Fórum Fantástico: Sustentabilidade e Culturas de Género

Decorreu entre os dias 23 a 25 de setembro, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro o Fórum Fantástico. Ponto de encontro de fãs e criadores, reuniu no seus painéis diferentes vertentes culturais ligadas à Ficção Científica e Fantástico. Deixo aqui algumas notas soltas sobre estes três dias de partilha. A culpa das fotos é do meu telemóvel, que sofre da ilusão de ser máquina fotográfica.

A Perenidade do Fórum Fantástico

“Isto é como os velhotes do Califa. Todos os anos cá estamos, vejo as mesmas caras, e isso é bom, quero continuar a fazer parte”, referiu Filipe Melo na sua imprevista intervenção no painel de Banda Desenhada no Fórum Fantástico. Reforçou as suas palavras citando uma observação de Mário Laginha sobre públicos pequenos, mas consistentes ao longo dos anos, e a fama efémera das grandes massas de fãs, hoje fiéis, que amanhã provalmente esquecerão os seus ídolos.

O Fórum Fantástico tem sido, dos eventos ligados à Ficção Científica e Fantástico, aquele que tem mostrado das maiores longevidades. Decorreu este ano a sua décima edição, que teria sido a décima primeira senão por obras no espaço da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro de Telheiras, a casa que desde sempre acolheu o Fórum, que no ano passado impediram a sua realização em 2015. Apesar da pausa, houve alguma continuidade com o Conversas Imaginárias 2015, evento simbólico que manteve viva a memória e reuniu os fãs do Fantástico nas suas diferentes vertentes.

Este ano o Fórum regressou em força, com um programa diversificado que, longe da espectacularidade esperada e incentivada por outros eventos do género, mostra a continuidade da sua aposta numa visão abrangente das culturas de género. Para além das áreas expectáveis, como a literatura, banda desenhada e cinema, núcleos fortes do evento, também trouxe para as discussões a tecnologia, música e vertentes de investigação académica. Até o cosplay teve representatividade, com a presença da Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas.

Dia Académico no Fórum Fantástico

Não estive no arranque de sexta-feira. Por agruras profissionais, perdi a  apresentação do Seminário BD, Estética e Pensamento Político com Hélder Mendes e Rogério Ribeiro, e a sessão Investigando Fantasia e Ficção Científica na FCSH, com Maria do Rosário Monteiro, Jorge Rosa e Teresa Botelho. Apesar de haver um evento ligado à FC e Fantástico que se foca exclusivamente nas vertentes académicas, o colóquio Mensageiros das Estrelas, estes painéis do Fórum mostram que por cá, apesar das vicissitudes de ser um nicho pequeno e de alguma desconsideração intelectual por parte das elites bem pensantes, as culturas de género intrigam académicos que desenvolvem projectos de investigação nestas áreas.

Fórum Fantástico Planetas: Ciência e Ficção
Sessão Planetas: Ciência e Ficção

Sexta foi o dia dedicado à academia. Tive sorte de chegar a termo de um fantástico debate entre Nuno Galopim, João Barreiros e Joana Lima, sob o tema Planetas: Ciência e Ficção. Barreiros partilhou algumas das suas criações literárias, Galopim falou do seu recente livro sobre as visões de Marte na Ficção Científica literária e cinematográfica. Destacou-se o entusiasmo de Joana Lima, transmitindo a sua paixão pela astrobiologia e fascínio pela FC, aliando o rigor científico à especulação.

Em seguida, o jornalista e divulgador cultural João Morales partilhou, na sessão Metamorfoses Musicais, músicas que, como referiu, “nasceram umas mas que um dia descobriram que eram outras”. A sessão foi um festival de ecletismo e remistura de géneros musicais, mostrando que uma visão abrangente do Fantástico não se cinge às estéticas clássicas das vertentes do género.

O dia terminou com a gravação ao vivo de um episódio do programa de rádio Os Contos não Vendem de Joana Neves. João Morales e Rogério Ribeiro leram-nos excertos de Casos de Direito Galáctico de Mário-Henrique Leiria e Sr. Bentley, O Enraba Passarinhos, de Ágata Ramos Simões. Textos que se destacam pela transgressividade face à sua contemporaneidade, quer na mistura que Leiria fazia de surrealismo e Ficção Científica, quer na visceralidade da obra de Ágata Simões. Livros que, como referiram os narradores, seriam hoje talvez impossíveis de editar num mercado que não vê com bons olhos a possibilidade de sensibilidades feridas. Ou, no caso do Sr. Bentley, espancadas quase ao limite da dor.

Da Tecnologia à Economia em Análise no Fórum Fantástico

Sábado iniciou-se com um workshop dedicado à tecnologia. Em evidência esteve a Impressão 3D, com o seu potencial criativo aplicável ao cosplay, miniaturas para jogos de tabuleiro, ou como meio de expressão. Ao longo de hora e meia os participantes exploraram esta tecnologia e os seus processos de trabalho, com uma impressora de concepção e fabrico português da BEEVERYCREATIVE.

A tarde deste dia foi dedicada à cultura de fãs e suas iniciativas. Abriu com o painel To fandom or not to fandom?, conversa entre Carlos Silva, cabecilha do projeto Imaginauta, André Silva, responsável pelo festival SciFi Lx, António Monteiro, mentor da tertúlia Sustos às Sextas, e Rogério Ribeiro, organizador do Fórum Fantástico. Em discussão esteve a natureza destes eventos, diversificados nas suas temáticas e abordagens, criados por fãs para fãs, que dinamizam encontros e actividades fora dos espaços mais comerciais dos grandes festivais que agora se começam a impor. O peso económico e impacto mediático de festivais como a Comic-Con Portugal ou os Iberanime são fortíssimos, mas há algo que se perde por entre o ruído. Os eventos mais pequenos, desenvolvidos de forma voluntária por grupos dinâmicos de fãs, possibilitam abordagens diversificadas e de proximidade, longe das multidões anónimas que enchem grandes eventos. Estes talvez não fossem possíveis senão pelo trabalho desenvolvido pelos grupos de fãs ao longo de anos, lançando as bases para uma crescente divulgação das culturas de género.

Fórum Fantástico Outra História, Outro Portugal
As utopias em debate na sessão Outra História, Outro Portugal

No painel seguinte, Miguel Real e Miguel Vale de Almeida, moderados por João Morales e Rogério Ribeiro, partiram do tema Outra História, Outro Portugal para, naquele que foi um dos momentos mais fortes do Fórum, discutir utopias, distopias e o papel da ficção especulativa quer no momento contemporâneo quer nos futuros possíveis que nos aguardam. Por momentos, transplantaram o Fórum para os terrenos estéticos do Festival Folio em Óbidos, neste ano com a Utopia como temática.

Fórum Fantástico Proxy
Proxy, Antologia de Contos Cyberpunk

Mudando de registo, os autores e editor da antologia de contos Proxy, editada pela Editorial Divergência, fizeram a apresentação deste novo livro de ficção científica escrita por autores portugueses. Editada por Anton Stark, contém seis contos que exploram em diferentes sensibilidades literárias a estética e pressupostos do estilo cyberpunk. Sublinhe-se que a Divergência é um projecto que se distingue pela aposta que faz em estimular a voz dos escritores que gostam de explorar temáticas ligadas ao Fantástico. É, diria, um trabalho de paixão por parte de fãs que querem manter viva a edição nestes géneros literários.

A sessão À conversa com a Oficina de Escrita Polícia Bom, Polícia Mau reuniu Rui Bastos, Leonor Macedo, Joel Gomes, Elsa Cruz, Júlia Pinheiro, Rogério Ribeiro e Luís Filipe Silva. Em destaque teve o papel das oficinas de escrita como espaço para os novos autores explorarem, em conjunto e com contributo da voz crítica de autores mais experientes, técnicas narrativas e estilos literários, ajudando-os a desenvolver a sua escrita.

O lado económico da cultura de género foi debatido no painel  sobre Indústrias Criativas, onde Nuno Duarte, Ricardo Venâncio, Ana Fragateiro e Tiago Pimentel, estes últimos da Credo quia Absurdum, partilharam com a audiência as problemáticas económicas do trabalho neste tipo de indústria. Foram destacadas questões como acesso a mercados de trabalho, formas de pagamento que recompensem o trabalho criativo, e as dificuldades que se colocam pelo reduzido mercado nos campos literários, de banda desenhada ou objectos de arte.

O dia finalizou com o jantar da tertúlia Devoradores de Livros, organizado pelo SciFi Lx, excepcionalmente realizado para coincidir com as datas do Fórum Fantástico.

Fórum Fantástico ao Terceiro Dia

Domingo, último dia do Fórum, é tradicionalmente o mais concorrido. Este não foi excepção. A tarde iniciou-se com as duas sessões mais tradicionais do Fórum: a conversa entre Ricardo Correia e João Campos onde estes abordam os jogos de computador que jogaram ao longo do ano, e as Sugestões de Literatura e Cinema, com o escritor João Barreiros e os bloggers Artur Coelho e Ana Cristina Alves a partilhar as suas sugestões sobre o melhor, e o pior, que leram de Ficção Científica, especulativa, terror, fantástico e não-ficção ao longo do ano.

Fórum Fanástico Galxmente
Capa da edição revista de uma das obras clássicas da FC portuguesa

Seguiu-se um momento que pessoalmente classifico como ao mesmo tempo excitante e deprimente. O escritor Luís Filipe Silva apresentou a nova edição de A Galxmente, uma das obras clássicas da FC portuguesa. Durante a apresentação, recordou-nos outros tempos, não assim tão distantes, em que havia várias colecções de literatura de Ficção Científica, com aposta nos autores portugueses e lusófonos.

Fórum Fantástico Galxmente
A memória do passado editorial de Ficção Científica

Uma diversidade que hoje não passa de memória desvanecida. Poderia ser este o lado deprimente da apresentação, mas o que de facto se retira é que vinte anos passados sobre as primeiras edições deste e do outro grande livro de FC portuguesa, Terrarium de João Barreiros e Luís Filipe Silva, não tenha voltado a haver nenhum outro grande, ou sequer pequeno, romance de FC por autores portugueses. Diria que o género está ligado às máquinas, mantido vivo por iniciativas pontuais de antologias de autores que, apesar dos esforços e das promessas, não têm conseguido ir mais longe. No final da apresentação, Luís Filipe Silva revelou que Terrarium terá no final deste ano nova edição pela Saída de Emergência. Se é bom que estes livros basilares regressem às livrarias, o reavivar destas velhas glórias deixam em evidência a desolação que é o panorama literário de Ficção Científica portuguesa.

Mais pertinente para os leitores habituais do aCalopsia foi a sessão sobre Banda Desenhada Fantástica, moderada por João Lameiras. Geraldes Lino apresentou a antologia Sobressaltos, editada no âmbito da tertúlia Sustos às Sextas. Sérgio Santos apresentou a revista H-alt, Patrik Caetano divulgou o livro Quest for Tula e outras Histórias de Fantasia, que será lançado na Comic-Con. João Raz e Miguel Jorge apresentaram o projecto Apocrypha, uma antologia de edição regular que reúne diversos autores de banda desenhada. Já de Filipe Melo esperava-se uma promoção do seu recente livro Os Vampiros, mas o músico e argumentista preferiu salientar a pertinência e resiliência do Fórum Fantástico, como aposta de continuidade e ponto de encontro daqueles que se esforçam, como criadores ou fãs, em manter viva esta cultura de género.

Fórum Fantástico Take It Easy
Como filmar o imaginário no trabalho da Take It Easy

O encerramento desta edição do Fórum deu-se com uma conversa de Bruno Caetano e Jerónimo Rocha com Rogério Ribeiro sobre o trabalho da produtora Take It Easy. As suas curtas metragens, que partem do desafio de fazer spots promocionais para o festival de cinema MOTELx, distinguem-se pelo seu ambiente macabro, conseguido graças a um enorme cuidado nos efeitos especiais. As maquetas concebidas para estes filmes têm sido presença regular em exposições sobre Ficção Científica e Terror. Antes da despedida, foram exibidas as curtas O Encoberto – Director’s Cut e Arcana, spots do MOTELx que foram expandidos para curta metragem e tem feito a ronda dos festivais cinematográficos.

Ao longo do evento, o átrio do auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro acolheu espaços de livreiros e criadores. A editora Saída de Emergência e a loja Dr. Kartoon promoviam uma feira do livro, ao qual se juntou o SciFi Lx, com uma loja dedicada a livros e jogos de tabuleiro. A Credo Quia Absurdum estava presente com as suas t-shirts de design esotérico, e no sábado a Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas esteve presente com uma banca a divulgar os seus trabalhos. Os mais bibliodependentes tiveram direito a momentos de tráfico literário a acontecer, literalmente, na mala traseira de um carro. É, talvez, o único sítio onde nunca pensaria ir comprar livros.

Um Balanço Possível do Décimo Fórum Fantástico

Como saldo final desta décima edição do Fórum, sublinharia a sua continuidade face a todas as contingências, desde a interrupção forçada às agendas sobrecarregadas de organizadores que preparam o Fórum de forma voluntária. Já estive presente em edições mais repletas de público. Com o hiato de um ano não surpreende que o evento tenha saído um pouco do radar de acontecimentos. Apesar de tudo, não deixa de ser um espaço onde os fãs e criadores se cruzam regularmente. São muitos dos mesmos de sempre, mas não deixa de haver renovação e caras novas.

Outro pormenor que me intrigou foi a quase ausência de lançamentos quer literários quer de Banda Desenhada, algo que tem sido uma das grandes áreas do Fórum noutros anos. Nota-se aqui claramente o efeito Comic-Con, com autores e editores a guardarem as suas novidades para o evento portuense. A exposição mediática e o volume de visitantes desta convenção estão a ter repercussões no exíguo mercado português. Resta para o Fórum e eventos similares o outro lado, diria que o trabalho de base, dando espaço aos autores e aos nichos que não são atraentes para o mercado mas são fundamentais para o crescimento do Fantástico em Portugal. Ou, sendo menos positivista, evitando a sua extinção.

Para o ano espera-se que o Fórum Fantástico e os seus velhotes do Califa regressem, com mais um olhar sobre o panorama do fantástico em Portugal. Da organização espera-se, como já nos habituou, uma cuidada curadoria que trace o retrato contemporâneo das culturas de género.

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13 Comments

  • E continuam as correcções… de erros da mesma pessoa, mas em espaços diferentes.

    «O Fórum Fantástico tem sido, dos eventos ligados à Ficção Científica e Fantástico, aquele que tem mostrado das maiores longevidades. Decorreu este ano a sua décima edição, que teria sido a décima primeira senão por obras no espaço da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro de Telheiras, a casa que desde sempre acolheu o Fórum»…

    «Desde sempre»? Não exactamente. O Fórum Fantástico já se realizou (em 2006) no Instituto Português da Juventude (no Parque das Nações) e (em 2007) na Universidade Lusófona (no Campo Grande). Eu sei porque estive lá, em ambas as ocasiões.

    Amanhã, outros erros deste texto… e as suas respectivas correcções.

    • se eu fosse como o octávio, escreveria uma longa diatribe pejada de () e !! explicando, do alto da minha sabedoria, que “desde sempre” é entendível como metáfora e não literal e cronológicamente como unidade de medida rigorosa. não sendo, agradeço a correcção.

      • Na sua «recensão» ao «Espíritos das Luzes» você queixou-se, entre outros aspectos, de «distâncias ampliadas em mega escalas» que «não são consistentes ao longo da narração» – embora, na verdade, sejam. Então agora vem menosprezar (um)a «unidade de medida rigorosa»?

  • Tal como prometido ontem, regresso para mais uma «sessão» de correcção deste texto…

    … Em que se afirma, a dado ponto, que…

    … «Vinte anos passados sobre as primeiras edições deste (“A Galxmente”) e do outro grande livro de FC portuguesa, “Terrarium” de João Barreiros e Luís Filipe Silva, não tenha voltado a haver nenhum outro grande, ou sequer pequeno, romance de FC por autores portugueses. Diria que o género está ligado às máquinas, mantido vivo por iniciativas pontuais de antologias de autores que, apesar dos esforços e das promessas, não têm conseguido ir mais longe.»

    É evidente e grosseiramente falso que, nos últimos 20 anos, não tenha sido editado pelo menos um romance de ficção científica de um autor português. É indiferente nesta asserção quer a apreciação subjectiva (qualidade) quer a objectiva (dimensão), porque se afirma claramente «grande, ou sequer pequeno».

    Sem ser exaustivo, eis, desde já, apenas quatro exemplos (e, claro, outros existem) que demonstram o contrário: «O Jardim das Delícias», de João Aguiar; «A Bondade dos Estranhos», de… João Barreiros (!); «O Amanhã Perfeito», de Beatriz Pacheco Pereira; «O Último Europeu – 2284», de Miguel Real. Este, curiosamente, participou nesta mais recente edição do Fórum Fantástico, na sessão denominada «Outra História, Outro Portugal», sem dúvida por causa daquele citado romance!..

    … E, amanhã, aqui vai-se recordar o que o mesmo Miguel Real escreveu sobre um outro romance português de FC, também posterior a «Terrarium», e que para o autor deste texto não só não deveria ser mencionado como nem sequer deveria ter existido… ;-)

    • sem dúvida. é que foi um boom editorial deveras assinalável. aliás, do que mais se encontra nas livrarias são romances de FC portuguesa. que faria eu sem os correctivos do octávio? que faria o mundo sem os correctivos do octávio? que faria o universo sem os correctivos do octávio?

      • Você disse (escreveu) que não voltou a haver um só romance de FC, grande ou pequeno, por autores portugueses. Não é propriamente o mesmo que não existir um «boom editorial» nem livros (em quantidade e qualidade) do género nas livrarias.

      • e de impacto igualmente tão pequeno, que se tornou invisível.

        já sei.

        vai-me recomendar um oftalmologista.

        com lentes super-hiper-mega-über-garrafais.

  • Tal como prometido ontem, venho hoje lembrar – ou revelar, para quem nunca chegou a ler – o que Miguel Real escreveu sobre «Espíritos das Luzes», em dois artigos publicados no Jornal de Letras, Artes e Ideias…

    … O primeiro, intitulado «O anacronismo como arte», na edição Nº 1006, de 22 de Abril de 2009. O conhecido e prestigiado cronista, ensaísta e romancista começa por afirmar que o meu livro «constitui-se, tanto na sua estrutura quanto no seu estilo, como uma narrativa estranha, deveras singular mesmo, sem correspondência em outro romance na actual literatura portuguesa.» Essa estranheza e essa singularidade ocorrem porque a obra «interage simultaneamente em dois tempos históricos radicalmente distintos. (…) Jogando esteticamente na categoria de anacronismo, opera uma paradoxal desproporção voluntária entre forma e conteúdo (acompanhada por dois tipos radicalmente distintos de linguagem) – uma forma futurista integra um conteúdo e uma linguagem eminentemente clássica, ou, dito de outro modo, uma narrativa futurista funda-se numa história real do passado distante.» E é aqui que reside, segundo Miguel Real, «o efeito de estranheza, um autêntico soco no estômago literário do leitor, que se desorienta, não ousando classificar a narrativa que está lendo: romance de costumes?, romance histórico? romance de ficção científica?, possuindo, no entanto, a certeza (e o deleite) de seguir os capítulos em imagens de fundo cinematográfico.» O crítico salienta, enfim, que o meu livro oferece ao leitor um «grande, grande desafio (…), quase uma provocação»…

    … E o segundo, intitulado «Em busca de um novo cânone», na edição Nº 1024, de 30 de Dezembro de 2009. Neste Miguel Real considera «Espíritos das Luzes» uma das «seis superiores novidades» da década «no campo do romance histórico», e que «evidenciam-se como as mais originais e consistentes, que prometem substituir as clássicas obras de Fernando Campos e João Aguiar».

      • «Ilegível» só para si e para mais um ou outro com óbvios problemas de concentração e de entendimento (e/ou com uma perspectiva limitada do que pode ser a literatura de FC & F). Para isso há medicação própria… fale com o seu médico. ;-)

      • somos uma grande legião de incompreendedores da grandeza e legibilidade da obra, já para não falar do terreno experimental que desbrava. suspeito que médico que nos apanhe teria rendimento garantindo por uns anos.

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