundo, é capaz de construir um jardim na sua casa.

Um tema comum, apesar de bem abordado. O jardim interior funciona como metáfora da vida interior dos indivíduos, o cerne da sua identidade, que tem de ser cultivado como baluarte pessoal contra as pressões de um mundo exterior impiedoso na sua indiferença.

O poder visual da ilustração de Jardim de Inverno

A surpresa deste livro está no caráter encantador da sua ilustração. No meu caso, diria até que foi paixão à primeira prancha. Bastou-me contemplar as espantosas arquiteturas desta cidade, com as formas clássicas dos edifícios a serem submergidas pela sombra até ao nível da rua, com uma figura solitária, para o interesse no livro ficar desperto. A cargo da ilustradora Grazia La Padula, a estética de Jardim de Inverno troca o realismo por um estilo mais expressivo e tranquilo, de cores submissas. A paleta anda pelos ocres e cinzentos, sublinhando as sensações de alienação que sublinham a narrativa, e só desabrocha em cores vivas no final.

Há um contraste constante entre cenas de interior, decaídas mas intimistas, e as de exterior. Aí, uma cidade neoclássica opressiva impera, com as suas torres habitacionais, chaminés fabris, pessoas anónimas e trânsito indiferente. Nalgumas vinhetas a representação do espaço urbano quase toca a geologia, estratificando a cidade quase como se fosse composta por camadas de rocha.

Jardim de Inverno a recordar a Banda Desenhada Francófona

Esta edição da Kingpin Books está em contra-ciclo com o que se percebem ser as tendências editoriais por cá, focadas no mangá e comics. Rareia a edição de obras francesas, especialmente criadas pelos autores mais recentes. A aposta desta editora tem sido no trazer aos leitores portugueses obras independentes de autores nacionais e internacionais, com edições cuidadas. Este Jardim de Inverno não é exceção, com uma encadernação clássica e impressão que valoriza a paleta cromática da ilustração.

Tocando nos vazios da solidão urbana, Jardins de Inverno encanta os leitores com a sua história simples e humanista. A ilustração é deslumbrante, oscilando entre o encher do olho com fabulosas paisagens urbanas e o intimiso dos espaços pessoais. Esta edição da Kingpin Books traz-nos um pouco do vasto mundo da banda desenhada francófona, que se durante muitos anos dominou o mercado editorial nacional, agora mal se dá por ela.

Jardim de Inverno

Autores: Renaud Dillies, Grazia La Padula
Editora: Kingpin Books
Páginas: 64, capa dura
PVP: 16,20 €

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