Ermal, de Miguel Santos

Um dos novos títulos do alinhamento editorial da Escorpião Azul, Ermal de Miguel Santos leva-nos a um retro-futurismo pós-apocalíptico.

Partindo de um conceito interessante e bem desenvolvido, envolve-nos numa história cativante, que só teria a beneficiar com um aprimoramento do trabalho gráfico.

Recordações do guarda-chuva nuclear

E se a guerra fria tivesse entrado por uma fase quente? Se as potências do hemisfério norte se tivessem destruído num apocalipse nuclear? Em Ermal, a destruição causada pela guerra nuclear levou a um êxodo de novos colonos portugueses da Metrópole para as colónias africanas, num mundo em que o 25 de Abril nunca aconteceu. Angola é um novo oeste selvagem, dividida entre caçadores esclavagistas que capturam mão de obra para as minas, exércitos de zelotas niilistas, donos de petrolíferas entrincheirados nos campos de petróleo e um grupo de combatentes que procura restaurar a civilização. O medo legítimo do holocausto nuclear, que caracterizou uma boa parte do século XX, serve aqui de cenário a uma história de aventuras em ambiente pós-apocalíptico.

A sensação que retirei da leitura é o ter mergulhado numa história in media res. Somos envolvidos de chofre nas aventuras de um personagem sem nome, num registo de ação contínua. Sente-se que estivemos a ler parte de um arco narrativo maior, que exploraria mais este intrigante mundo ficcional. Não que esta aventura, com todas as suas empolgantes peripécias, não funcione, bem pelo contrário. O encadeamento narrativo é eficaz, a curiosidade fica desperta às primeiras vinhetas, e a história desenrola-se a bom ritmo. O ponto de vista africanista é interessante e pouco usual neste género de histórias.

A nível visual, percebe-se que o autor poderia ir mais longe. Miguel Santos trabalha como concept artist e tem na sua página do Deviant Art trabalhos visualmente bem conseguidos. A este Ermal falta algum desenvolvimento estético. O traço é funcional, mas não especialmente evocativo. Transmite o ambiente da história, mas sente-se que poderia ser mais trabalhado.

Esta edição da Escorpião Azul reforça a estratégia desta editora em apostar nos novos talentos da BD portuguesa. Dos títulos que tenho lido, oferecem leituras interessantes sem ser extraordinárias. O que, num mercado a amadurecer, é normal. Nem todas as edições têm de ser clássicos instantâneos, bastam que sejam histórias divertidas que façam evoluir as capacidades gráficas e narrativas dos autores e desenhadores. É uma estratégia que tem muito a oferecer ao panorama da BD em Portugal.

Ermal, Quando a Guerra Fria Aqueceu

Autores: Miguel Santos
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 64, capa mole
PVP: 12 €

Nota do editor: Por lapso o apelido do autor estava incorrecto no título desta crítica.

7 Argumento

7 Planificação

9 Temática

5 Desenho

6 Arte Final

5 Cor

7 Legendagem

8 Produção

Um dos novos títulos do alinhamento editorial da Escorpião Azul, Ermal de Miguel Santos leva-nos a um retro-futurismo pós-apocalíptico. Partindo de um conceito interessante e bem desenvolvido, envolve-nos numa história cativante, que só teria a beneficiar com um aprimoramento do trabalho gráfico.

6.8
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