Histórias do Outro Mundo, editado por Jorge Deodato.

Histórias do Outro Mundo

Histórias do Outro Mundo: Colectânea de Ficção Científica foi recentemente editado pela Escorpião Azul. Abordando a Ficção Científica como temática, dá espaço às histórias de catorze autores, entre veteranos e novos nomes na BD portuguesa. A diversidade de estilos e narrativas traduz-se numa antologia ecléctica, oscilando entre momentos muito bons e outros menos bem conseguidos.

Ora, Ficção Científica…

Abrir este livro surpresa e dar no prefácio com a afirmação que a Ficção Científica “nasceu como subgénero literário na década de 1920” causa-me alguns arrepios. Não que esteja tecnicamente incorrecto, uma vez que foi por essa altura que o editor Hugo Gernsback começou nas páginas da Amazing Stories a dar ao género literário o nome pelo qual acabou por ficar conhecido. Mas nasceu muito mais cedo. Formalmente, a sua génese é apontada por críticos e historiadores com Frankenstein de Mary Shelley, desenvolvendo-se como romances científicos ao longo do século XIX e na viragem para o século XX, livros  dos quais os de Júlio Verne são os mais conhecidos e influentes. As visões mais críticas, de base tecnológica e sociológica, partem da obra de H.G. Wells, também muito antes dos tais anos 20 do nos que aponta um prefácio que, mais à frente, refere Verne, já muito morto e enterrado nessa época.

Histórias do Outro Mundo
Capa de Ricardo Tércio

Confesso, estou a ser algo picuinhas. Esta pequena imprecisão não diminui em nada o mérito desta antologia, que se foca num tema relativamente pouco abordado na Banda Desenhada portuguesa. Apenas me consigo lembrar de excepções como Eternus 9 de Vítor Mesquita, ou a recent revista H-alt, como obras que se assumem como de Ficção Científica. Já esta antologia apanhou-me de surpresa. Lançada em maio, só a descobri no Amadora BD. Para um fã confesso de FC que tenta estar atento ao que se faz por cá nesse campo, até fica mal não ter dado por isto.

O Ecletismo de Histórias do Outro Mundo

A antologia em si é muito eclética em termos estéticos. Algo que é habitual na edição de BD portuguesa. Agrega autores consagrados, como Pepedelrey, a nomes que se estão a fazer notar, caso de Patrik Caetano, a autores tão novos que ainda estão pelos bancos das escolas secundárias. Este ecletismo acaba por ser um ponto fraco, com uma enorme assimetria de qualidade entre as histórias editadas. Há por aqui coisas muito boas, outras prometedoras, mas também encontramos estilos de trabalho tão incipientes que fazem pouco sentido serem editados num livro que se percebe esta a tentar tornar-se de referência.

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O traço de Pepedelrey em Space, no Boundaries.

Com Space, No Boundaries, a antologia tem um arranque fenomenal. O traço maduro, distintivo e altamente expressivo de Pepedelrey conjuga-se numa história surreal em que um astronauta humano se cruza com outro explorador alienígena do cosmos. O bom nível gráfico mantém-se com Love, num tom de escuridão gótica, embora a contribuição de Catarina Dantas segue mais o caminho do terror. Já Prelúdio de Tempestade lê-se como fan fiction da série Guerra nas Estrelas, entre os filmes clássicos e o mais recente, numa história de uma jovem sobrevivente de um planeta isolado que se vê atacado por uma força imperialista. O trabalho de João Monteiro é ainda muito cru, mas a mostrar potencial.

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O bom humor de Tiago Cruz e Inês Garcia.

Uma das mais queridas tradições da Ficção Científica é a história que termina com um final inesperado. A Poltrona, narrativa de suspense que termina com um surpreendente toque cyberpunk é outro dos grandes momentos deste livro, com um traço rigoroso e surpreendente de Inês Viegas. O estilo gráfico do cartoon está bem representado em Vírus, que aborda um ciclo de renascimento cósmico com final irónico, num grafismo próximo do psicadélico, de Álvaro. Sem apelido, apenas o primeiro nome. Quanto a O Inesperado, o que é realmente inesperado é que numa colectânea destas se encontre um tipo de trabalho em banda desenhada tão incipiente. Nuno Penas mostra garra e promessa, mas falta-lhe ainda muito trabalho de aprendizagem, melhoria gráfica e estruturação narrativa para que o seu trabalho tenha qualidade para publicação. Star K’root também foi publicada no terceiro mundo da revista H-alt, onde não se tinha distinguindo muito no meio de uma edição cheia de grandes experiências. Já nesta antologia, o trabalho de Tiago Cruz e Inês Garcia ganha um novo destaque, quer pela uma narrativa bem conseguida, quer pelo estilo gráfico.

Espaço a Novas Vozes e Estilos

Histórias do Outro Mundo
O desenho de Patrik Caetano, que nas páginas da H-alt já mostrou ser capaz de ir mais longe.

A influência do mangá nas novas gerações de fãs e criadores de Banda Desenhada é notória. É o caso de Rato de Laboratório, onde este estilo pesa muito numa história cyberpunk de André Rodrigues, outro dos autores nesta antologia que precisa de algum trabalho de desenvolvimento gráfico e narrativo. Patrik Caetano está a afirmar-se no panorama da BD portuguesa com um tipo de grafismo muito próprio mas em franca evolução. A pouca elaboração das pranchas de Tríade de Virgens Gémeas, história onde três donzelas sacrificiais se libertam dos seus captores e iniciam uma fuga leva-me a pensar que se trata de um dos trabalhos iniciais deste autor.

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A influência do mangá, bem patente no traço de Ricardo Lopes.

Por falar em estilo mangá, A Última Fronteira é uma história pungente de Ricardo Lopes que nos leva aos últimos momentos de um astronauta numa nave a destruir-se, com um grafismo muito bem conseguido e de elevado nível. Contrasta com a história 2ª Oportunidade, que apesar do conceito interessante e do traço expresivo, nota-se que ainda falta a Rafael Fernandes alguns passos de aprendizagem e desenvolvimento gráfico e narrativo para atingir a maturidade que lhe permitirá levar mais longe a promessa que demonstra.

Histórias do Outro Mundo
Sharon Mendes, entre a inocência e a ironia.

O livro encerra com dois contos num registo mais leve. Primeiro, XLM 125, uma história curta de Jorge Deodato, com um grafismo interessante, onde os planos malévolos de dois alienígenas são travados por um caça. A terminar, Camaleão no Espaço, história deliciosa de Sharon Mendes que, num registo entre o inocente e o irónico, conta-nos as aventuras de um camaleão que se vê catapultado para o espaço.

Interessante e surpreendente, Histórias do Outro Mundo reúne banda desenhada de Ficção Científica criada por autores portugueses. Antologia ecléctica nos grafismos e nível de desenvolvimento estético dos criadores, perde um pouco pela excessiva boa vontade editorial em publicar autores ainda demasiado inexperientes, embora compense com excelentes momentos da parte de veteranos e nomes em ascensão. Para encerrar esta recensão com uma picuinhice final, não posso deixar de sublinhar que a fantástica capa de Ricardo Tércio não remete, à primeira vista, para o tema da antologia. Pela capa e pelo título, até diria que se trataria de um livro de banda desenhada de terror.

Histórias do Outro Mundo

Histórias do Outro Mundo

Autores: Jorge Deodato (editor)
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 164, capa mole
PVP: 14 €

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