Fernando Relvas na Primeira Pessoa

O falecimento de um autor não significa o desaparecimento das suas ideias e pensamentos.

Existem muitos mitos sobre o Fernando Relvas, não é necessário criar novos ou esquecer que alguns foram desmitificados quando o autor ainda era vivo, incluíndo por ele.  A vasta obra que produziu  permite longas dissertações: contudo neste texto vou só focar-me em alguns mitos que rodearam o autor e recuperar algumas das suas palavras, as quais merecem ser recordadas quando se aborda a sua carreira e se fala da BD portuguesa.

Durante décadas Relvas encarnou o mito do “talentoso boémio indisciplinado e irrascível que não consegue cumprir um prazo, acabar uma história, fixar-se num estilo, publicar um álbum.”  Um mito que, como indica João Paulo Cotrim, “dá jeito e,  de vez em quando, talvez até ao próprio, mas não resiste a uma reflexão”, porque o autor desenvoleu ao longo de mais de quarenta anos um corpo de trabalho impressionante, em particular para Portugal.

A carreira errática errática que teve enquanto autor deriva, sobretudo , da ausência de editores, um mal que não aflige só o Relvas mas que no seu caso fez com que  obras “fundamentais da BD portuguesa”  ficassem inéditas no formato álbum durante décadas e algumas, ainda hoje, não estejam publicadas.  Motivo pelo qual,  para duas ou três gerações, o autor seja  mais um mito do que uma realidade.  Contudo não é algo que suceda derivado à ausência de trabalho.

Algumas das peripécias que Relvas viveu com os editores nacionais ficaram guardados para a posteridade em entrevistas e nos seus blogues, Urso do Relvas e Hardline,  os quais, apesar de terem sido objecto de diversas purgas e mudanças pelo autor,  acabam por permitir aos visitantes conhecer um pouco mais sobre o autor na primeira pessoa.

Uma das entrevistas que permite conhecer o autor é a que concedeu a Machado-Dias,  aquando do seu regresso a Portugal. Apesar de ter sido realizada há   seis anos continua a ser uma boa visão sobre a vida e obra do autor, abarcando os períodos mais importantes da sua  carreira .  Revela o que ele pensava sobre o panorama da BD nacional e propõe  um desafio ao entrevistado, o qual merece ser aceite também por outras pessos.

“Imagina que ao longo dos anos 80 e 90 a edição teria apostado em criar condições para manter os autores existentes à vista dos leitores, nos jornais, nos escaparates, discretamente mas com determinação.

Imagina tu que belo espaço não teriam agora os novos autores onde assentar os seus talentos! Uma camada de leitores vasta, de gostos diversificados.

Mas as coisas foram por outros caminhos, apertou-se a vida dos autores com táticas labregas que permitiram a editores, seja de livros ou direcções de jornais e revistas, movimentar-se sem constrangimentos éticos, seguindo apenas a grande luminária que arvoravam no alto das suas cabeças.

É certo que se gastou muito dinheiro em festivais, agora todos internacionais, e começaram a editar-se livros e catálogos, alguns deles luxuosos. Criou-se, num determinado momento, a sensação de que tudo estava a ir bem. Por certo que muita gente se deixou entusiasmar com a fantástica situação que vivia a banda desenhada em Portugal, desprezando a busca de profissionalização e saboreando alguns fugazes momentos de glória. Ou seja, muita prata sobre a mesa e nenhuma comida no prato.

Cresceu o número de autores mas não o de leitores, e temos hoje mais autores do que conseguimos mastigar, ou sequer apreciar.”

São afirmação que continuam tão pertinentes hoje como quando foram proferidas,  e não são as únicas que proferiu. Relvas, falando na terceira pessoa, também fez questão de salientar uma simples  verdade:

Não foi o álbum que deu cabo da banda desenhada em Portugal. Álbuns nunca seriam demais e o Relvas tentou por várias vezes publicá-los sem sucesso, antes dessa fase. Pelo contrário, houve poucos álbuns.

O que deu cabo da banda desenhada em Portugal foi uma sociedade de compadrios e fidelidades de características rurais, de doutores-e-engenheiros, de falsos optimismos e de imitações de prosperidade, de elites paradas. Deu cabo disso e de muitas outras coisas, e persiste, e está para ficar, cada vez mais de calhau e caliça.”

São afirmações contundentes e com pouco a contestar, mas talvez seja por isso que alguns preferem falar de mitos ao invés de abordarem a realidade.

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