Breve História da BD (Parte 1 de 2)

O recurso à imagem para contar uma história é uma técnica antiga. Assim se retratavam cenas de caça na pré-história.

Mas a verdadeira origem da banda desenhada assenta na ilustração e na caricatura política dos séculos XVIII e XIX, quando os jornais procuram novas formas de atrair mais e mais leitores, e a sequência narrativa se começa a impor. Entre os maiores percursores do género contam-se o suíço Rodolph Topffer (1799-1846), o alemão Wilhelm Busch (1832-1908), o francês Georges “Christophe” Colomb (1856-1945) e o português Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905). O suíço é, talvez, o primeiro a aperceber-se das características únicas de uma nova forma de linguagem cuja invenção se anunciava, afirmando em 1837 a propósito do seu “Monsieur Jabot”: “Este livro é de uma natureza mista. (…) Os desenhos, sem o texto, não teriam senão um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, nada significaria”.

Nos Estados Unidos da América, a última década do século XIX é assinalada pela gigantesca luta comercial entre Joseph Pulitzer (director do ‘New York World’) e William Randolph Hearst (futuro modelo de “Citizen Kane” de Orson Welles e patrão do ‘New York Journal’). Esta luta caracteriza-se pela introdução da cor, por ‘roubos’ de desenhadores populares e por uma pouco pacífica delimitação de personagens, mas constitui o palco para o nascimento do “Yellow Kid” de Richard F. Outcault, onde pela primeira vez, em 1896, surge o balão.

Em 15 de Outubro de 1905, um terceiro competidor, o ‘New York Herald’ de James Gordon Bennett, introduz uma série que define definitivamente a linguagem da banda desenhada e todos os seus elementos: “Little Nemo in Slumberland”, de Winsor McCay.

Na imprensa portuguesa, autores como Stuart ou Cottinelli Telmo situam-se entre os mais originais do seu tempo.

A partir de 1930, também por influência do cinema, a banda desenhada começa a deixar a exclusividade do género humorístico, partindo à descoberta da aventura, do policial, da ficção científica, e de todo um conjunto de géneros que entretanto se popularizavam. A época de ouro da banda desenhada norte-americana, com autores como Alex Raymond (“Flash Gordon”), Milton Caniff (“Terry and the Pirates”), Harold Foster (“Prince Valiant”) ou Burne Hogarth (“Tarzan”), mas, com o aparecimento de “Superman” (em 1938) e “Batman” (em 1939), depressa o mercado norte-americano se vai reorientar, abandonando os jornais e passando para revistas específicas – os “Comic-Books”.

Na Europa havia a registar a continuidade da linha de Christophe assegurada por Alain Saint-Ogan, bem como a criação de “Tintin” por Hergé (em 10 de Janeiro de 1929) e “Spirou” (em 1938). Mas é a ocupação alemã na 2ª Guerra Mundial, com as consequentes proibições de importação da banda desenhada norte-americana, que vai contribuir decisivamente para o desenvolvimento da banda desenhada franco-belga e europeia. Em 1946 Raymond Leblanc cria a revista “Tintin”, em que Hergé é director artístico, reunindo nomes como Edgar Pierre Jacobs (“Blake et Mortimer”) ou Jacques Martin (“Alix”). No mesmo ano André Franquin “herda” as personagens de Spirou e Fantásio, contribuindo decisivamente para a afirmação da revista “Spirou”, que também vê nascer “Lucky Luke” e os “Schtroumpfs”, entre outros. Em Portugal, depois do surgimento de “O Mosquito” em 1936, é durante a 2ª Guerra que surgem “O Pirilau”, “Diabrete”, “Lusitas” e “O Faísca”, entre outros (e, pouco depois, “Camarada” – 1947, “O Mundo de Aventuras” – 1949, e “Cavaleiro Andante” – 1952). É a época de ouro da banda desenhada portuguesa, com ETC, Bento, Ruy, Garcês e Péon.

Também com a 2ª Guerra Mundial, o Japão rompe com o modelo norte-americano. Em 1947, Osamu Tesuka estreia “Shintakarajima” (uma mistura de ‘Tarzan’, ‘A Ilha do Tesouro’ e ‘Robinson Crusoe’), inventando uma identidade para a banda desenhada japonesa (“manga”) marcadamente expressionista tal como hoje a conhecemos, e construindo as bases para tornar o Japão no maior produtor e consumidor de BD à escala mundial.

Na década de 50, a banda desenhada norte-americana procura novos tipos de leitores experimentando a manifestação de novas consciências e sensibilidades (com “Pogo” – 1948, ou “Peanuts” – 1950) ou ensaiando novos temas, como sucede com a mudança de rumo da EC Comics no sentido da banda desenhada de terror. Em 1954, no entanto, a promulgação do Comics Code (que ainda vigora, embora já tenha sido revisto por duas vezes) impede o sucesso desta última via, consagrando uma série de regras de censura definidas pelos mais populares agentes da indústria.

Em 29 de Outubro de 1959 surge a revista “Pilote” impulsionada sobretudo por René Goscinny, onde se estreia “Astérix”, e que vai ter um papel decisivo na definição de banda desenhada como meio de comunicação destinada também a adultos. Entre muitas séries “Pilote” apresenta “Blueberry” uma criação de Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, em que o protagonista fuma, bebe e joga, rompendo com tradição do herói como modelo de conduta moral.

Nos Estados Unidos, os anos 60 são marcados (para além do ressurgimento dos super-heróis, agora por parte da Marvel) pela contracultura do movimento underground, cujas raízes se encontram nas séries proibidas da EC e, sobretudo, na revista “Mad” de Harvey Kurtzman, publicada por aquela editora desde 1952. Em França, o espírito underground vai ser a tradução em banda desenhada do Maio de 68, em revistas como “L’Écho des Savanes”, “Fluide Glacial” ou “Métal hurlant”. Nesta última Jean Giraud dá liberdade total a uma outra face da sua criatividade: Moebius.

Inicia-se na década de 60 toda uma viragem da banda desenhada mundial, aos níveis da experimentação gráfica (como sucede com “Mort Cinder” de Breccia e Osterheld) e da técnica narrativa. O início da publicação da revista “Tintin” portuguesa, em 1968, vai permitir acompanhar estas novas tendências.

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