Dylan Dog: Mater Morbi, de Roberto Recchioni e Massimo Carnevale

Personagem de culto da banda desenhada italiana, Dylan Dog é finalmente trazido para Portugal numa edição Levoir da coleção Novelas Gráficas. Para este primeiro contato do público português com um dos mais intrigantes títulos de fumetti da editora Bonelli, os editores da Levoir escolheram Mater Morbi, uma das mais perturbadoras histórias recentes desta longa série.

Mater Morbi: A queda de Dylan Dog

Começa como um leve mal estar. Talvez uma dor de cabeça mais intensa, alguma sensação de fraqueza a intervir num momento mais inesperado. Uma pontada numa parte do corpo que não nos recordamos que existe. Um mal estar súbito a cortar um dia banal. E quando nos apercebemos do que realmente se passa, estamos confusos, inquietos, assustados, deitados numa maca na ambulância a caminho do hospital. Sujeitos a exames que parecem infindos, solitários apesar da companhia de médicos, enfermeiros e outros pacientes das enfermarias. Se o medo da morte assusta, o medo da doença repele. Mais do que temer o fim último, é o horror da imobilidade forçada, da decadência de um corpo que não responde, da dor contínua, da impotência.

Dylan Dog Mater Morbi

Quando o paciente é Dylan Dog, as coisas podem-se tornar mais complicadas. Uma doença súbita leva Dylan à cama do hospital, rodeado de médicos que tudo fazem para o salvar, mas para lá da enfermaria, Dylan descobre-se nos braços de uma entidade perigosa e possessiva, um ser marcado por cicatrizes, a cujo fascínio não conseguimos resistir, apesar da repelência que provoca. Dylan vê-se entregue a Mater Morbi, a metáfora da morbilidade, da doença que consome. Uma força da vida encarnada como uma dominatrix fetichista, padecendo de profunda solidão. Afinal, como Dylan observa, volumes inteiros de odes são dedicados à morte ou à guerra, mas à doença só dedicamos desprezo. Só ao deixar-se consumir pela obsessão de Mater Morbi, Dylan alcançará a liberdade.

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Mais do que uma história de horror clássica, ou uma aventura típica do Old Boy a enfrentar vampiros, zombies ou outras criaturas da noite, Mater Morbi mexe com o horror interior da implacabilidade da doença. O fetichismo de Mater Morbi é a metáfora para os sentimentos de solidão e impotência face à decadência da doença. Uma história atípica de um personagem já de si atípico, com estatuto merecido de culto. O argumento brilhante e premiado de Roberto Recchioni ganha uma vida lúgubre na ilustração expressiva de Massimo Carnevale, num poderoso trabalho de luz e sombra que confere um enorme peso à história.

Dylan Dog, entre o Pop e o Culto

Dylan Dog é talvez dos mais famosos personagens de banda desenhada de que poucos por cá ouvem falar. Criado em 1986 pelo escritor e argumentista Tiziano Sclavi para a editora Bonelli, tornou-se um personagem de culto devido ao trabalho excepcional deste argumentista, um exemplo do melhor que se pode fazer no fumetti. Personagem popular, consegue o raro feito na cultura pop de tanto agradar ao público em geral como aos mais eruditos académicos. Umberto Eco não escondia a sua admiração pelo personagem, e Sclavi homenageou-o na aventura de Dylan Lassù qualcuno ci chiama. As razões desta fama são bem justificadas. Sclavi, muito erudito no horror literário e cinematográfico, soube imbuir as aventuras do personagem de inúmeras referências literárias e visuais. Desde o policial clássico, que sublinha um personagem ex-polícia que se dedica a ser detetive, ao terror clássico (Poe é uma constante citação de Sclavi), passando pelo cinema, entre o horror de culto ao visceral slasher, sem esquecer a comédia slapstick, são inúmeras as referências e pistas conceptuais que enriquecem os textos de Tiziano Sclavi. Este argumentista sempre soube criar boas e eloquentes aventuras, com o gostinho extra da sua enorme erudição.

Dylan Dog Mater Morbi

 

Sclavi afastou-se do seu personagem em 2000, incapaz de aguentar o ritmo de produção da Casa Bonelli de cem páginas mensais, sempre com histórias diferentes, abrindo o campo a outros argumentistas, embora mantenha a direção conceptual do personagem. Se Dylan Dog escrito por Sclavi era quase sempre excepcional, sob outros argumentistas é difícil chegar a este nível. Boa parte deles mantém um nível normal, envolvendo Dylan Dog em casos de oculto dentro das narrativas habituais no género, mas tem havido dois nomes que se destacam: os argumentos cerrados, fortemente ritmados em recorte policial noir, de Paola Barbato, e a profunda compreensão do personagem demonstrada por Roberto Recchioni, considerado o sucessor de Sclavi em Dylan Dog. Apesar de afastado, Sclavi não se divorciou da sua personagem, tendo em 2016 regressado fugazmente com Dopo un lungo silenzio.

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A obra de Tiziano Sclavi não se esgota no fumetti. Romancista, é autor de um dos mais surreais e difíceis de encontrar, pela raridade, livros de terror italiano: Dellamorte Dellamore, a história de Francesco Dellamore, um vigilante de cemitério que tem como tarefa ingrata aniquilar os recém-enterrados, com o péssimo hábito ou maldição de regressar à vida alguns dias depois de descidos à tumba. Um romance surreal, entre o terror e o absurdo, que foi adaptado ao cinema por Michele Soavi no magistral e onírico filme com o mesmo título. Obra cinematográfica de culto, recentemente exibida no cinema Nimas no âmbito da programação do evento Filmes de Culto escolhidos por Filipe Melo. Há paralelos óbvios entre Dellamore e Dylan Dog. Ambos se inspiram na figura do actor Rupert Everett para a sua fisionomia (este actor deu corpo a Francesco Dellamore na adaptação cinematográfica), têm companheiros de aventura muito peculiares (os conhecedores destes personagens logo dirão que os grunhos monosilábicos de Gnaghi são vastamente preferíveis ao non-sense metralhado das piadas secas de Groucho), caem de amores com uma temível facilidade mas acabando sempre em amarguras, estão profundamente imiscuidos num sobrenatural entre o horror e o surrealismo. De resto, são personagens profundamente diferentes, quase o inverso uma da outra. Apesar dos seus preciosismos, Dylan é cosmopolita onde Dellamore é tacanho. Dellamore é amoral e implacável, Dylan tem uma enorme empatia. Os personagens cruzaram-se na aventura Orrore Nero, escrita por Tiziano Sclavi.

Dylan Dog Mater Morbi

 

E quem é Dylan Dog? Pessoalmente, sempre o achei um personagem atípico no género do comic de terror. Tranquilo e nostalgista, com um pendor para paixões fortes com as muitas mulheres com que se cruza, não é um herói especialmente heróico, daqueles que busca ativamente aventuras. É bastante o oposto, alguém que se vê envolvido em aventuras sobrenaturais por inerência dos casos que lhe caem em cima, ou pelos acasos da sua vida. Também não age da forma tradicional neste género de aventuras, com os seus heróis conhecedores dos mais arcanos encantamentos ou armados com as últimas tecnologias, sempre prontos a banir os mais temíveis monstros, exorcizar os piores demónios ou libertar os trágicos fantasmas. Dylan não exorciza monstros, embora os elimine, e tem uma forte tendência para se esquecer da sua única arma, um revólver, numa gaveta da escrivaninha do seu escritório. Chamam-lhe o detetive dos pesadelos, envolvido como parece sempre estar com os terrores que se ocultam na escuridão.

Dylan Dog Mater Morbi

Este caráter de aventureiro ocasional é em si uma homenagem a uma variante do policial, a do cavalheiro aventureiro que não busca aventuras mas se vê envolvido nelas. Dylan Dog está cheio deste elementos, de vénias a autores e géneros. Tal como Sherlock Holmes, habita em Londres, no número 7 da ficcional Craven Road, casa cuja campainha avariada soa sempre a urros de terror. Havendo uma Craven Road perto da estação de Paddington, não sei até que ponto se aplicará aqui o conceito de rua ficcional, mas não chega ao nível do número 221B de Baker Street, transformado na casa-museu de um personagem de ficção. Tem um inevitável companheiro de aventuras, que mimetiza na perfeição Groucho Marx, cujas intermináveis piadas secas são lendariamente irritantes. Como ex-agente da Scotland Yard, mantém relações com alguns dos seus inspetores, durante décadas com o calmo e preocupado Inspector Bloch, sendo envolvido em casos estranhos deparados por esta polícia. Conduz um icónico e quase sempre avariado Volkswagen Carocha de matrícula 666, gosta de passar as noites em que não está envolvido com a sua mais recente paixão feminina, que inevitavelmente lhe quebrará o coração, a tocar clarinete e a montar a maquete de um veleiro, tarefa que nunca termina.

Dylan Dog, finalmente em Portugal

Este personagem de culto italiano é quase desconhecido por cá, onde as edições de fumetti se resumem ao clássico Tex. Desconhecido, até um certo ponto, quando é citado como uma das influências de Filipe Melo na série Dog Mendonça e Pizzaboy, ou quando o anúncio desta publicação da Levoir nas redes sociais desperta muitos comentários de leitores assíduos que se congratulam por, finalmente, haver uma edição portuguesa de um personagem que tem um historial de edição mensal contínua com mais de 30 anos. A casa Bonelli tem um ritmo muito bem definido de edição e a série Dylan Dog já vai no número 371, talvez a mais longa série contínua da editora a seguir a Tex, com os seus mais de 600 números. Para além da edição mensal há as reedições de clássicos, as coletâneas regulares Almanaco della Paúra e Dylan Dog Color Fest.

Todas obras essencialmente desconhecidas por cá. A editora brasileira Mythos, que vai trazendo ao público português Tex e Júlia, duas séries Bonelli, editou fugazmente alguns números de Dylan Dog no Brasil. Apesar de editado, pontualmente ou com regularidade, noutros países europeus para além de Itália, nunca penetrou no mercado anglo-americano, apesar de uma edição coligida pela Dark Horse e de um filme cuja relação com o personagem se fica pelo nome. Esta edição da Levoir no âmbito da colecção Novelas Gráficas representa a primeira vez que este personagem chega a Portugal. Pessoalmente, apesar de saber que Mater Morbi é das mais potentes histórias contemporâneas de Dylan Dog, se não a mais importante, tenho pena que não tenham sido escolhidas aventuras assinadas pelo punho conhecedor de Tiziano Sclavi. Talvez, se esta edição tiver sucesso, possamos atrever-nos a sonhar com mais Dylan Dog em português?

Dylan Dog: Mater Morbi

Autores: Roberto Recchioni, Massimo Carnevale
Editora: Levoir
Páginas: 120, capa dura
PVP: 9,99 €

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