E a Amadora Continua a Mexer

Anunciados os autores estrangeiros que marcarão presença na edição 2015 d@ muito “pop” Comic Con Portugal, é bom de ver que a cidade da Amadora não pode, como fazia há vinte anos, apostar tudo na vinda de grandes nomes internacionais.

A afirmação da Amadora no circuito da banda desenhada passa agora por uma aposta mais permanente e menos episódica. E é o que a cidade tem feito, deixando claro que a BD, na Amadora, não se resume ao festival internacional de banda desenhada, e que há uma programação muito completa, ao longo do ano, em torno desta forma de linguagem.

Em primeiro lugar, a Bedeteca dá continuidade à programação de exposições temporárias. Depois de Jijé, foi a vez de “Quarto interior”, retrospetiva de Francisco Sousa Lobo (o autor de “The Dying Draughtsman” e “O Andar de cima”, entre outros) comissariada por Pedro Moura, que integra um ciclo de cinco mostras e estará patente até 26 de setembro. No dia 3 de setembro (embora sem menção no programa das Festas da Cidade) inaugurou a segunda das cinco mostras, “Uninforme”, dedicada a Mao (Hugo Almeida). Saudando-se o ritmo intenso da programação, que confirma a competência de Pedro Moura, seria de equacionar a opção de apresentar autores de gerações diferentes em simultâneo, permitindo a descoberta de uns a partir dos outros. Apresentar ao mesmo tempo Sousa Lobo e Mao, com todos os seus méritos, não parece uma solução capaz de apelar a públicos suficientemente distintos. Acresce que, como se sabe, a Bedeteca passou a ser a nova depositária do valioso arquivo de originais do extinto Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), pelo que não faltam originais de grandes clássicos para mostrar ao lado de autores emergentes.

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Em segundo lugar, veio a notícia do curso de narrativa gráfica (ilustração e banda desenhada) dirigido por Diniz Conefrey. Trata-se de uma oportunidade interessantíssima ao nível da formação, considerando a qualidade do formador (com bons resultados já demonstrados em diversos cursos em que foi formador, com destaque para o que orientou no Citen da Fundação Calouste Gulbenkian no final dos anos 90). Diniz Conefrey é um autor que tem uma compreensão exemplar do que é a linguagem da banda desenhada, na sua construção (como autor) e percepção/participação (como leitor). A sua obra de 2014, “O Livro dos Dias” só não integrou a minha lista das dez obras mais importantes dos últimos 5 anos da BD portuguesa porque ainda não a li.

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Em terceiro lugar, e mantendo a excelência dos formadores / orientadores, é a vez de Nuno Saraiva conduzir a oficina de BD “O Caderno de Viagens entre as Margens”, numa parceria entre o AmadoraBD e a ACASO, que visa criar uma banda desenhada coletiva, realizada durante viagens entre a Casa da Cerca em Almada, a Bedeteca da Amadora e o AmadoraBD. Estão abertas as inscrições.

A partir de Outubro, avança o 26.º AmadoraBD 2015 (dedicado à “Criança na BD”, como forma de celebrar os 100 anos das “Aventuras do Quim e do Manecas”, a revolucionária banda desenhada de Stuart Carvalhais), e o Clube Português de Banda Desenhada promete começar a animar o antigo espaço do CNBDI. Ou seja, o festival mantém-se como a grande festa, o ponto de encontro, mas é – e ainda bem – apenas uma paragem, e não a totalidade do percurso. Na altura em que chegar @ Comic Con, com as suas estrelas mais ou menos pop, o projeto da Amadora em torno da banda desenhada não morre atropelado, mas continua a crescer.

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