Cidades da BD

A relação entre a Amadora e Angoulême em aElipse de Pedro Mota

Por iniciativa de Angoulême, histórica capital europeia da banda desenhada, a cidade da Amadora está integrada num núcleo de cidades ligadas à BD para o desenvolvimento de projetos de interesse comum. O protocolo de integração foi assinado em Angoulême em 2003. Para além de Angoulême e Amadora, o núcleo integra ainda Bruxelas e Charleroi (Bélgica), Lucca (Itália) e Kochi (Japão), pretendendo alargar-se a outras cidades, como Barcelona ou Sierre.

Fora dos dias do seu prestigiado Festival de BD, a Amadora ainda não evidencia uma ligação de vinte cinco anos à BD e, em termos gerais, continua a encarar a BD como algo que serve de tema à principal iniciativa cultural da cidade, parecendo insusceptível de qualquer efeito social, económico ou político, de impacto local.

Mas a cidade e a população da Amadora têm um novo grau de exigência, de acordo com uma fasquia elevada pela própria evolução do Festival e a concretização do projeto do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI). A velha rotina de montar um excelente festival, fazer com que se fale da Amadora durante quinze dias e desmontar a tenda até ao ano seguinte, já não é suficiente. Foi uma tomada de consciência que também passou por Angoulême. Naquele mesmo ano de 2003, Yves Poinot, então presidente do Festival de Angoulême, sintetizava a ideia em entrevista ao “Angoulême Magazine”: “Para assegurar o futuro, não nos podemos contentar com 4 dias por ano de Festival. É preciso assegurar uma permanência, uma programação ao longo de todo o ano. Os 4 dias de Angoulême devem tornar-se no mostruário das nossas acções «hors les Remparts», pois quando o Festival se exporta leva Angoulême na bagagem”.

A Amadora tem consciência desta necessidade de afirmar uma dinâmica permanente, e o CNBDI é, verdadeiramente, o elemento-chave neste processo.

O arquivo de originais do CNBDI da Amadora mantém-se entendido como o motor da dinâmica gerada nos últimos anos do projeto da cidade em torno da banda desenhada: a partir dos originais, o Centro concebe exposições, edita estudos e catálogos, convida à leitura e promove encontros entre autores e leitores. A partir destes encontros ou de outras exposições, o Centro garante a aquisição de novos originais.

Para assegurar esta dinâmica, foi encetado um modelo de plano de atividades de programação anual, centrado em determinadas prioridades, como o contacto com as escolas e o público mais jovem, desenvolvendo um conjunto de atividades onde a formação do leitor marcou uma presença constante.

Uma das grandes dificuldades na gestão desta dinâmica está na evidente contraposição entre o “Internacional” do AmadoraBD e o “Nacional” do CNBDI. Ainda assim, a perspetiva da visibilidade internacional não deve ser menosprezada pela Amadora no que respeita à atividade do CNBDI. De resto, esta foi a opção do arquivo de originais que, embora assuma uma definida em função dos autores nacionais, não exclui autores estrangeiros de renome e/ou que estiveram em evidência nas suas passagens pela Amadora. É significativo o prestígio internacional conseguido por iniciativas do CNBDI como as mostras retrospetivas da obra de Alan Moore ou de Oesterheld.

Angoulême não deu grande seguimento ao protocolo de 2003, havendo uma oportunidade para que a Amadora desenvolva trabalho no âmbito da densificação , que teria certamente grande visibilidade internacional.

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