Exposição AmadoraBD 2013: Seis Esquinas de Inquietação (Autores Brasileiros Contemporâneos)

A exposição colectiva “Seis Esquinas de Inquietação, Autores Brasileiros Contemporâneos” apresenta o trabalho de seis autores brasileiros contemporâneos, contudo não é um exposição que é feita com base partilha de uma nacionalidade por parte dos autores mas devido a afinidades em termos de estética e temáticas.

A exposição é comissariada por Pedro Moura, crítico de banda desenhada, que escreveu um ensaio sobre a mesma e os seus autores para o Catálogo do Amadora BD. São dois excertos retirados desse catálogo que aqui apresentamos, para dar a conhecer um pouco mais a exposição “Seis Esquinas de Inquietação”.

A banda desenhada, logo à partida, e no nosso momento histórico – em que nunca houve tanta diversidade de produção, de géneros e de abordagens – não compartilha a mesma presença cultural e de recepção crítica que outras linguagens e artes, apesar das reconfigurações constantes da paisagem mediática. No entanto, ela pode muitas vezes tornar-se um instrumento de reivindicação de uma voz particular, que exerce aquilo que Michel de Certeau considerou de microresistências ou microliberdades no seio da massiva realidade dos poderes e instituições, particularmente empedernidas na contemporaneidade do neoliberalismo. São formas de escapar a essa disciplina. O problema mais premente não é tanto que haja uma distribuição desigual das vozes, mas antes a consideração de que existirão algumas pessoas que não têm sequer acesso a uma voz legítima, a um espaço de expressão. Nessa maquinaria, a banda desenhada, em vez de servir de mero veículo de entretenimento, ou de confirmação das ideologias e das heteronormatividades vigentes (quase sempre escondendo esse papel, escudando-se nos argumentos “isto não é político”, “isto é apenas entretenimento”, etc.; aliás, quase sempre a defesa da “simplicidade e sinceridade” é o instrumento mais empregue contra uma tentativa de pensamento contrário, alternativo, sobretudo de pensamento), pode revelar, a um só tempo, de um fazer, e de um desvio. No primeiro caso, estamos a querer associar-nos de novo a Certeau, quando este define a arte popular, em L’invention du quotidien, 1. Arts de faire, como “uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma arte de combinar indissociável de uma arte de utilizar”. Esse uso, por sua vez, atingirá a possibilidade de criar espaços para vozes negligenciadas, inclusive pela própria banda desenhada.

O conjunto de autores brasileiros desta pequena exposição deve-se não à circunstância da partilha de nacionalidade, que não se pretende essencializar de forma alguma (tal como essencializar as biografias específicas de cada autor), mas a qual ou pode ser entendida como uma forma de foco, ora então instrumentalizada para chegar às outras afinidades entre eles. Com graus de sucesso (comercial e crítico) bem distintos, com trabalhos de naturezas diversas, e abordagens singulares, poderemos dizer que existem traços comuns, ou forças comuns entre estes autores, nomeadamente na construção que fazem de uma óptica urbana sobre aquelas pessoas que usualmente não têm voz na esfera pública. Emergem, da leitura dos seus trabalhos em conjunto, não apenas retratos humanos do Brasil de agora, como também de plataformas que pretendem reflectir, espelhar e pensar as tensões sociais, a urbanidade contemporânea, e o exercício da política num sentido muito específico.”

No ensaio é também efectuada uma análise, mais específica, da obra de cada um dos autores patentes nesta exposição colectiva. .

André Diniz (n. Rio de Janeiro, 1975) é autor e ilustrador de toda uma série de fanzines e publicações independentes (Grandes Enigmas da Humanidade, Informal, Café espacial), livros ilustrados ou em banda desenhada para leitores jovens (História Mundial em Quadrinhos, História do Brasil em Quadrinhos, O negrinho do pastoreio, etc.), mas o foco desta exposição será em Morro da Favela. (…) é precisamente no testemunho de Maurício Hora e das pessoas que ele fotografa que se revela um discurso de (…) solidariedade na miséria, felicidade na adversidade social, vozes decididas no seio do silêncio a que são obrigados do ponto de vista da norma política.

Marcelo d’Salete (n. São Paulo, 1979), depois de ter espalhado muitos trabalhos curtos em variadíssimas publicações de maior ou menor fortuna no Brasil (Front, Grafitti) e no circuito internacional (Stripburger), inclusive em colaboração, e também ter feito algum trabalho de ilustração infantil, ganharia um outro nível de presença com a publicação de dois livros: NoiteLuz, que sairia em 2008 (pela Via Lettera), e Encruzilhada, de 2011 (Barba Negra). (…) Menos do que criar uma história única, singular, na qual se revelasse subitamente o papel de cada personagem, os seus percursos jamais se cruzam, mas fazem com que o leitor aceda a uma espécie de força centrípeta, que nos força a olhar para o “espaço social”, para o “espectro político” que formam (um pouco como em A Contract with God, de Eisner, possivelmente o exemplo mais conhecido deste tipo de estrutura).

Pedro Franz (n. Florianópolis, 1973) é um dos jovens autores que tirou partido da internet enquanto meio de comunicação que permite não somente uma mais célere circulação do seu trabalho como também ferramenta de comunicação e fundação de comunidades de interesses mútuos. (…) Pedro Franz cria um cadinho muito interessante de misturas de estilos e linguagens da banda desenhada, e podemos encontrar nas suas pranchas abordagens tão devedoras de um mainstream ocidental como da mangá (ao nível do imaginário, figuração, elementos narrativos), como de abordagens expressivas de clássicos como Breccia e outras estratégias dos alternativos (composições de página variegadas, ruído na matéria visual).

Diego Gerlach (n. São Leopoldo, Rio Grande do Sul, 1981), como muitos dos outros jovens autores um pouco por todo o mundo, tem inúmeros trabalhos espalhados nas mais distintas antologias, revistas, zines e publicações (Prego, Samba, a portuguesa Lodaçal Comix), e apesar de podermos apontar duas publicações mais alongadas e a solo – A.D.B., O ano do bumerangue (Prego, 2011) e O plexo holístico (na colecção 1000-1, ainda pela Barba Negra, 2012) – a consideração do seu trabalho como um todo tem de tirar partido das novas plataformas de divulgação ao alcance dos autores contemporâneos, desde os sites e blogues ao tumblr. (…) Gerlach tem [várias] abordagens onde impera uma concentração maior para com o quotidiano, o aborrecimento de todos os dias nas vidas mais ou menos banais das cidades, como no caso da sua participação em Ensaio do vazio, onde se salientam sobretudo a inércia e o desencanto da personagem (contrastando com a parte sexualizada de Franz, ou dos outros participantes).

André Kitagawa (n. 1973, São Paulo) tem mostrado um percurso e desenvolvimento do seu trabalho que tem procurado suavizar, de certo modo, não apenas a forma do seu trabalho mas igualmente as temáticas e estratégias de discussão tópica a que se oferecem. (…) Se Kitagawa não parece muito interessado em criar narrativas redentoras, ou subsumidas a felicidades fáceis, isso serve melhor para sublinhar as situações socialmente relevantes das suas personagens, e as inquietações que as abarcam e que se deveriam estender aos leitores.

Rafael Sica (n. Pelotas, Rio Grande do Sul, 1980) é, de todos os artistas desta pequena reunião, aquele que mais envereda por narrativas não-naturais. [Entre os trabalhos presentes estarão] páginas que apresentam um número desigual de vinhetas, dispostas de forma livre mas cuja aparente desassociação entre imagens, cambiantes entre si, podem fazer surgir um sentido coeso, num dos casos parecendo mesmo um comentário, ainda que diagonal, aos acontecimentos de São Paulo. É uma outra forma de criar resistência aos discursos oficiais, sejam “a favor” ou “contra”, mas que se apresentam sempre “seguros” e “integrados”, quando o que Sica cria é a continuidade da fluidez dos acontecimentos.

André Diniz vai estar nos dias 2 e 3 de Novembro no Amadora BD 2013 para promover o álbum Duas Luas“, ilustrado por Pablo Mayer, que vai ser editado pela Polvo.

No Ler BD estão disponíveis algumas análises, mais detalhadas, de Pedro Moura aos obras realizadas pelos autores que fazem parte desta exposição colectiva.

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