Free Lance, de Diogo Carvalho e Nimesh Morarji

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Nos tempos bárbaros, entre castelos exóticos e florestas tenebrosas, vivem-se aventuras palpitantes com muitas lutas contra terríveis criaturas. Quem será capaz de sobreviver nestas eras de um passado épico? Os mais valorosos, ou os mais astutos? A Free Lance não lhe falta força e coragem, mas acima de tudo sobrepõe-se uma astúcia percebida como amoralidade.

A Desconstrução da Fantasia Épica em Free Lance

Confesso. Fantasia épica não é de todo o meu género favorito. Seduzem-me pouco as visões de um passado longínquo, de histórias de mundos anteriores à pré-história, com heróis musculados e as suas possantes espadas, viajando por territórios exóticos em luta constante contra feiticeiros malévolos, monstros sanguinolentos, reis despóticos ou tribos selvagens. A tradição destas narrativas é longa, com Conan de Robert E. Howard como o seu mais icónico personagem. Se quiserem uma boa imagem mental deste personagem, recordem não os comics da Marvel ilustrados por Barry Windsor Smith, mas o espectro de Arnold Schwarznegger num dos seus primeiros sucessos cinematográficos. Os pressupostos deste género narrativo são bem conhecidos, e muito explorados na cultura popular, entre literatura, cinema, banda desenhada e jogos de computador.

Free Lance
Visões clássicas da fantasia épica.

Peguei neste Free Lance por recordar bem o trabalho de Diogo Carvalho em Obscurum Nocturnus, um muito bem conseguido álbum de Banda Desenhada de terror. Se o género espadas e feitiçaria não me atrai, não pude deixar de experimentar este novo trabalho do argumentista e ilustrador. Tive uma boa surpresa, uma leitura divertida onde o autor ironiza os pressupostos de um género pelo qual se sente a sua paixão. Free Lance é em tudo o prototípico herói musculado de fantasia épica, capaz de enfrentar monstros inomináveis, salvar donzelas em apuros, e viver aventuras em terra exóticas. É tudo isto, mas não é ingénuo. Sem ser um anti-herói, é antes um herói com dois dedos de testa, cuja moral questionável lhe garante a sobrevivência, dinheiro e aventuras.

Free Lance
Desconstruções inesperadas da iconografia de um género.

Nesta curta edição, Free Lance viverá duas aventuras. Numa, é contratado por um rei desolado mas algo forreta para salvar a filha, raptada por um feiticeiro malvado, a troco do seu peso em ouro. O herói irá conseguir derrotar hordas de monstros aguerridos, e ficará especialmente agradado ao descobrir que durante o cativeiro a princesa engordou muito. Há nesta primeira história um momento especialmente hilariante, com Diogo Carvalho a desconstruir os pressupostos de qualquer jogo de computador numa sequência de vinhetas em que o personagem tem de enfrentar uma classe diferente de monstros a cada novo andar da tenebrosa fortaleza do feiticeiro. Na segunda aventura, a salvação de uma inocente donzela das garras de um bando de criaturas lagartóides que a querem sacrificar ao dragão que adoram segue um caminho inesperado. Se o dragão tem predilecção por donzelas virgens, talvez o herói não precise de espada para salvar a vítima. Há outras maneiras de, digamos, dar a volta à coisa… desde que se perca a pureza virginal.

Um Trabalho Consistente em Edição Independente

Free Lance
Um bom equilíbrio entre traço e cor.

Estas histórias de divertida ironia são contadas através de um traço sólido e funcional, um pouco naif no seu estilismo pessoal, próprio de uma edição independente que está na continuidade evolutiva entre a fan fiction e as capacidades narrativas e gráficas mais maduras exigidas pela banda desenhada. O trabalho de cor, elemento que faltava a Obscurum Nocturnus, dá aqui mais qualidade visual às histórias, sem se sobrepor ao grafismo.

Não sendo uma novidade editorial, tendo sido apresentado na Comic Con, foi uma das boas surpresas da safra de livros com que vim de lá ajoujado. Note-se que este pequeno livro consegiu deixar um não fã de fantasia épica intrigado, divertido e com vontade de ler mais aventuras deste bárbaro herói com espadas e miolos. Free Lance é uma bem conseguida edição independente, na sequência do que o autor já nos mostrou ser capaz de fazer nas suas obras anteriores.

Free Lance

Autores: Diogo Carvalho, Nimesh Morarji
Editora: Moon Kid Comics
Páginas: 20, capa mole
PVP: 5 €

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