Enemy Ace, de Robert Kanigher e Joe Kubert

Enemy Ace
Enemy Ace é o maior dos ases que lutam nos céus acima das trincheiras da frente ocidental. Imbatível nos céus, cada vitória é uma morte que lhe pesa na consciência.

Criado por Bob Kanigher, Enemy Ace é um personagem atípico nos comics que exploram as temáticas ligadas à guerra. As aventuras de Hans Von Hammer oscilam entre a adrenalina das cenas de combate aéreo e a introspecção de um herói que coloca o dever patriótico acima dos seus sentimentos pacifistas.

Falso Romantismo

Apesar de estar longe da lama das trincheiras, o céu não é por isso menos sangrento. Em baixo, a soldadesca morria ceifada aos magotes pela metralha, no choque das velhas táticas do século XIX com o novo armamento do XX. Os clássicos levantamentos em massa sobre o terreno disputado foram presa fácil da elevada cadência de tiro da metralhadora. O horror dos campos de batalha da frente ocidental tornou-se um trauma histórico.

Lá em cima, nos duelos mortíferos no ar, pareciam aplicar-se as antigas regras da nobre arte do combate. No final da história, o resultado é sempre o mesmo, morte e violência nas guerras sem sentido, mas sentia-se como algo de diferente. Face à carnificina das trincheiras, o então novíssimo espaço de combate pareceu aos contemporâneos como uma nova versão das justas medievais, com o piloto em sintonia com o avião a ser uma versão moderna do cavaleiro e armadura, a travar duelos na elegância da acrobacia aérea.

Se os ares pareciam menos brutais que as trincheiras, não era menos mortíferos. A esperança média de vida dos pilotos na frente ocidental media-se em semanas. As frágeis engenhocas de uma tecnologia aeronáutica ainda recente, mas em rápida evolução, digladiavam-se até à morte rápida. Os grandes ases do combate aéreo da I Guerra Mundial não sobreviveram para falecer na terceira idade. Lá em cima, longe da lama, a guerra não era menos implacável. Mas podia, ainda, ser sentida como romântica, em contraste com a carnificina do campo de batalha. Este mito do romantismo do combate aeroespacial nasceu na I Guerra, e nunca mais nos libertámos dele.

Charles Stross observa, muito bem, no seu post sobre ter deixado de ler ficção científica, que a I Guerra foi a única altura em que o combate aéreo era empolgante e cinemático. Os pilotos combatiam em acrobacia aérea, tentando posicionar as aeronaves para alvejar e abater os adversários. O progresso da tecnologia aeronáutica foi implacável com a estética do duelo aéreo. Na II Guerra, e na aviação militar contemporânea, o combate aéreo é uma questão de velocidade e trajetória. Apesar do mito do ás dos ares, exímio em levar a sua aeronave ao extremo da elegância, o usual é que os aviões abatam os seus alvos a distâncias para além do campo visual do piloto.

É uma realidade com que a ficção lida mal. Como criar a sensação de combate empolgante quando o que se faz é carregar num botão para tentar abater um ponto no radar? O espetador prefere claramente um tipo de linguagem que, no cinema, se iniciou com o filme Hell’s Angels. A coisa persiste até hoje. TopGun, com toda aquela testosterona e manobras arriscadas em jatos de combate é um eterno prazer culposo. Qualquer space opera comete o pecado de lançar hordas de naves de caça em combate aerobático. Empolgante para o espetador, mas nada realista. Talvez a única cena de combate espacial totalmente plausível que li foi em Forever War, de Joe Haldeman. A tripulação de uma nave terrestre é alertada para a deteção de uma nave inimiga, e o capitão decide disparar um míssil. Semanas depois, a tripulação é novamente alertada com a informação que o míssil tinha chegado e abatido o alvo com sucesso. A cena é verosímil, na vastidão do espaço, no entanto é antítese do que estamos habituados.

Enemy Ace, um Herói Atípico

As façanhas do ás alemão Hans Von Hammer enquadram-se perfeitamente na visão clássica do combate aéreo, com as suas manobras de cortar o fôlego sob tiro cadenciado das armas. Enemy Ace é um personagem clássico da DC Comics, um anti-herói criado pelo argumentista Robert Kanigher e desenhado por Joe Kubert. Este ás da guerra nos ares faz parte de um alinhamento de personagens de aventuras de guerra, publicadas nas revistas Our Army at War ou Star Spangled War Stories. Publicações que exploravam o filão do patriotismo e da glorificação da violência, contando histórias de guerra vindas de várias épocas. Um terreno de onde saiu um outro personagem que persiste na memória da cultura pop, Sgt. Rock, também criado por Kanigher.

Enemy Ace
Retrato de um herói atípico.

O que distingue Enemy Ace neste sub-género dos comics, vindo de uma época onde a hegemonia dos super-heróis ainda não tinha sufocado quaisquer outro tipo de personagens, é a sua ambivalência e sentimento de recusa da violência. Algo que Kanigher também explorava, embora em menor grau, em Sgt Rock. O choque com os estereótipos militaristas, na habitual apologia da violência sob signo do patriotismo e da honra, é subtil mas está lá.

Em comics que enalteciam as façanhas dos combatentes americanos, Enemy Ace destaca-se por representar o outro lado, o inimigo. Um adversário que nos comics é habitualmente caricaturado como uma espécie de besta violenta, sem carácter e sedento de sangue. A cultura popular está pejada deste exemplos em comandantes nazis. Mas este inimigo é um homem como os outros, nascido na aristocracia, combatente relutante que mata nos céus para cumprir ordens e sobreviver, soldado que cumpre o dever apesar de questionar a lógica da guerra. É um piloto consciencioso, que cessa os ataques mal percebe que o adversário ficou sem munições ou impossibilitado de combater, sempre sombrio. É o maior dos ases, imbatível nos céus, mas cada morte pesa-lhe na consciência. Dentro dos limites deste tipo de comics, é um personagem de uma complexidade inesperada.

Bob Kanigher

Robert Kanigher, criador de Enemy Ace, foi um escritor prolífico, com uma capacidade invejável de escrever com rapidez argumentos para comics. Não tendo atingido o estatuto icónico de outros criadores da Golden e Silver Age, deixou a sua marca em Wonder Woman, reformulando-a para além das bases clássicas de William Moulton Marston. Criou Rose and Thorn e Harlequin (não confundir com Harley Quinn), heróis hoje esquecidos e recuperados de tempos a tempos pela DC Comics, ou a ainda ativa Black Canary. O seu trabalho mais marcante, de uma longa carreira, foi editar e escrever os títulos de guerra da DC, G.I. Combat, Our Army at War, Our Fighting Forces, All-American Men of War, e Star Spangled War Stories.

Tal como Enemy Ace, foi nas páginas de Our Army at War que nasceu Sgt. Rock e a sua Easy Company, talvez os personagens mais conhecidos de Kanigher. Apesar de ser prolífico, conseguia nestas histórias ir além do esperado num género que se caracteriza por aventuras simplistas, glorificadoras dos ideais artificiais de heroísmo no campo de batalha. É o tipo de banda desenhada que ainda hoje caracteriza as histórias de guerra, com personagens determinados em combater sob quaisquer condições. Hoje, a clássica revista inglesa Commando é o último bastião deste género no seu estado puro.

Dentro dos limites do comic escapista, Kanigher ia muito além deste tipo de narrativas. Sgt. Rock é um caso paradigmático. Em vez de combates gloriosos, Rock e os soldados do seu pelotão vivam verdadeiras mini-histórias de guerra, com o drama e o trauma do combate a sobrepor-se à aventura na batalha. Muitas são amargas, com os soldados a lamentar a perda dos seus companheiros. Fugindo ainda mais ao esquema narrativo deste género, especialmente na época em que se inseria, Kanigher criou no pelotão de soldados da Easy Company um grupo de personagens de grande diversidade étnica, com elementos ítalo-americanos, afro-americanos e índios. Um elemento que hoje é normal, mas não no tempo em que Kanigher escreveu. Enemy Ace segue os mesmos esquemas narrativos, alternando a ação nos ares com introspecção do herói, torturado pelo dualismo entre o dever e a consciência.

Bob Kanigher era exímio em contar inúmeras vezes a mesma história. As aventuras de Enemy Ace são invariáveis nas suas variações. Kanigher sabe que o que os leitores procuravam era a excitação do combate aéreo, e não os desiludia. O resto complementa, criando um mundo ficcional que sustenta a personagem, e quebra a aventura pura com um foco na psicologia torturada do combatente.

Enemy Ace resulta melhor na parceria gráfica entre Kanigher e Joe Kubert. O traço ao mesmo tempo rigoroso e expressivo do ilustrador assenta como uma luva no dinamismo dos argumentos. Kubert compreendia a estética da aviação, equilibrando o rigor na representação de aeronaves (um pormenor muito importante para os fãs de aviação) com um dinamismo surpreendente nos planos e enquadramentos. O resultado é a sensação de que se está lá em cima, nos céus, aos comandos de uma engenhoca voadora da I guerra. A terra dissolve-se, são apenas as aeronaves e o omnipresente céu, aquele que Von Hammer reflete como sendo implacável. O traço é especialmente eficaz em retratar Enemy Ace como um homem sombrio, torturado mas honrado.

Enemy Ace
Kubert deu vida aos duelos no ar.

O poder desta parceria nota-se na qualidade narrativa. Kubert assinou a solo algumas histórias de Enemy Ace, que não chegam ao nível das de Kanigher. Já os seus argumentos perdem quando ilustrados pelo talento clássico de John Severin, cujo rigor visual se sente como estéril depois do expressionismo de Kubert, ou pelo então estilo nascente de um jovem Howard Chaykin, cujo estilismo expressionista mas estático corta o ritmo narrativo de Kanigher.

Recordações Pontuais de Enemy Ace

Este personagem singular regressou aos leitores pontualmente na era pós-Kanigher. Em 2001, Garth Ennis, que não é nada estranho ao género de comics de guerra, agora a escrever a série War Stories da Avatar Press, aplicou a sua atenção ao rigor histórico a Enemy Ace com War in Heaven, desenhado por Chris Weston. Nesta aventura, o veterano Von Hammer volta a ser chamado a defender a pátria na II Guerra, algo que faz com a sua habitual relutância e ambivalência no cumprimento do dever, acabando a pilotar os novíssimos caças a jato Me262 nos últimos dias desesperados da queda germânica.

Talvez a homenagem mais impressionante a Kanigher esteja em Enemy Ace: War Idyll, com a estética aguarelada de George Pratt a fazer regressar o clássico personagem para os leitores dos anos 90. Nesta história feita de reminiscências e memórias do passado, um idoso Von Hammer dividido entre o fascínio do voo e o drama do combate nas histórias que conta a um jornalista veterano do Vietname.

Sem diminuir a qualidade gráfica e narrativa destes revivalismos pontuais, a melhor forma de descobrir este personagem é ler as histórias originais de Kanigher e Kubert. A DC organizou-as numa edição da coleção Showcase. Tive a sorte de encontrar um exemplar, daquelas edições a preto e branco, na Mundo Fantasma. Esta loja surpreendente esconde-se nos recantos do centro comercial Babilónia, mesmo à beira da rotunda da Boavista no Porto. Um espaço com um acervo impressionante de comics, mangá e merchandising, que merece mesmo uma visita. Mas sejam persistentes, é mais fácil dar com a sex shop deste centro comercial do que com a loja de comics.

Showcase Presents: Enemy Ace Volume 1

Autores: Robert Kanigher, Joe Kubert, Howard Chaykin, John Severin, Neal Adams
Editora: DC Comics
Páginas: 552, capa mole
PVP: 17,88 €

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