Indigências da Banda Desenhada

A princípio, a colecção de reimpressões de revistas clássicas de Banda Desenhada juvenil parecia uma excelente ideia. Aproximar públicos deste género artístico utilizando um veículo popular dos media impressos (sei que é uma revista, mas nos dias de hoje as noções clássicas de jornal e revista já não se aplicam, com tanta interconexão trans-media e permeabilidade entre jornalismo e marketing), e recordar a memória histórica da leitura que encantou as gerações que nos precederam. Como não apreciar uma iniciativa destas?

Uma Colecção de Banda Desenhada que Desiludiu

Agora que a colecção está completa, não consigo manter esta opinião. Olho para as reedições, ou reimpressões, ou o que quer que aquilo seja porque nem nisso acertaram, e fico boquiaberto com a indigência da oferta. Indigência, com todas as letras, porque não há qualificativo mais apropriado. É um tipo de posição rara em mim, que recuso analisar as moedas apenas por uma face e sublinho que entre as dualidades há sempre áreas cinzentas que temos de valorizar, porque é aí que se passam os desenvolvimentos interessantes. Mas não neste caso. Se o objectivo expresso era o de recordar e divulgar banda desenhada, tudo o que foi conseguido foi mostrar o pior da BD juvenil do passado. Um valente tiro no pé, excelente como táctica para alienar potenciais leitores.

O problema começa logo nas infelicidade das escolhas. Os títulos clássicos seleccionados são os incontornáveis como demonstração do que era a BD juvenil do século XX, mas as edições de facto ressuscitadas da poeira dos arquivos não foram, talvez, as melhores escolhas. O primeiro número ainda parecia prometedor, com uma aventura de Battler Britton/Major Alvega a recordar os estereótipos de mediania divertida da BD clássica. A partir daí, a decadência foi estrondosa. Tivemos direito a descobrir ou recordar um Flash Gordon menor, apesar de representativo do historial editorial do personagem. Muitas tiras díspares e medíocres, assinada por autores e ilustradores felizmente caídos em esquecimento, um Mandrake de terceira linha em que o personagem que interessaria redescobrir mal aparece na história. O ponto final, com a primeira edição da terceira época do jornal O Mosquito, é especialmente deprimente, ao nível de nem sequer merecer ser folheado. Pessoalmente, não tenho ilusões sobre a qualidade da maior parte da BD popular clássica (e a mesma crítica é passível de ser feita à contemporânea), mas não poderiam os curadores ter sido mais criteriosos nas suas escolhas? Do retrato que fizeram resulta uma imagem muito indigente sobre o género. Ressalvando que as águas tortuosas dos direitos de autor não são de fácil navegação, sendo possivelmente impossível assegurar a republicação do que poderia ser mais interessante, a falha de curadoria é notória. Disto retirei que é fácil compreender aquela alergia institucional à banda desenhada que se sente nos meios académicos, bibliotecários e docentes. Com exemplos daqueles, torna-se difícil lutar pelo progresso na aceitação do género.

Formar Novos Públicos, Expandir Mercados.

Da minha experiência, longe dos salões de BD mas dentro das salas de aula, tenho observado que o desprezo do género é ainda hoje é um factor que condiciona a sua divulgação institucional a novos públicos em potencial. Como nota pessoal, demorei anos a conseguir convencer a responsável pelas bibliotecas da escola onde trabalho das vantagens de se actualizar na BD. Convenci-a da sua qualidade e pertinência com as obras de José Carlos Fernandes, e a informação que os alunos andavam a trocar entre eles mangás em francês, inglês e japonês (não percebiam os textos mas comparavam com a versão anime). A coisa pegou de tal forma que na mais recente feira do livro organizada na escola virou-se para mim, de olhar pesaroso, e diz-me que a livraria escolhida para o evento não trouxe títulos de mangá. Felizmente, a pouca selecção incluía as edições recentes da Gradiva. Não tive tanto trabalho a convencê-la a meter impressoras 3D dentro da biblioteca… Esta pequena anedota ajuda a mostrar que por entre os meios académicos ligados à promoção da leitura entre crianças e jovens imperam o romance e o livro ilustrado, com a BD ainda remetida à condição de esquisitice e coisa comercialona, admissível apenas quando tem pretensões didácticas. Quando visito outras escolas e as suas bibliotecas, constato a inexistência de oferta disponível para além dos eternos Astérix e Lucky Luke, ou números soltos da Comix.

Talvez não seja esta a imagem que os leitores deste site têm de um género que é vibrante e nos últimos anos tem crescido em qualidade, reconhecimento e dimensão. Se sairmos do meio percebemos que ainda falta muito para atingir uma situação desejável, e esse processo passa muito pelo cativar do publico jovem. Talvez sintam, animados pelo sucesso dos Anicomics, Iberanimes e cultura mangá entre os jovens contemporâneos, que as coisas estão muito bem encaminhadas e a cultura de Banda Desenhada em Portugal atingiu massa crítica. Estes eventos e edições são admiráveis e assinaláveis, mas se pararem para analisar os números do público potencial das escolas, vejam bem um mercado que passa ao lado, e está a ser muito bem explorado por escritores de qualidade variável, boa parte entre o duvidoso e o inexistente, que vão às escolas e invariavelmente deixam lá os livros nas mãos de jovens leitores.

Cá por mim, vou manter estas edições bem longe do olhar dos meus alunos. Mesmo daqueles que ficam tristes quando me perguntam se estou ansioso pelo Civil War e respondo que estou mesmo ansioso é pela nova temporada de Penny Dreadful, ou que no fim de semana do Ibaranime vou estar noutras aventuras e não podemos tirar selfies com os cosplays que já me vieram mostrar. Não é censura, é não querer ver revertido o interesse de alunos e colegas no género.

O Passado não foi Dourado

Não tenho ilusões sobre uma pretensa era dourada do passado, onde a cultura popular em BD, literatura, música ou cinema era sempre excelente, em contraste com o suposto lixo dos dias de hoje. Sou, aliás, de opinião bem contrária. Boa parte do que se faz hoje, apesar das ameaças de provocar genocídio de neurónios, é tecnicamente muito bom. O nível gráfico e de narrativa dos comics de super-heróis de hoje, citando o exemplo mais popular e industrializado da BD de hoje, sustentar-se-á perante públicos futuros de gostos estéticos mais elaborados. Há um livro já antigo de Steven Jonhson, Everything Bad Is Good for You: How Today’s Popular Culture Is Actually Making Us Smarter, que analisa muito bem a complexidade estilística, estética e narrativa crescente patente nos produtos da cultura popular que sempre fomos treinados a ver como simplistas e de mero entretenimento acéfalo.

Recordar e glorificar glórias do passado é algo muito comum na Ficção Científica, campo que partilha com a Banda Desenhada esta sensação de fímbria cultural. Mas fá-lo com sentido crítico, com a noção que por encantadoras que as revistas pulp nos pareçam, a maior parte era joio no meio do trigo. Se conceberem uma colecção literária da era dourada da Ficção Científica, nenhum editor em sã mente faria questão de escolher o pior dos contos e romances para representar o género. Apesar de haver algumas antologias que recuperam precisamente esses textos, dentro de um enquadramento crítico bem definido. Este cuidado, óbvio, claramente não foi tido nesta iniciativa.

Nem o tipo de edição se safa. Aquela uniformização de formato, adequado à gráfica que teve pouco trabalho com este brinde da revista, foi desastrosa para a iniciativa. A princípio, a lógica editorial pareceu-me a de fac-simile, sem a restauração das pranchas exigível numa reimpressão. Mas fac-simile implica a reprodução do original, e não a sua redução e redimensionamento sem que sequer tal seja assumido, nem com que critérios. Aliás, esta ideia de critério é a outra grande crítica válida a esta iniciativa. As reedições (ou reimpressões, ou… falham-me as palavras) foi despejada com a revista, sem contextualização, análise, recensões críticas ou historiográficas. Teve de ser a blogoesfera a fazer o trabalho que se esperava dos organizadores ou dos editores.

Se é de saudar o empenho do Clube Português de Banda Desenhada em ter trazido estes clássicos de novo ao público, com as dificuldades que já foram assinaladas e interferências editoriais da Visão, o saldo final é desastroso. Más escolhas editoriais, uma política de reedição incompreensível que ao uniformizar a edição menoriza ainda mais as bandas desenhadas que republica, a mediocridade narrativa e gráfica da BD que supostamente encantou os nossos antepassados. Pergunto-me se quem defende isto é amnésico, cerebralmente danificado ou apenas recorda a sensação de deslumbre infantil sem nunca mais ter regressado aos livros que o encantaram. Suspeito que estou a apontar o dedo ao alvo errado, e a ser injusto para com alguns dos promotores desta iniciativa. É o saudosismo das culturas de género, no seu pior, a traduzir-se na indigência de iniciativas bem intencionadas mas mal estruturadas e implementadas.

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