Foi você que pediu uma Comic Con?

Durante anos existiram pessoas a pedir uma Comic Con à americana. A maioria não sabia bem o que estava a pedir, e ficaram desiludidos com o que encontram na Exponor.

Ao contrário dos festivais de banda desenhada convencionais, no modelo franco-belga, uma Comic Con é mais parecida com uma feira, geralmente de BD, mas cada vez mais de entretenimento ou, se preferirem, cultura Pop.

Querer colocar 15 a 20 mil pessoas em três dias num evento só com BD é quase suicídio.
A CITY, organizadora da Comic Con Portugal, apostou claramente no modelo de feira de entretenimento, onde a BD era só uma vertente, onde as outras duas eram jogos e cinema e TV. É um formato que pode não agradar a alguns, mas que em Portugal era o único que fazia sentido, quando o objectivo é ter entre 15 a 20 mil visitantes. Partilho da opinião dos autores norte-americanos de que as Comic Cons andam a dar cada vez mais destaque ao cinema e TV, relegando para segundo plano a BD. Contudo, Portugal não é os EUA e cá não faria qualquer sentido não apostar de modo claro no cinema e TV. O mercado de BD nacional é diminuto, vendas de 1,500 exemplares são muito boas, vendas de 3,000 exemplares são excelentes! Querer colocar 15 a 20 mil pessoas em três dias num evento só com BD é quase suicídio.

A opção de ter as três áreas presentes foi uma aposta sensata e a BD não foi relegada para um segundo plano pela organização, o cartaz de BD era forte e apresentava bons nomes e o público reagiu em consonância. O destaque que os convidados de BD tiveram na comunicação social é só um reflexo da dimensão e importância que a BD tem em Portugal. Os autores e livreiros de BD presentes no evento não saíram a perder com o protagonismo das estrelas do cinema e TV ou com a presença de autores estrangeiros de relevo. Pelo contrário, saíram a ganhar – quanto mais público existe num evento, mais hipóteses existem de vender.

O cartaz inicial não era mau para um evento nacional, mas o cartaz final foi melhor
A CCPT começou mal, o anúncio do evento acabou ser atribulado e precipitado por factores externos à organização, mas depois da desconfiança inicial conseguiram corrigir o curso e os primeiros anúncios já apresentavam um cartaz interessante para um evento nacional. O anúncio da presença de Natalie Dormer veio trazer um nome popular – embora não possa ser considerada uma estrela “grande” – e que faz parte do elenco de uma série popular (Guerra dos Tronos) e de um filme popular (Jogos de Fome). O cartaz inicial não era mau para um evento nacional, mas o cartaz final foi melhor, com adições quase até ao dia de abertura.

A organização do evento conseguiu ter presentes autores das séries que o público mais pedia e ter nomes grandes a nível de BD. Contou com a presença dos canais de televisão RTP, Fox, Mov, SyFy e Disney Channel. Antes do evento abrir portas, já estava demonstrado que até havia uma organização competente. O cartaz era apelativo e o público respondeu, superando as expectativas. No final, foram mais 12 mil pessoas do que o previsto nas estimativas mais optimistas dos organizadores do evento.

A maioria do público adorou, outros não gostaram e existe sempre que tenha de reclamar e foram muitos aqueles que o fizeram, seja na página do evento seja no seu blog pessoal. É normal, existem sempre pessoas que não ficam satisfeitas. Para além disso, existe sempre quem tenha ido ao engano, por ser uma novidade ou à espera de algo que só existia na sua cabeça.

Considerar que um evento que tem mais 12 mil visitantes do que o previsto foi um fracasso é completamente estúpido. Dizer que “foi tudo mau, muito mau” é um absurdo, em particular quando as maiores críticas que se aponta são aquelas que estão inerentes ao formato do evento: filas e outras que já são externas aos eventos como a falta de transportes públicos.

Isto não quer dizer que na CCPT foi “tudo bom, muito bom”, quer dizer que correu da maneira que seria de esperar para uma primeira edição: tem muitas arrestas para limar. Existem situações onde será preciso melhorar, é necessário voltar a frisar que foi um primeiro evento? Às vezes parece que é!

Existe algo que nunca vai melhorar na Comic Con enquanto for um evento de sucesso, com nomes que atraem multidões: as filas. O modo como as filas são geridas pode e deve ser melhorado, mas elas acontecem em qualquer evento com milhares de visitantes que pretendem ver uma mesma actividade em particular das diversas que existem. O bilhete normal só dava, como foi sempre salientado, direito à entrada no recinto, a entrada nos auditórios está sempre limitada ao número de lugares que existem. E mesmo os bilhetes VIP só garantem os lugares para quem entrar até cinco minutos antes da actividade começar. Convém as pessoas chegarem cedo ou, no mínimo, a horas. Esta é uma realidade em qualquer Comic Con ou em qualquer outro evento com características semelhantes.

Convém as pessoas irem preparadas para esperar em filas, mas quem não gosta de filas o melhor que tem a fazer é não ir a eventos com milhares de pessoas.

Fila para o painel de Natalie Dormer, duas horas antes e começar.
Fila para os autógrafos de Natalie Dormer, duas horas antes e começar, segundo o Observador.

Um dos tópicos em que as discussões em torno da CCPT descambam, e já irrita, é a discussão estúpida de Norte contra Sul onde até pessoas cultas e inteligentes se transformam em peixeiras ao despique, a gritar “o meu bairro é que é”! Existem pessoas que são comodistas e não gostam de se deslocar e dava sempre mais jeito as coisas acontecerem num local próximo. Esquecem-se que uma descentralização de eventos só contribui que exista uma maior diversidade e variedade dos mesmos.

A queixa mais surpreendente é referente aos autocarros, não devido ao facto de um autocarro de 50 em 50 minutos ser suficiente, é manifestamente pouco, mas derivado a este não ser o primeiro evento de grande dimensão a realizar-se na Exponor. Esta situação nunca se verificou antes? É algo que se deve unicamente ao facto de o público alvo da CCPT ser jovem e não ter meio de transporte próprio? São questões que não vi serem abordadas, a conversa descamba geralmente num discussão sobre se o Porto têm ou não condições para receber eventos de grandes dimensões.

É fácil dizer que a organização devia arranjar mais autocarros, ignorando a complexidade da questão. Porque, a menos que exista um reforço feito por quem presta esse serviço na região, significa ter de investir numa área que não é da competência da organização, exclusivamente.

E mesmo que invistam em transportes, irão sempre existir queixas. A existência de mais transportes será sempre salutar, e irá minorar alguns inconvenientes, mas dificilmente irá eliminar as reclamações por completo. No sábado e domingo, a CCPT esteve aberta 12 horas, das 10 às 22. O reforço é problemático, porque em determinadas horas devia existir autocarros de 5 em 5 minutos e em outras de 30 em 30 minutos. O que implica ter x autocarros e x motoristas durante x horas e, se for a organização a pagar então, significa abdicar de um ou dois convidados.

Debater se a rede de transportes pública do Porto é melhor do que a de Lisboa (ou não) é um bocado irrelevante. A questão é saber o que fazer para melhor o que existe e minorar inconvenientes, sendo que é absurdo fazer uma comparação entre Lisboa e Porto e ninguém mencionar os outros eventos de grande dimensão que ocorrem no mesmo recinto.

Esta é uma situação que pode ser solucionada através em parceria com a STCP, sendo que agora a organização já tem um trunfo que negocial que anteriormente não tinha: um evento de sucesso com 32 mil visitantes e cobertura nacional em todos os meios de comunicação generalistas.
Pode parecer ridiculo ter de se andar constantemente a repetir que esta foi a primeira edição da Comic Con Portugal, contudo é necessário, porque existem sempre aqueles que ignoram esse detalhe e as contigências que isso implica: esta edição da CCPT foi realizada com base em projecções e todas as negociações foram feitas com base em projecções sem existir qualquer ponto de referência, uma vez que não existiu anteriormente nenhum evento realizado. Isto deveria ser óbvio. Só que para alguns não é.

Mas pronto, à boa maneira portuguesa, passa-se uns paninhos quentes, desculpa-se com a primeira vez, com as previsões que falavam em 20.000 e afinal foram 30.000, e repete-se o «para o ano é que é».Nuno Neves
Só alguém que é muito optimista, ou estúpido, é que espera encontrar na primeira edição de um evento uma máquina bem afinada e sem falhas. Isso é algo que sucede quer seja numa Comic Con ou em qualquer outro tipo de evento. Do mesmo modo que ter mais 12 mil visitantes que o que estava previsto – e foi anunciado em press release oficial, divulgados em diversos meios – causa constrangimentos.

Isto não significa dizer que está tudo bem e menos ainda que correu tudo mal mas está-se à espera que para o ano corra tudo bem. O evento correu bem, a generalidade dos comentários de quem foi é positiva, seja a nível de visitantes, imprensa, lojistas, autores, editores, convidados presentes nacionais ou estrangeiros. Existe quem não tenha gostado, existe quem tenha tido experiências “traumáticas” (narradas ao detalhe em blogs pessoais ou na página do evento). Porém, a verdade é que a grande maioria das opiniões é positiva. Quando se anda pela net, até pode não parecer, mas neste evento (como em outros) a organização recebe das criticas mais bem fundamentadas até às mais absurdas.

Existe quem até tenha tido uma epifania ao ir à Exponor, e descoberto a raiz de todos os males do país!

E se às vezes nos perguntamos como é que o nosso país chegou ao estado onde se encontra. A resposta muitas vezes está à nossa frente. É que pessoas ligadas à organização da Comic-Con também votam. Nuno Neves

Desculpem lá não aprofundar as problemáticas sócio-politicas de as pessoas ligadas à Comic Con votarem, prefiro antes falar de uma crítica cujos culpados são unicamente os visitantes.

fox hawkgirl

Existe quem tenha mencionado que existia pouco cosplay no evento. Em números reais até pode ter tido mais do que em eventos como IberAnime, AniComics ou AniFest por exemplo, embora em termos percentuais teve muito menos. Existem várias fotos de multidões onde só se vê um cosplayer ou dois. O que nem é de admirar derivado ao número de visitantes.

É mais do que óbvio que a maioria dos visitantes desta edição eram “civis” que não é usual irem a eventos de Cosplay ou semelhantes, aqueles que costumam marcar presença nesses eventos até estiveram na sua grande maioria lá, mas é um número que se dilui na multidão. Quem se queixa de existir pouco cosplay na Comic Con deve olhar-se ao espelho primeiro: fizeram cosplay? Se fizeram podem queixar-se de existir pouco. Se não fizeram, calem-se. A sério. É que os cosplayers não são palhacitos do circo pagos pela organização para divertir o público, são visitantes, fãs, que têm um passatempo que uns levam muito a sério e outros não, aproveitando só a ocasião para encarnarem as suas personagens e divertirem-se.

A CCPT era um projecto ambicioso que ultrapassou as previsões mais optimistas.
Quem não fez cosplay e se queixa da falta de cosplay só está a criticar-se a si próprio, afinal também faz parte dos que não estão para se “mascarar”. Ninguém é obrigado a fazer cosplay para ir a uma comic con, é uma opção pessoal. O número de cosplayers e a qualidade do cosplay presente é algo que está dependente dos visitantes e não da organização. Ninguém é obrigado a fazer cosplay para ir ao evento, o cosplay é só uma parte da festa. A presença de um grande número de “civis” até é bom sinal, significa que o evento chegou a um público generalista e não foi algo feito só para um nicho, algo que acaba por beneficiar todos os envolvidos.

A CCPT era um projecto ambicioso que ultrapassou as previsões mais optimistas, obviamente que tem de melhorar em muitos aspectos, mas até se pode dizer que os “incompetentes” da organização fizeram o mais fácil: criar um evento que começa com uma base de 32 mil visitantes. É uma base sólida para se afirmar que se tem realmente uma Comic Con Portugal. Algo que é sempre positivo, uma vez que “desastres de organização” deste calibre fazem sempre falta à BD em Portugal.

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10 Comments

  • só devo corrigir que a 1ª fotografia não é a fila para o painel da Natalie Dormer mas sim a fila para a sessão de autógrafos com a mesma. O painel estaria já a decorrer ao lado.

  • Independentemente das questões de formato e de organização, o balanço em termos de banda desenhada parece-me negativo.
    Beneficiada por ter peso no nome do evento, a BD portuguesa não aproveitou esta boleia da edição experimental. Houve muito aquela desconfiança típica do português. Contabiliza-se um único lançamento, e um número de editores, livreiros e autores baixo.
    Talvez para o ano a aposta seja maior. Parece justificar-se que o seja, aproveitando a oportunidade para levar a BD portuguesa a outros públicos.
    Também aqui, a oportunidade só existe enquanto existe. O modelo do evento não precisa da BD, e a qualquer momento pode desinvestir.
    A crónica do Bruno volta a levar a BD à boleia do resto, e parece-me que, num sítio sobre BD, deviamos analisar as coisas com outro detalhe. Foi um evento bem sucedido? Sem dúvida. Foi um êxito para a BD portuguesa? Não me parece.
    Quanto ao formato, e apesar de também ser um crítico das pranchas em paredes (porque a BD é para se ler), não fui eu que pedi uma Comic Con.

    • Pedro, mas o balanço da BD é negativo porque as editoras e os autores não investiram, isso nada tem a ver com a organização. As editoras para terem stand tinham de contactar a organização. Os autores para estarem presentes no Artists’ Alley tinha de contactar a organização e investir na deslocação.

      Os convidados que estiveram presentes foram aqueles que a organização trouxe, não existiu um único convidado de BD que fosse convidado de uma editora, por outro lado a FOX não só teve presente a Natalie Dormer, com 3 autores da série Da Vinci’s Demons e para além de iniciativas paralelas como o aluguer de zombies ou o doação de sangue. Se os canais televisivos que têm mais poder financeiro, mais alcance mediático e atraem mais público marcam presença, mas as editoras e os autores nacionais de BD ficam em casa… de quem é a culpa?

      Agora para o ano é provável que existam mais autores e editoras presentes, veremos é se existe algum investimento das editoras no evento. Porque regra geral o investimento que as editoras têm realizado em eventos de BD tem sido para o nulo, no máximo marcam presença. Isto aqui é algo que até nos remete para a ausência de autores publicados no AmadoraBD…

    • Já agora, existiu um autor espanhol e um argentino radicado em Espanha que marcaram presença no Artists’ Alley, por acaso não tive a oportunidade de saber a opinião dele, mas até não me admirava se no próximo ano surjam por lá mais uns espanhóis.

  • Pescadinha de rabo na boca: toda a gente quis ir sábado (cof cof Dormer cof cof) , aquilo ficou a abarrotar e as infraestruturas deram todas o berro, as pessoas não gostaram e agora dizem que foi tudo horrível.
    As (poucas, relativamente) pessoas que lá estiveram o fim de semana todo abanam a cabeça e esperam ansiosamente pela próxima edição.
    Houve algumas falhas de organização, sim. De sábado espero que tenham aprendido que em Portugal até um nome vagamente mainstream já move multidões e a Exponor, embora espaçosa, precisa de um grande reforço de infraestruturas para lidar com isso – multibancos, zona de restauração, casas de banho…
    No geral do fim de semana, houve sobretudo falhas de comunicação (não haver um sistema tipo altifalantes para notificações de última hora, por exemplo, se bem que dado o sucesso deste ano dá para sonhar com uma aplicação que nos dê a informação em real-time e notificações. O que implicaria um serviço de wi-fi muito mais robusto do que houve, but a geek can dream…) e pouco tempo nas sessões de autógrafos. Daria jeito também uma pré-inscrição para as perguntas nos paineis, ou mesmo um microfone fixo atrás do qual se fizesse fila, perdia-se menos tempo, haveria menos confusão e doeriam menos braços. Ah, e regra básica, se alguém tem fans suficientes para ser convidado para dar um painel, tem fans suficientes para justificar uma sessão de autografos.
    No geral, foi um evento excepcional, que quebrou barreiras e abriu novos horizontes no que toca a eventos nacionais.E eu estarei sem dúvida, no próximo, de weekend pass em riste.

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