Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado

A estética de Manuel Morgado une-se às palavras de Filipe Faria em Dragomante, uma curta saga de fantasia épica com origem atípica.

Nereila, uma guerreira inexperiente capaz de domar dragões terá de contar com a ajuda de Ékión, um escudeiro reticente, para travar um mal que se abaterá sobre o reino de Armitaunin. Mal esse que tem origem na história da sua família. O poder de domar um dragão pode consumir quem o detém, como mostrou no passado o pai da guerreira.

Trauma Literário

Descobri-me algo surpreendido por ter dado conta que li, e gostei, de uma edição de fantasia épica. É um género que pouco me atrai. Ter lido o Senhor dos Anéis de Tolkien vacinou-me no que toca histórias de façanhas de coragem e valor em passados distantes, reais ou imaginários. Escrevo estas linhas com o maior respeito pela capacidade de Tolkien em criar mundos ficcionais utilizando estruturas narrativas da tradição mítica europeia, entre a antiguidade clássica, sagas nórdicas e lendas arturianas. Não me seduz este tipo de literatura com o ideal masculinizante dos guerreiros com as suas armas decoradas, músculos mal disfarçados sob armaduras impraticáveis ou peles rústicas, defensores de ideais de honra absoluta. Com as personagens femininas é pior. Escapam sem um arranhão às piores batalhas, ou vagueiam por estepes geladas, vestidas com pouco menos do que espécies de bikini em cota de malha. Uma visão para aquecer o sangue dos leitores. Para quem prefere olhar para o futuro, estes passados imaginários, visões românticas implausíveis mesmo quando se focam em épocas reais, cativam pouco.

Antes que hordes de fãs de fantasia épica se decidam a encurralar-me numa viela escura para me convencer dos méritos do género com argumentos entre o machado viking e a maça bárbara, deixem-me só sublinhar que este desdém é uma questão de afinidade, não de nariz empinado face a pretensas superioridades literárias entre géneros. Rockets e rayguns são o que me aquece o sangue, não capa e espada com feitiçaria. Exceção feita a Elric de Moorcock, não tão literato quanto Tolkien mas vastamente mais ambíguo e intrigante.

No que toca aos traumas literários, parece que a fantasia épica encontrou um autor de leitura ainda mais traumática do que Tolkien, se bem que os de George R.R. Martin sejam mais do tipo homicida.

Dragomante, Um Livro Surpreendente

Dragomante é uma leitura muito atípica nas minhas estantes. O que é que me atraiu nas suas páginas? Claramente não a história, apesar de ter sido escrita por um dos melhores escritores portugueses deste género. É preciso abrir as suas páginas para se ser seduzido pelo grafismo, explosivo e de cair o queixo.

Filipe Faria é um daqueles autores a quem se aplicam as frases-lugar comum de alguém que dispensa apresentações. Marcou a fantasia épica em português com a série Crónicas de Allarya, de sucesso entre os fãs e inspiradora para outros autores apaixonados pelo género. A história que escreveu para Dragomante faz bom uso da sua iconografia, com passados míticos, dragões, heroínas frágeis, heróis inesperados e um final que, para citar as imortais palavras de Claude Rains a Bogart em Casablanca, could be the beginning of a beautiful friendship. Ou talvez algo mais. É uma aventura rito de passagem para os personagens, construída como prelúdio para algo mais ambicioso.

Perdi por pouco o lançamento de Dragomante no Festival Contacto, que invadiu o Palácio Baldaya com fãs do Fantástico no dia 7 de abril. Quem esteve presente contou-me que este livro teve uma génese muito diferente do habitual em banda desenhada. A história não foi criada por Faria como conto ou a pensar numa adaptação. O processo foi inverso, com o desenhador a desafiar o escritor a criar uma história para os seus desenhos.

É aqui que Dragomante brilha. O trabalho gráfico de Manuel Morgado é espantoso, invocando na perfeição a estética da fantasia épica. O traço enche o olhar a cada vinheta, e a cor complementa a espetacularidade visual. Visualmente, é um trabalho de alguém apaixonado pelo género. A estética, e não a história, dão a este livro o brilho que tem. Algo que fica muito claro logo pelo desafio colocado a Filipe Faria.

Visualmente deslumbrante, com uma história interessante, Dragomante é uma excelente proposta de banda desenhada portuguesa co-editada pela Comic Heart e G.Floy numa edição cartonada, de luxo. Um livro que não deixa os leitores indiferentes, mesmo que não se seja fã de fantasia épica.

Dragomante: Fogo de Dragão

Autores: Filipe Faria, Manuel Morgado
Editora: Comic Heart/G.Floy
Páginas: 52, capa dura
PVP: 13

7 Argumento

6 Planificação

7 Temática

9 Desenho

9 Arte Final

10 Cor

9 Legendagem

10 Produção

Visualmente deslumbrante, com uma história interessante, Dragomante é uma excelente proposta de banda desenhada portuguesa co-editada pela Comic Heart e G.Floy numa edição cartonada, de luxo. Um livro que não deixa os leitores indiferentes, mesmo que não se seja fã de fantasia épica.

8.4
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