Infierno Embotellado, de Suehiro Maruo

Suehiro Maruo

Suehiro Maruo não é um autor para estômagos fracos. Um dos grandes ilustradores de mangá, com um traço elegante e decadente, dedica-se ao ero-guro, subgénero dedicado ao erótico e grotesco. Infierno Embotellado, editado em Barcelona pela ECC Ediciones, traz-nos quatro histórias inquietantes, focadas nas perversidades inerentes às relações de poder ou na influência da moral cristã sobre os indivíduos.

Elegância, história e decadência na obra de Suehiro Maruo

Suehiro Maruo consegue ser muito grotesco e decadente nas suas histórias, ilustradas com um deslumbrante traço. Vindo das escolas gráficas japonesas, Maruo transmite para as suas vinhetas o classicismo do estilo ukiyo-e, embora o seu estilo visual também remeta para Aubrey Beardsley e Felicién Rops, dois notórios artistas decadentes da viragem de século. O paralelo com Beardsley sente-se ao nível do traço. Apesar do de Maruo não ser tão pesado quanto o do ilustrador pré-rafaelita, partilham o mesmo estilismo de elegância decadente. A estilização erótica do corpo feminino, muitas vezes em cenários perversos, é uma constante na obra deste mangaká. Um elemento estilístico impossível de não associar ao decadentismo do belga Rops.

Suehiro Maruo
Exotismo decadente de Infierno Embotellado,

A sua obra caracteriza-se por um forte fascínio com os primórdios da era Showa. As histórias que escreve desenrolam-se essenciamente nos seus cenários favoritos, os do Japão dos anos 30. Uma era de rápida modernização e ocidentalização de costumes nos primeiros anos do reinado de Hirohito, após o choque cultural da abertura da sociedade nipónica ao mundo exterior. Maruo centra as suas histórias num país em que se sente a dicotomia entre modernismo e tradição, retratando em fundo a militarização da expansão imperial na China, aventura que terminou de forma catastrófica no final da II Guerra com os ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki. São retratos dos primórdios do Japão contemporâneo, numa convulsão de transição entre a sociedade nativa tradicional e os modelos ocidentais que o país adaptou para se modernizar.

Suehiro Maruo
As tentações de santo Antão, na visão de Suehiro Maruo.

Maruo também vai buscar temas e narrativas à literatura tradicional japonesa, trazendo os contos milenares do teatro nipónico aos seus cenários da modernidade das primeiras décadas do século XX, com um estranho fetiche com freaks de circo.

Suehiro Maruo
Choque visual com grotesco de La Hermanita

Se o erotismo é uma das constantes da obra deste ilustrador, a crueldade humana é o traço mais pertinente da sua ficção. As suas personagens principais são, geralmente, quase dolorosamente inocentes, à mercê das sevícias físicas e morais daqueles que as rodeiam. Ao contrário de outros autores deste género de leituras eróticas (estou a pensar em De Sade, por exemplo), não se sente na obra de Suehiro Maruo um fascínio pela violência exercida sobre o corpo. Antes, percebe-se uma descrença na humanidade, visível na crueldade exercida pelas pessoas banais. Um elemento especialmente aparente numa das suas melhores e mais conhecidas obras, Mr. Arashi’s Amazing Freak Show. Esta pega numa das personagens recorrentes da ficção tradicional japonesa, a menina das camélias, personagem prototípica da menina inocente caída em desgraça, forçada à pobreza e vulnerável à exploração pela parte de homens sem escrúpulos. Esta dicotomia entre uma inocência individual inata, e a pressão exterior de pessoas amorais, interessadas apenas no lucro ou no domínio exercido sobre o outro mais vulnerável, é uma das grandes correntes narrativas da obra deste autor.

Em Suehiro Maruo, O Inferno é a Alma Humana

Infierno Embotellado reúne quatro histórias curtas, originalmente publicadas na revista Gekkan Comic Beam. Na primeira delas, e que dá o título ao livro, um par de orfãos isolados numa ilha paradisíaca, únicos sobreviventes de um naufrágio, sentem a tensão entre uma sexualidade que desperta e o poder dos tabus religiosos. Náufragos enquanto crianças, vão crescendo, e vão sentido em si o despertar de um desejo que sabem ser proibido por serem irmão e irmã, exacerbado pelo catolicismo em que foram educados. Dilacerados entre pulsões e tabus, preferem o suicídio, sentindo que o paraíso terrestre onde vivem se tornou num inferno. Esta história adapta um escritor japonês dos princípios do século XX. É uma história visualmente deslumbrante, desenhada com uma enorme elegância de traço, com pranchas de enorme beleza.

Suehiro Maruo
Vistas de um Japão ocidentalizado, nas Tentações de Santo Antão.

Inspirando-se em Dali, Hyeronimus Bosch e na mitologia cristã, La Tentacíon de San Antonio revê de forma divertida as tentações de Santo Antão, aqui não um eremita no deserto, mas um padre de paróquia japonesa que sente uma atração pouco divinal pelas formas voluptuosas das suas paroquianas, e sofre sevícias às mãos dos endiabrados miúdos da vizinhança. As influências visuais desta história clássica são directamente citadas por Maruo. Kogane Mochi traz para o japão dos anos 30 uma récita tradicional do teatro japonês, com a história de um homem avarento que, ao sentir a morte aproximar-se, decide encerrar a sua riqueza em bolos mochi e comê-la. Este velho avaro vive mesmo ao lado de um casal preso à pobreza, que não encontrou na cidade o caminho que sonhavam para as suas ambições, e a solução para a riqueza está no esventrar do cadáver do avarento.

Suehiro Maruo
Do humor à violência na adaptação do conto tradicional Kogane Mochi.

A terminar esta colectânea, uma história especialmente cruel e tocante. Em Pobre Hermanita, uma jovem rapariga orfã de mãe presta-se a tudo para cuidar do seu meio-irmão, uma criança deformada e deficiente. Presa a um pai cruel, que a mantém na pobreza e lhe recusa o acesso ao ensino, acaba por fugir quando se apercebe que o pai quer vender o filho deformado para um circo especializado em aberrações. Para sobreviver na metrópole, onde não há almas caridosas nem bondade de estranhos, vê-se obrigada a prostituir-se, destino que aceita como forma de proteger o seu meio-irmão. Não há final feliz possível nesta história que evidencia a crueldade de um mundo concupiscente, mergulhado na pobreza. O pai descobre o paradeiro dos filhos e consegue vender o rapaz para um circo, enquanto que a jovem é raptada por traficantes de mulheres. Um final duro, a sublinhar que se Maruo se move nos círculos do ero-guro, o que pulsa na sua obra não é a fetichização da violência mas sim os dramas daqueles que se descobrem na pobreza, numa sociedade em desenvolvimento, em conflito entre a tradição e a modernidade crescente.

Suehiro Maruo
La Hermanita, da vulnerabilidade dos mais fracos numa sociedade impiedosa.

Infierno Embotellado representa um Suehiro Maruo mais comedido, longe dos exageros escatológicos do ero-guro. Troca a violência física pela psicológica, sublinhando a perversidade excercida por aqueles que se comprazem em dominar os que consideram mais fracos. Subjacente a esta obra está uma intrigante veia cristã, especialmente aparente nas duas primeiras histórias. Esta vertente religiosa ocidentalizada é algo de muito pouco comum no mangá, mas sente-se que a moralidade católica e as suas incongruências sustentam o andaime conceptual das narrativas deste livro. O que nos toca mais fortemente é o traço deste autor, elegante, tão capaz das vinhetas mais bucólicas como das mais inquietantes.

Infierno Embotellado

Autores: Suehiro Maruo
Editora: ECC Ediciones
Páginas: 192, capa mole
PVP: 13,95 €

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