O Cajado de Daghdha, de Norberto Fernández

O desaparecimento de um historiador galego residente em Lisboa leva uma antiga aluna sua a mergulhar num mistério, envolvendo sociedades secretas e o poder de um misterioso artefacto. Este alimenta deste o tempo dos celtas lendas que estão vivas na religiosidade cristã que suporta o culto de Santiago de Compostela. O Cajado de Daghdha é uma proposta curiosa publicada pela fundação Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, da autoria de Norberto Fernández, que consegue abordar o património cultural galego de forma leve e divertida, fugindo ao didaticismo com um livro bem escrito e ilustrado.

Os riscos da BD didática e institucional

Há um tipo de banda desenhada da qual faço questão de manter saudável distância. Aqueles livros didáticos institucionais, produzidos por fundações, edilidades ou fundações, que focam os aspetos promovidos pelas instituições, ou seus assuntos favoritos. Sabem de que livros falo. Os que ilustram as lendas da aldeia perdida nos ermos do interior, editada pela junta de freguesia local. A história do monumento icónico da municipalidade contada em quadradinhos. As vinhetas edificantes sobre a vida de personalidades importantes que normalmente só os elementos da fundação com o seu nome conhecem. Livros cuja edição é paga pelos fundos próprios das instituições, e que se destinam invariavelmente a languescer em bibliotecas escolares e municipais, mal grado os esforços de funcionários dos promotores, a quem é entregue a tarefa de ir a escolas e eventos locais mostrar o como o livro é importante para a historiografia/conhecimento local/história/património/glória do fundador (escolher o tópico mais adequado e riscar os que não interessam). Obras edificantes e educativas, grande parte delas tremendamente entedianteS e a agradar apenas àqueles que as encomendaram. A versão comics destas publicações são as aventuras em que os heróis da Marvel ou DC juntam forças a ícones comerciais em aventuras que mal disfarçam o serem longos anúncios publicitários.

O Cajado de Daghdha
Mitos e lendas tradicionais formam a base desta história.

Nalguns casos, convidam nomes sonantes da Banda Desenhada, de primeira ou segunda linha. José Ruy tem alguns destes livros na sua bibliografia, e há o curioso caso de O Segredo de Coimbra, encomendado pela Universidade de Coimbra a Étienne Schréder em 1997, e reeditado recentemente.  São livros que, na sua larga maioria, o melhor que se pode dizer deles é que pagaram aos autores. Isto se estes não caíram nas falinhas mansas de autarcas locais que lhes prometeram “exposição ao público”, esse fator tão importante para pagar as contas ao fim do mês, ou foram convencidos a participar por amor à localidade ou fundação.

Quando o Bruno Campos disparou o email com a nota de imprensa deste O Cajado de Daghdha, com a nota de és capaz de achar isto interessante, revi mentalmente estes meus traumas. Um livro de banda desenhada cuja capa mostra proeminentemente um dos mais conhecidos monumentos do património arquitectónico e cultural galego, editada por uma associação transfronteiriça de municípios da região norte e galiza. Editado gratuitamente, em PDF e em livro como oferta de um jornal regional. Disponível num site que alberga livros com títulos tão empolgantes como Da Galaécia à Euro-Região ou Uma Fronteira que nos Une. Livros que deixarão em êxtase pessoas muito cinzentas que habitam em gabinetes abafados de câmaras municipais e instituições locais, certamente.

À partida, O Cajado de Daghdha cai exatamente na definição que tenho sobre livros institucionais. Mas também tenho um fraquinho pela Galiza, também conhecida como o norte do norte português, e de lá já descobri boas surpresas saídas destas associações algo cinzentistas de promoção da cultura local – como o Lembranças da Terra de Ângelo Brea, um simpático livro de contos de ficção científica classificável como FC lusófona. Por isso, arrisquei. E ainda bem.

História, Mito e Lenda misturam-se no Cajado de Daghdha

O Cajado de Daghdha revelou-se uma boa surpresa de leitura. Tem, como não podia deixar de ser, um forte pendor didáctico. Faz parte deste género de edições. Elemento que é aliviado numa história bem conseguida, de narrativa dinâmica e fortemente inspirado naquele género de segredos do passado e artefactos poderosos que intrépidos académicos revelam após uma odisseia de buscas em edifícios monumentais e decifração de mensagens crípticas. Um género libertado pelo sucesso de O Código DaVinci, com as suas infindas variações.

Ilustrar o património arquitetónico dos caminhos de Santiago.

Em termos estritamente narrativos, este livro segue à risca as convenções do género. Flávia, uma brilhante académica vem a Lisboa para investigar um mistério que se prende com o desaparecimento do seu mentor, o excêntrico e sábio professor Do Muiño. Junta esforços com Adão, o assistente do professor, e cruzar-se-á com as irmãs gémeas descendentes de um historiador francês do século XIX que investigou os segredos por detrás do Cajado de Daghdha, artefacto vindo dos tempos pré-romanos, em que a influência celta se fazia sentir nas zonas nortenhas da península ibérica. Teme-se que o sábio professor tenha sido capturado por uma sociedade secreta, determinada em descobrir o paradeiro do cajado, usando os seus poderes para aquilo que todas as sociedades secretas almejam neste tipo de histórias. Ao longo da história, os heróis irão viver muitas peripécias, as verdades acabarão por ser descobertas, e as intenções nefastas das forças do mal serão travadas. O pormenor que dá sentido a este livro no seu contexto é a necessidade dos personagens percorrerem alguns dos diferentes caminhos de Santiago, as rotas medievais de peregrinos a Santiago de Compostela, em busca das pistas para decifrar o enigma que sustenta o livro.

O Cajado de Daghdha
As criaturas lendárias do folclore galego e norte interior.

A partir de uma história de mistérios e conspirações, somos levados às principais localidades dos caminhos de Santiago, ficando a conhecer as suas paisagens e monumentos. Felizmente, o autor deste livro sabe contar histórias, conseguindo diluir o peso didático nas peripécias da narrativa. Com esse expediente, passamos pelas lendas e monumentos locais de localidades portuguesas e galegas. O peso cultural está também presente na força opositora aos heróis, que assume as máscaras de diabretes tradicionais e assume nomes de figuras lendárias do folclore galaico-duriense. Ficamos também a conhecer o substrato céltico do norte ibérico. O cajado de Daghdha é um dos atributos de um deus da fertilidade do panteão céltico.

O Cajado de Daghdha
Uma forma diferente de explorar os caminhos de Santiago.

Diria que O Cajado de Daghdha cumpre bem o seu objetivo institucional, abordando o património cultural da região transfronteiriça. Fá-lo fugindo ao estereótipo deste tipo de edições, com uma história divertida, bem construida e bem ilustrada. Norberto Fernández é um desenhador veterano, que passou pela El Víbora e Eros Comix, publicações marcantes do panorama editorial espanhol, e editou alguns trabalhos sobre historiografia galega. Tem trabalhado para o mercado americano como ilustrador de capas na Zenescope, editora da série Grimm Fairy Tales, arte-finalista em X-Men da Marvel, desenhador e colorista em séries da Image.

A sua experiência nota-se no traço, num equilíbrio entre o cartoon e a ilustração realista de linha fina que, pessoalmente, associo muito à banda desenhada espanhola. A qualidade gráfica é o aspeto que salta logo à vista neste Cajado de Daghdha. Norberto Fernández utiliza muito bem o grafismo como elemento narrativo, fugindo ao tipo de vinhetas ilustrativas e explicativas que caracterizam as edições de BD que se dedicam a temas pedagógicos.

Finalizada esta leitura, ficamos a saber um pouco mais sobre o substrato histórico das regiões norte e Galiza, divertindo-nos com uma boa história. Mergulhamos no património cultural e arquitectónico das terras, visitando através da BD monumentos tão díspares como a portuense Ponte D. Luiz, o centro histórico de Tui ou a paisagem das ilhas Cíes. Descobrimos a base celta das lendas e narrativas tradicionais do norte e Galiza, num livro leve e bem ilustrado. Foi editado por cá como oferta do jornal Correio do Minho e está disponível em PDF na página Publicações Eixo Atlântico. Se se enganarem e descarregarem O Báculo de Daghda na versão original em galego, provavelmente não vão dar pela diferença durante a leitura.

O Cajado de Daghdha

Autores: Norberto Fernández
Editora: Eixo Atlântico
Páginas: 48, capa mole e livro eletrónico

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