Criminosos do Sexo Volume 1: Um Truque Estranho, de Matt Fraction e Chip Zdarsky

Suzie e Jon partilham de uma capacidade rara. Sempre que atingem um orgasmo, o tempo pára, literalmente. Capazes de se mover num mundo suspenso pelo clímax sexual, aproveitam a inusitada liberdade para resolver os problemas financeiros da biblioteca local com uma metodologia pouco legal. Acabam surpreendidos por outros que, partilhando esta bizarra capacidade, tomam a seu cargo a tarefa de policiar o mundo dos criminosos do sexo.

O Mundo Suspenso dos Criminosos do Sexo

Criminosos do Sexo
O mundo a parar na descoberta da sexualidade.

La petite mort, chamam-lhe os franceses. Este mundo suspenso recorda algo a que os meninos crescidos que viveram numa certa época percebem logo. Parece a mala do Sport Billy, diz-se quando alguém começa a retirar de um saco mais objectos do que os que ele parecia conter. A referência vem de um desenho animado do final dos anos 80, sobre um jovem desportista enviado do planeta Olympus para salvar a Terra de ameaças, lutando com equipamentos desportivos. Fiquemos por aqui. É daquelas séries que não tinham assim tão grande piada nos ano 80, e o envelhecimento não as favoreceu. Mas deixou uma curiosa impressão na minha mente. Havia, entre os inúmeros utensílios desportivos que Billy tirava do seu lendáro saco, um muito especial que me cativou. Um relógio, tipo despertador, que tinha o condão de parar o tempo. Quanto activado, tudo congelava, fixo, imóvel. Só Billy e os seus companheiros de aventuras continuavam a poder mover-se. Uma ferramenta muito útil para se salvar o mundo. Ou outras coisas. Se tudo pára, podemos explorar à vontade. Poderemos, até, experimentar comportamentos mais arriscados.

Criminosos do Sexo
O que poderá correr mal quando os sonhos adolescentes mais proibidos se tornam realidade?

Em Criminosos do Sexo, o tempo também pára. Não graças a um relógio de misteriosas propriedades ou a algum mecanismo de especulação cientifica. A resposta é mais exótica. Os personagens desta comédia policial sofrem de um simpático síndrome, uma divertida variação sobre aquele dito francês sobre o orgasmo. Sempre que têm um orgasmo, o tempo pára. Não naquele sentido romântico tão do agrado da literatura cor-de-rosa, mas muito literalmente. O mundo congela, e estes personagens podem passear à vontade por todos os espaços até o efeito passar. Liberdade absoluta num mundo imutável. O que é que poderia correr mal?

Criminosos de Bom Coração

Jon é um empregado bancário desmotivado, cada vez mais incapaz de aturar o chefe. Suzie é uma bibliotecária em pé de guerra, a tentar tudo para salvar a biblioteca onde trabalha de ser fechada pelo banco que detém a hipoteca sobre o edifício. O encontro destes dois poderia ser uma banal história de amor, senão pelo pormenor de ambos sofrerem deste estranho síndroma. Habituados a ver os parceiros congelar sempre que terminam um acto sexual, apanham uma enorme na primeira vez que vão para a cama juntos. O mundo pára, eles não. Partilhando esta característica, acabam por se apaixonar. E se o mundo pára quando atingem orgamos, talvez a solução para a crise da biblioteca esteja aí.

Criminosos do Sexo
Do amor, e dos direitos de autor.

Só não contavam era que outros partilhem desta capacidade. E que alguns deles assumam o manto de protectores, policiando o mundo orgásmico. Uma verdadeira polícia do sexo.

Criminosos do Sexo como Metáfora de Construção de Identidade

Criminosos do Sexo
Crime e castigo no mundo dos Criminosos do Sexo

Neste primeiro volume Matt Fraction e Chip Zdarsky dedicam-se a um longo estabelecimento das premissas deste mundo ficcional. Em grande parte, explora as vidas pessoais destes personagens. A descoberta da sexualidade por parte destes personagens tem o efeito extra da paralisia do tempo, mas de facto serve como metáfora para Fraction abordar os processos de auto-descoberta pelos quais todos nós passamos.  Sensações novas, misturadas com o desconforto advindo de sociedades moralistas e seus padrões de comportamento que negam a sexualidade, ou aliás, a reconhecem mas preferem metê-la dentro de um armário onde não incomode. Claro que a educação sexual é um pouco mais… abrangente… quando um rapaz consegue masturbar-se, parar o tempo e ir explorar o interior de uma loja de produtos pornográficos. Honestamente, é um sonho de qualquer adolescente. Uma história que contrasta com a da rapariga, cheia de dúvidas e medos que só a conversa com uma amiga íntima começa a dissipar. O trabalho narrativo aqui é excelente, equilibrando um tom leve e sem complexos que não tem medo de nos fazer pensar no confronto entre o peso das culturas, com os seus espartilhos  sociais, e a construção da personalidade de cada indivíduo.

Para públicos habituados à banda desenhada erótica, habitual na Europa e não tão rara quanto isso na América, Criminosos do Sexo diverte pela sua inocência. Apesar de toda a libertinagem que lhe está implícita, nada é realmente explícito. Trata-se de um título para o mercado de massas americano, zona de pudores assumidos onde uma super-heroína pode ter fatos colantes fortemente reveladores das suas voluptuosas formas, mas qualquer menção à sexualidade é sacrilégio. Fraction e Zdarsky podem parecer correr alguns riscos, ser atrevidos, mas de facto não o são. O tema não fornece as orgias que o título poderia fazer intuir. Imaginem os Criminosos do Sexo numa versão Milo Manara, ou Guido Crepax, para citar dois autores que até não levantariam muito as sobrancelhas aos mais moralistas. Não são esses os caminhos de uma série que apimenta um pouco uma certa estética de angústia da geração do novo milénio em tom de humor. Chip Zdarsky, diga-se, trabalha aqui de forma brilhante. O traço é moderno, hipercolorido, traduzindo para as páginas dos comic uma estética de modernidade digital que assenta como uma luva no texto de Fraction.

Criminosos do Sexo, Vol. 1: Um Truque Estranho

Autores: Matt Fraction, Chip Zdarsky.
Editora: Devir
Páginas: 136, capa mole
PVP: 14,99 €[/box]

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