Hermann: Um Grande Clássico

A propósito da distinção de Hermann como vencedor do Grand Prix de Angoulême de 2016, numa altura em que a série Bernard Prince foi parcialmente reeditada em Portugal, retomo um artigo publicado há quinze anos, na sequência da conferência do consagrado autor belga no AmadoraBD 2001.

O autor de banda desenhada Hermann já visitou Portugal por diversas vezes. Tinha um gosto particular pelo entretanto extinto Salão de Sobreda, e o seu ambiente familiar.

Na edição de 2001 do AmadoraBD, Hermann marcou presença, e a sua obra foi o motivo daquela que foi para muitos a melhor mostra de originais incluída no evento.

A carreira de Hermann tem início em 1965, e pode dividir-se (num critério muito básico) em duas fases: a fase Greg (entrada para o Studio Greg, de Michel “Greg” Régnier; publicação de Bernard Prince com argumento de Greg; Jugurtha, com argumento de Jean-Luc Vernal; Comanche, com argumento de Greg.) e a fase pós-Greg, em que, no auge da sua popularidade enquanto desenhador de Bernard Prince e Comanche, Hermann deixa ambas as séries (em 1977 e 1982, respectivamente), enveredando por outro tipo de histórias e, sobretudo, por uma carreira de desenhador-argumentista (criando as séries Jeremiah, Nic e Les Tours de Bois-Maury, e concebendo vários projectos em que está mais presente uma certa preocupação social, sob a forma de álbuns isolados: Missié Vandisandi, Sarajevo Tango, Caatinga, Mataram Wild Bill, Lua de Guerra, Laços de Sangue e tantos outros).

O confronto entre estas duas fases foi o centro da conferência com Hermann no auditório da Escola Intercultural. Para o autor, estão em causa também duas fases da carreira de Greg. A primeira em que se revela o génio e mestria do criador de Achille Talon, e a segunda em que Greg é já mais “fabricante” e o seu processo criativo tem mais de industrializado do que de genial. Um certo desencanto de Hermann com esta segunda fase da carreira de Greg leva o
desenhador a iniciar uma paralela carreira de autor completo (em 1979, com Jeremiah) e depois, constatando que lhe falta tempo para dois mestres (Greg e ele próprio), Hermann opta por deixar definitivamente a colaboração com Greg, decisão de que não está minimamente arrependido. De resto, na sua carreira a solo, tem procurado reagir contra algumas falhas que encontra na obra que produziu em colaboração com Greg, seja a falta de rigor com que o oeste americano é retratado em Comanche, seja o paternalismo com que os povos distantes são abordados em Bernard Prince.

Como se tornou argumentista por acidente, nunca desenvolveu a técnica do argumento. Vai recolhendo pistas e vai avançando, a partir de uma estrutura básica de princípio, meio e fim (salientando a importância de um bom fim, na linha do ensinamento de Hugo Pratt). Há todo um enorme processo de descobertas à medida que vai concretizando a história. A passagem ao desenho, que leva cerca de seis meses, leva-o a alterar muito a história que concebeu inicialmente em cerca de quinze dias. Por isso afirma que não seria capaz de escrever para os outros. Em todo o caso, a descoberta do argumento não é um processo fácil.

Hermann não é um autor simpático, nem faz por isso. Salienta a sinceridade como a grande qualidade do seu trabalho, afirmando que trabalha em primeira linha para ele próprio, só exteriorizando para o público a mensagem que o satisfaz pessoalmente.

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