Cicatriz, de Sofia Neto

Cicatriz
Com uma cicatriz que denota um passado violento, uma mulher tenta sobreviver por entre aqueles que considera selvagens, enquanto procura uma agente desaparecida. Quanto mais entra dentro do mundo daqueles que antagoniza, mais se apercebe que a realidade talvez não seja aquilo que a sua indotrinação lhe transmitiu. Cicatriz é um livro discreto, de pura ficção científica.

Quando comecei a folhear Cicatriz, de Sofia Neto, confesso que não fiquei muito impressionado. Parecia-me mais uma história de drama juvenil, com ilustração no estilo pessoal da autora. Nada contra este tipo de estilo, que merece ser lido e tem o seu espaço editorial, mas não se ajusta muito aos meus sensores, focados em géneros literários específicos. Um foco devido a questões de tempo, não a elitismos ou crenças na superioridade inata aos géneros que me agrada.

Cicatriz, Banda Desenhada de Ficção Científica

Esta impressão desfez-se mal li as primeiras páginas, quando percebi que estava perante algo muito raro: um livro de banda desenhada portuguesa que se atreve a entrar nos domínios da ficção científica. Fá-lo de forma discreta, quem pegar no livro sem sobreaviso mal nota que está perante uma obra de Ficção Científica. Não há sinais exteriores aparentes disto, entre uma capa dentro dos padrões estéticos da banda desenhada independente, uma sinopse muito lírica na contra-capa, e ilustrações desprovidas da iconografia tradicional que associamos ao género, sem naves espaciais, cidades futuristas ou alienígenas de aspeto inquietante.

Sofia Neto conduz muito bem a sua história. O mundo ficcional vai-se revelando ao leitor, sem infodumps que expliquem tudo muito bem explicadinho. Cabe a quem lê o desafio de construir o cenário mais vasto, tentar perceber quais as suas premissas. Acompanhamos uma mulher que parece à partida ser uma fugitiva, passando entre comunidades que se abrigam nas florestas, em subúrbios desertos e campos de refúgio. Na verdade, é o oposto, uma agente enviada ao terreno para descobrir o destino de uma outra agente, aparentemente desaparecida.

Uma Ficção Científica Discreta

É aqui que mergulhamos na ficção científica discreta deste livro. É um tempo especulativo, talvez futuro próximo, onde a humanidade se refugia numa cidade protegida do mundo exterior. Mundo exterior esse que onde sobrevivem aqueles que não foram escolhidos para aceder à utopia urbana, ou escolheram não o fazer. Parece o cenário típico de uma distopia pós-apocalíptica, mas nada no livro indica isso. Estamos sempre no mundo exterior, onde há alguma violência, mas aqueles com que a agente se cruza são pessoas muito normais, sobrevivendo em consonância com uma natureza sem quaisquer indícios de catástrofe. Talvez a distopia seja a mítica cidade, da qual nunca chegamos sequer a ter um vislumbre, mas ficamos a saber que os seus habitantes consideram o mundo exterior como um local habitado por selvagens. Tem o seu ar de colisão de enredo típico pós-apocalíptico com Walden de Thoreau, em que os refugiados na cidade muralhada estão, no fundo, a proteger-se do regresso á vida simples, em consonância com a natureza. Talvez esteja a ler subtextos a mais nesta obra, a autora não nos dá assim tanta informação, mas é isso que a torna interessante. Como toda a boa ficção científica, é uma obra aberta, inconclusiva nas suas premissas, desafiante para o imaginário especulativo do leitor.

Em termos gráficos, assinala-se um traço de cariz pessoal, muito assente na expressividade do desenho. O trabalho de cor é quase inexistente, as vinhetas vivem do lado expressivo do risco. A sobriedade com que Sofia Neto conta a história reflete-se na forma como desenha, mais típica da banda desenhada independente e pessoal do que da Ficção Científica, com os seus códigos iconográficos bem definidos. Uma estética que funciona, nesta discreta surpresa de livro. Uma edição da Polvo, lançada na edição deste ano do festival de banda desenhada de Beja.

Cicatriz

Autores: Sofia Neto
Editora: Polvo
Páginas: 64, capa dura
PVP: 10,90 €

7 Argumento

7 Planificação

6 Temática

7 Desenho

7 Arte Final

5 Cor

7 Legendagem

9 Produção

Com uma cicatriz que denota um passado violento, uma mulher tenta sobreviver por entre aqueles que considera selvagens, enquanto procura uma agente desaparecida. Quanto mais entra dentro do mundo daqueles que antagoniza, mais se apercebe que a realidade talvez não seja aquilo que a sua indotrinação lhe transmitiu. Cicatriz é um livro discreto, de pura ficção científica.

6.9
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