Global Frequency, de Warren Ellis

Warren Ellis

Mil e um agentes, especialistas em áreas díspares, unificados por pertencerem à Frequência Global, uma organização privada de intervenção a nível planetário. Acidentes naturais, experiências científicas fora de controlo, crimes violentos ou iniciativas pouco escrupulosas de governos, são problemas insolúveis até a rede solta de agentes coordenados pela Frequência entrar em ação. Uma série clássica e um pouco esquecida de Warren Ellis, que reuniu um forte talento visual nos seus doze números.

Hello, you’re on the global frequency

Começa sempre assim. Com um toque de telefone, não de um dispositivo qualquer mas daquele telemóvel com vídeo monogramado com o distinto logótipo da organização. O círculo com triângulos ao lado, como pontos cardeais. O símbolo de uma entidade muito especial, capaz de organizar o saber díspare distribuído de muitos em prol de um objetivo comum. Uma organização que entra em ação sempre que há problemas aparentemente insolúveis ou situações bicudas que os governos, militares e agências não conseguem resolver. Quando este telefone toca, sabemos que estamos em linha com a frequência global.

Warren Ellis
Bombhead, ilustrado por Garry Leach.

Só conhecemos dois elementos da Frequência Global. A sua líder, a implacável Miranda Zero, e Aleph, a coordenadora do nexo informacional da organização. Aleph, como não poderia deixar de ser, em homenagem ao ponto no espaço que permitia ver em simultâneo todos os espaços do conto homónimo de Jorge Luis Borges. Os restantes agentes fazem parte da massa anónima de 1001 operacionais, especialistas vindos das áreas mais díspares. Entre académicos, físicos, militares, polícias, agentes secretos, criminosos, inventores, desportistas. Cada um com a sua especialização, trazidos à rede sempre que surge um problema bicudo que requeira talentos especiais.

Foi com esta premissa elementar que Warren Ellis escreveu uma das suas mais intrigantes séries, profundamente sincronizada com as tendências da contemporaneidade à época em que foi escrita. Desenvolvida como uma série televisiva, Global Frequency é composta por doze episódios auto-contidos, tendo apenas a organização como elo de ligação e fugindo propositadamente a arcos narrativos. A vontade de transpor as fronteiras dos comics era expressa, e chegou a ser realizado um episódio piloto para televisão desta série.

Warren Ellis: Vinte Minutos no Futuro

Os doze episódios de Global Frequency são um exemplo do melhor da forma como Warren Ellis é capaz de transmutar tendências sociais e tecnológicas de futuro próximo para narrativas cheias de acção. Este autor e argumentista de BD contemporâneo é, talvez, aquele que melhor sente o pulsar da modernidade e que nestes campos parece estar sempre vinte minutos à frente do tempo cronológico.

Perdoem-me, não resisti a referenciar Max Headroom e os seus twenty minutes into the future. Warren Ellis, entre as suas múltiplas ocupações, é convidado para bastantes palestras em eventos futuristas e os seus textos são exemplos de um pensamento tortuoso, fortemente reflexivo sobre o impacto social das tendências da crista da onda do desenvolvimento tecnológico, especialmente no que toca às NBIC (nanotecnologia, biotecnologia, informática e computação, ciências cognitivas). Alguns destes textos estão reunidos no ebook Cunning Plans: Talks by Warren Ellis.

Se o fluxo da contemporaneidade é o melhor que Ellis nos oferece nesta série, Global Frequency também evidencia o seu grande ponto fraco como escritor. Nas ficções deste autor, as personagens são impossivelmente bi-dimensionais, quase drones a servir de metáforas de conceitos. Figuras planas, obcecadas com as suas funções, que Ellis raramente se dá ao trabalho de aprofundar e com a qual o leitor não consegue empatizar. Dada a temática e a forma narrativa de Global Frequency, este é um pormenor que até acaba por funcionar a seu favor. Numa estrutura episódica, não nos é necessário ganhar empatia para com os personagens. A elementaridade destes é compensada pelo ritmo cinético da ação. Dos argumentistas contemporâneos, Ellis sabe transmitir o movimento alucinante das cenas de ação com inspiração cinematográfica como ninguém.

Warren Ellis
Big Wheel, ilustrado por Glenn Fabry.

Visualmente, Global Frequency também surpreende. As capas são de um excelente design arrojado criado por Brian Wood, que ainda hoje se sente como moderno. Warren Ellis rodeou-se de alguns dos melhores ilustradores de comics. Glenn Fabry, John J. Muth, David Lloyd Lee Bermejo, Steve Dillon ou Simon Bisley são alguns dos desenhadores que trabalharam nesta série onde cada número contou com um ilustrador. Apesar disto, o estilo visual é muito uniforme, com um trabalho de cor àspero a puxar para a escuridão coerente em todos os números.

Doze Histórias Inquietantes e Imparáveis

As doze histórias de Global Frequency são uma montanha russa de conceitos futuristas e ação imparável. Começamos com Bombhead, uma caça ao homem onde as capacidades psiónicas dormentes de antigo agente soviético exilado na américa, capaz de abrir túneis no espaço-tempo para materializar bombas atómicas, representam uma ameaça real. Em Bigwheel, os operacionais da organização têm de eliminar um cyborg militar, enlouquecido ao descobrir-se horrivelmente deformado e transformado pelos implantes cibernéticos. Invasive, o terceiro número da série, é para mim uma das melhores histórias de Ellis em termos conceptuais. Nesta, acompanhamos os esforços de uma semióloga especializada em memes que luta para travar uma invasão alienígena que se manifesta não com naves portentosas mas como código memético embutido em emissões rádio captadas por utilizadores de computadores que colaboram com o projeto de busca de inteligência [email protected]

Warren Ellis
Invasive, ilustrado por Steve Dillon.

One Hundred leva-nos à Austrália, onde um polícia aborígene e uma assassina inglesa resolvem uma situação de reféns provocada por um grupo de webdesigners suicidas. Big Sky passa-se no interior norueguês, onde magos e físicos investigam visões de anjos que deixam catatónicos os habitantes de uma vila, o resultado de vibrações electromagnéticas com intensidade acima do normal. The Run é ação pura em Londres, onde uma jovem de origem indiana percorre a cidade numa corrida alucinante de parkour para travar uma bomba suja com vírus que se encontra no London Eye. Detonation passa-se em Berlim, onde uma agente chinesa e um torcionário russo acumulam cadáveres enquanto travam um grupo terrorista que ameaça detonar uma bomba suja radioativa sobre a Alemanha.

Warren Ellis
Hundred, ilustrado por Roy Martinez.
Warren Ellis
Big Sky, ilustrado por John J. Muth.

A capacidade narrativa de Ellis em criar suspense com ação imparável é levada aos limites com 00.00.00.001, uma corrida contra o tempo para resgatar Miranda Zero, líder da organização, de um grupo de raptores. O nono número da série não tem título, e é uma história arrepiante de body horror onde um agente japonês investiga um acidente num laboratório onde a libertação de gases psicotrópicos inspira cientistas a realizar experiências cirúrgicas de metamorfose radical do corpo humano. Superviolence nem sequer chega a fazer muito sentido, é uma longa cena de luta mortal, fortemente gráfica, entre um operacional da organização e o seu alvo. Aleph centra-se na jovem génio da computação que funciona como nexo comunicacional da organização, e a sua forma de defender o centro de operações da invasão de agentes inimigos, com extremo prejuízo. Harpoon encerra a série, com um daqueles conceitos que Ellis sabe desencantar tão bem. Um satélite resquício da guerra fria, quase esquecido pelos militares e armado com bastões cinéticos, ameaça disparar e aniquilar uma cidade. A única forma de o travar é recorrendo aos serviços de um explorador espacial privado que está a desenvolver uma nave independentemente da NASA.

Sentir o Pulsar da Modernidade

Warren Ellis
The Run, ilustrado por David Lloyd.

Como perceberam, Warren Ellis não se coibiu de incluir os conceitos mais resvalantes do futurismo e história radicalizada em Global Frequency. O que a torna especialmente notável é a sua precocidade. Em 2002, falar de uma organização global constituída por indivíduos em rede, ligados pela internet e telemóveis (com vídeo, em 2002, notem), capazes de agir globalmente resolvendo problemas num misto de ciência, tecnologia e ação direta, era algo que extrapolava o que eram à época tendências distantes. De certa forma, Ellis transportou para os comics o conceito de sociedade em rede de Manuel Castells, com a sua análise do potencial transformador social e económico da internet que naquela altura ainda se adivinhava. A organização é um exemplo dos conceitos de sabedoria das multidões/comunidades de prática, grupos de interesse que congregam especialistas de diferentes áreas criados e reunidos de forma fluída em torno de um objectivo comum. A internet e a conectividade por meios digitais, os elementos que os académicos identificam como fundamentais para estes conceitos, são a estrutura que suporta toda a ação de Global Frequency. E, em 2002, quem é que prestava atenção à teoria dos memes, que não é o mesmo que as imagens divertidas de gatinhos que partilhamos na internet, embora partilhem da viralidade?

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Detonation, ilustrado por Simon Bisley.
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00.00.00.001, ilustrado por Chris Sprouse e Karl Story.
Warren Ellis
O body horror da história sem título, ilustrada por Lee Bermejo

Outros elementos são usados por Warren Ellis de forma muito eficaz. As paranóias levantadas pelo pós-Guerra Fria, com armas secretas esquecidas após a derrocada da União Soviética. Ciência militarizada a ir além dos limites éticos. O horror implícito nas experiências biomédicas. Elementos ficcionados na série, mas que se baseiam em ideias que circulam no espírito dos tempos.

Warren Ellis
Superviolence, ilustrada por Tomm Coker.
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Aleph, ilustrada por Jason Pearson.
Warren Ellis
Harpoon, ilustrada por Gene Ha.

O futurismo alastrante da obra de Ellis faz falta no panorama editorial nacional. Global Frequency não está editado em Portugal, nem antevejo que o seja. É de observar que se a Devir e a G.floy estão a trazer muitas das séries contemporâneas da Image para o público português, não estão, tanto quanto sei, previstas edições de obras de Warren Ellis. Como fã confesso deste autor, lamento profundamente que não estejam disponíveis obras dele na nossa língua. Claro, podemos sempre adquirir na Amazon e Bookdepository ou aproveitar viagens a países onde a edição de banda desenhada seja mais dinâmica para mercados maiores do que o nosso e encher a mala. A minha edição chegou às estantes desta forma, vinda diretamente da venerável Casa del Libro na Gran Vía, com uma secção de duas pequenas salas cheias dos comics, mangá e banda desenhada mais atuais, todos editados em castelhano.

Frecuencia Global

Autores: Warren Ellis, Garry Leach, Glenn Fabry, Steve Dillon, Roy Martinez, Jon J. Muth, David Lloyd, Simon Bisley, Lee Bermejo, Tomm Coker, Jason Pearson, Gene Ha, Brian Wood.
Editora: ECC Ediciones
Páginas: 288, capa dura
PVP: 28,50 €

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