Descender Volume 1: Estrelas de Lata, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Em Descender, Lemire e Nguyen levam a sério as temáticas da ficção científica, numa história intrigante passada num mundo ficcional abrangente. O seu ambicioso espaço de ideias é complementado por um inesperado estilo visual, que quebra as convenções estéticas a que o género nos habituou.

É melhor fazer um aviso prévio. Este parágrafo pode conter spoilers. Comecei a leitura do primeiro volume da edição portuguesa de Descender a conhecer já quais os caminhos pelos quais seguirá esta história. Sem querer estragar surpresas, digamos que estes são longos e excitantes. Por coincidência, peguei na edição da G.Floy poucos dias depois de ler o final do mais recente arco narrativo da série, que responde de forma muito elegante à questão que a inicia. Ficámos a saber quem são os Colectores, e porque é que têm o hábito de tentar exterminar civilizações que desenvolvem robots. Sem revelar mais do que isto, que é a pedra angular da série, fiquemos por um voo de imaginação muito bem alicerçado no corrente estado da arte de desenvolvimento de robótica, automação e inteligência artificial. Especialmente no que toca à ética sobre o tratamento que daremos aos robots, os seus direitos legais e individuais, e se serão considerados entidades livres e conscientes, ou mecanismos subjugados ao serviço dos seus amos.

Descender: Space Opera modernizada.

Espero ter aguçado a curiosidade sobre esta edição com este quase mega spoiler. A G.Floy tem sido modesta na sua promoção, reservando as hipérboles para aquela que na minha opinião é uma muito mais inferior série escrita por Mark Millar, que afirmam ser “uma das mais espectaculares sagas de ficção-científica de sempre” (notem aqui estou a ser tendencioso, retirei “do autor” ao copy da editora). Não sei se me atreveria a qualificar Descender desta forma, há séries que o são, e outras ainda por ser criadas que o serão, mas o trabalho conjunto de Jeff Lemire e Dustin Nguyen tem claramente um lugar no panteão de excelência da FC em banda desenhada.

Nem numa galáxia longínqua num passado profundo, nem no futuro distante. Descender mergulha-nos de chapa numa space opera pura, sem se preocupar em enquadrar-nos no tempo. Não é o nosso futuro ou passado, é o momento presente de civilizações que se espalharam pelas estrelas. Uma contemporaneidade de decadência, após a cataclísmica destruição de muitos dos planetas habitados às mãos de implacáveis robots gigantescos, apelidados de Colectores, aparentemente saídos do nada. Para lá da destruição e do abalo à ordem social estabelecida, há o nascer de uma tremenda onda de ódio contra tudo o que seja robótico. O extermínio é inevitável e os robots sobreviventes são levados para um planeta onde os seus habitantes se especializaram em derreter as máquinas em enormes fornalhas.

No meio destas convulsões galácticas, numa colónia mineira isolada da galáxia, um andróide desperta. Um acidente que matou os colonos significa que os acontecimentos catastróficos que abanaram a galáxia passaram ao lado deste asteróide isolado. A auto-ativação deste andróide não passa despercebida. As forças enfraquecidas da união galáctica, uma federação planetária em risco de desagregação após os ataques fulminantes dos Colectores, enviam uma missão para recuperar o robot que depressa se defronta com sucateiros apostados em conseguir capturá-lo. A máquina é mais importante do que a sua aparência frágil denota. Andróide que replica uma criança, o seu código-fonte é igual ao dos destrutivos e misteriosos Colectores. Garantir a sua sobrevivência é uma missão fulcral, e o principal cientista de robótica do centro nevrálgico da Federação, grande responsável pela sua disseminação nos mundos habitados, é arregimentado para estudar a sua criação e, com isso, encontrar uma defesa possível contra a grande ameaça que paira sobre todos.

Tudo o que pode correr mal irá correr mal, este primeiro arco narrativo é apenas o aquecer dos motores criativos de Lemire e Nguyen para uma verdadeira saga de space opera pura, cheia de peripécias que levam a história sempre em direções inesperadas. O mundo ficcional é vasto, progressivamente explorado. Esta edição é uma introdução a uma viagem narrativa mais alargada, que ainda está longe da conclusão.

Revitalizar a Ficção Científica

Lemire não é um argumentista estranho nos domínios da FC. Antes desta série que assina para a Image, escreveu e ilustrou Trillium na Vertigo. Uma série que se distinguiu pelo experimentalismo visual, numa história de viagens no tempo onde o passado e o futuro estavam integralmente entretecidos. Descender segue uma via narrativa mais clássica, menos experimental, integrando-se bem nos domínios da Space Opera. Lemire faz bom uso da sua iconografia, entre naves espaciais, civilizações humanóides e alienígenas, tecnologias e o sense of wonder das aventuras no espaço. Apesar de nela ser possível distinguir diversos traços de influência, esta é uma série original. Note-se que a ideia de uma federação com frota estelar é um óbvio aceno a Star Trek e à ficção pulp que a precede. Tim-21, o andróide de ar inocente que está no centro da ação é um óbvio decalque de Supertoys Last All Summer Long de Brian Aldiss, recriado em cinema por Steven Spielberg com A.I.. Todo o cerne conceptual da série, que lida com a ambiguidade do robot como máquina inteligente, descende das histórias que Asimov criou a partir das suas três leis e do conceito de individualidade atribuído a máquinas inteligentes de vida artificial, não estado nada for do âmbito de parte da literatura cyberpunk.

O traço de Dustin Nguyen dá vida às palaras de Lemire. A estética de Descender é um dos seus elementos mais marcantes. O lado visual da ficção científica, alimentado por décadas de capas de livros, ilustrações de banda desenhada e imagens cinematográficas, tem um fortíssimo pendor realista. Um realismo futurista, que incorpora toques de surrealismo e hiper-realismo, caracterizado por nitidez e elevado nível de detalhe na sua iconografia. Nguyen segue um caminho diferente. O realismo visual está lá, mas não o elevado nível de detalhe. A cor é aplicada de forma intensamente aguarelada, e imagens que esperávamos ter uma grande nitidez esfumam-se em cores difusas. O resultado é visualmente extraordinário, e a falta de realismo joga a favor da leitura. Sem detalhes para entreter o olho, o cérebro do leitor é obrigado a preencher as lacunas. Diria que esta série é uma obra que só se completa na mente de cada um dos seus leitores, guiados pela história de Lemire e os visuais de Nguyen.

A Ficção Científica é um género que vive muitas mortes anunciadas. Uma visão cíclica, vinda não do poder editorial (as novas edições de FC no mercado internacional não são às pazadas, são mais comparáveis a porta-contentores atafulhados em risco de rebentar) mas de uma certa ideia de estagnação e isolamento face ao mainstream da cultura popular. Algo que se alia à sensação que hoje vivemos em plena science fiction condition, que este género já não tem voz refrescante ou nada que nos desperte as ideias numa era de constante banalização de prodígios da ciência e tecnologia. A contrariar os prenúncios fatalistas, o cinema tem-nos legado excelentes visões de FC no grande ecrã, ou diretamente para os pequenos ecrãs fragmentados da diáspora digital (caso do recente Anihiliation, baseado no romance homónimo de Jeff Vandermeer, relegado para a Netflix por decisão de executivos culturalmente conservadores). A banda desenhada também não foi alheia a este movimento, especialmente graças à Image, que tem dado luz verde aos seus criadores para editarem séries de ficção científica pura. Há dois ou três anos atrás, grande parte dos novos títulos da editora eram pura ficção científica e especulativa. Um impulso que agora tem perdido alguma força, com o regresso progressivo dos géneros fantasia e crime. As temáticas editoriais são cíclicas, respondendo aos interesses dominantes do público.

Podemos viver na era em que o dia a dia parece mais fantástico do que os mais arriscados voos de ficção especulativa. O tempo em que vivemos pode ser comparável em muitos aspetos a um romance apocalíptico cyberpunk, daqueles verdadeiramente alarmistas. Apesar da sensação contrária, a cultura popular literária e audiovisual continua a mostrar sinais de vitalidade da Ficção Científica enquanto género literário e espaço de ideias.

Descender é um destes marcos. Lemire e Nguyen levam a sério as temáticas da ficção científica, numa história intrigante passada num mundo ficcional abrangente. O seu ambicioso espaço de ideias é complementado por um inesperado estilo visual, que quebra as convenções estéticas a que o género nos habituou. Uma saga que chega, finalmente, ao público português através do alinhamento editorial da G.Floy.

Descender Volume 1: Estrelas de Lata

Autores: Jeff Lemire, Dustin Nguyen
Editora: G.Floy
Páginas: 152, capa dura
PVP: 14 €

9 Argumento

8 Planificação

9 Temática

10 Desenho

9 Arte Final

10 Cor

3 Legendagem

9 Produção

Em Descender, Lemire e Nguyen levam a sério as temáticas da ficção científica, numa história intrigante passada num mundo ficcional abrangente. O seu ambicioso espaço de ideias é complementado por um inesperado estilo visual, que quebra as convenções estéticas a que o género nos habituou.

8.4
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