Exposição AmadoraBD 2013 | David Soares, O Acto da Escrita é um Acto de Autor

David Soares foi o vencedor do prémio para Melhor Argumentista Nacional, de 2012, na 23ª edição do festival internacional de banda desenhada Amadora BD, com o seu livro “O Pequeno Deus Cego”, desenhado por Pedro Serpa. Em relação a esse prémio, estará patente no 24º Amdora BD 2013 a exposição intitulada “David Soares, O Acto da Escrita é um Acto de Autor“.

Reconhecido como escritor de romances meticulosamente pesquisados e complexos, David Soares foi definido pela revista literária Os Meus Livros como sendo «o mais importante escritor português de literatura fantástica». Escreveu quatro romances, quatro livros de contos e oito livros de banda desenhada (destes, cinco foram desenhados por outros artistas).

A sua faceta enquanto escritor, à qual dedicou em exclusivo a última década, torna fácil que nos esqueceçamos que David Soares também é desenhador e já ilustrou os seus próprios argumentos. Esta exposição patente no Amadora BD recupera esse facto, com a exibição de pranchas originais dos livros “Sammahel” (prémio de Melhor Argumentista Nacional nos Troféus Central Comics de 2001) e “A Última Grande Sala de Cinema” (vencedor de uma bolsa de criação literária, atribuída pelo Instituto do Livro e das Bibliotecas e pelo Ministério da Cultura em 2002).
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Estarão em exibição pranchas originais de diversos artistas que colaboraram com David Soares. Será possivel ver pranchas do àlbum “Mucha” (2009) ilustrado por Osvaldo Medina e arte-finalizado por Mário Freitas. Referente ao álbum “É de Noite que Faço as Perguntas” (2011), em que cada capitulo foi ilustrado por um autor diferente (Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel Silvestre da Silva e Richard Câmara), deverá ser possível observar uma prancha original de cada artista. Pedro Serpa, que desenhou “O Pequeno Deus Cego” (2011) e “Palmas Para o Esquilo” (2013), terá em exibição pranchas de ambos os álbuns.

Esta restrospectiva é especial, porque irá apresentar materiais inéditos, relativos ao acto da criação e da escrita. Assim, será possível ler, em exposição, os argumentos de “Mucha”; “O Pequeno Deus Cego” e Palmas Para o Esquilo, assim como apreciar-se os layouts (planificações das pranchas) feitos por David Soares para “É de Noite Que Faço as Perguntas”, “O Pequeno Deus Cego” e “Palmas Para o Esquilo”.

Para além de escritor e desenhador, David Soares também editou dois discos em spoken word: “Lisboa” (2002) e Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (2012). Este, com música original de Charles Sangnoir (La Chanson Noire, Karuniiru) estará disponível para audição num posto de escuta e os textos respectivos também estarão disponíveis para leitura.

O crítico Pedro Moura foi convidado para escrever um texto sobre David Soares para o catálogo do 24º Amadora BD, reflectiu nesse texto sobre o acto criativo da escrita na banda desenhada, mais do que para a banda desenhada, desafiando a distinção de autor completo e a menorização de quem se dedica apenas a uma dessas tarefas criativas, que são necessárias à concepção de uma banda desenhada.

“Durante largos anos da existência do campo artístico que nos ocupa, a ideia de que seria possível existir um cargo de “escritor de banda desenhada” passava ao lado dos seus próprios leitores e cultores. Faça-se uma história desta arte de uma forma mais convencional ou mais perspectivada, atravessar-se-ão sempre as águas confusas e mitógrafas da noção do “autor completo”, aquele que reúne de forma perfeita as funções percepcionadas como bicéfalas da banda desenhada: a imagem e o texto, a história e os desenhos. Como se essas competências existissem num vácuo e, portanto, fossem passíveis de serem analisadas separadamente, sopesadas em distância uma da outra, sobretudo quando ocorre o facto da colaboração, entendida à luz daquela noção, daquele mito, do “completo”, como se estivessem num estádio inferior de valorização.”

Um mito que é mais agreste para os argumentistas. O lado gráfico da banda desenhada é, para o grande público, o aspecto mais visível dessa linguagem. Num país, como Portugal, em que abundam os autores ditos “completos” e escasseiam os argumentistas, essa visão tende a ser ampliada, mas a distinção é igualmente efectuada em outras latitudes, sendo esse um dos apectos focados por Pedro Moura no texto que será possível ler integralmente no catálogo a ser editado pelo Amadora BD, aquando da abertura do festival deste ano. Contudo, quero salientar mais um ponto, que é fundamental:

“Dizer autor completo, escritor, argumentista, etc., aponta a toda uma série de especificidades de produção e, acima de tudo, a valorização do trabalho e responsabilidade. Ora David Soares é um autor.”

O que é que podemos esperar da exposição “David Soares, O Acto da Escrita é um Acto de Autor” é, em suma, visualizar todo o processo criativo deste autor, tanto em parceria com outros desenhadores ou a solo. A cenografia desta exposição é algo que só poderemos ver a partir de dia 25 de Outubro, quando o Amadora BD começar, mas estão reúnidas todas as condições para apreciar as várias facetas de um autor que criou um universo singular.

Nota: O título oficial da exposição é “David Soares, O Ato da Escrita é um Ato de Autor” mas foi corrigido neste artigo para português correcto.

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