Baudoin dobrado

A coleção Novela Gráfica, editada pela Levoir em colaboração com o jornal Público, continua a centralizar as atenções no que respeita às novidades editoriais deste ano.

Esta semana, foi a vez da publicação da edição portuguesa de A Viagem, de Edmond Baudoin, o terceiro volume da coleção, que me levanta uma questão de aparente pormenor, mas que me parece ser suficientemente importante para ser discutida.

Por um lado, fico muito contente por, finalmente, ter um livro português de Baudoin que, como bem diz João Miguel Lameiras no texto de introdução, “permanecia escandalosamente inédito em Portugal”. Mas, por outro lado não revejo a “voz” do autor francês na legendagem escolhida, demasiado mecanizada.

A questão vai um pouco para além disto, recordando-me a entrevista que conduzi com Benoît Peeters, aquando da sua mais recente passagem pelo AmadoraBD. Dizia Peeters – que, enquanto autor de BD trabalha sempre em colaboração – que só acredita na colaboração em banda desenhada até determinado ponto. Para ele, as melhores bandas desenhadas resultam de vozes únicas, dando os exemplos de Hergé, Winsor McCay, Moebius, Chris Ware ou Joann Sfar.

A divisão do autor é mesmo encarada por Peeters como um verdadeiro problema de muita banda desenhada, uma vez que afecta a exposição da fragilidade que decorre da intimidade.

Edmond Baudoin é, como sublinhei na crónica que escrevi na sequência da sua passagem pela Amadora no âmbito do 25.º AmadoraBD, um autor cuja obra está centrada na interioridade e no sentimento, e cuja escrita se confunde com o desenho. Isto requer um cuidado especialíssimo com a legendagem.

Há que dizer que a equipa responsável por essa legendagem para a edição portuguesa, formada por Rui Alves e Hugo Jesus, fizeram uma tentativa séria para assegurar esse cuidado. Mas também há que reconhecer que falharam. Há um manifesto desequilíbrio entre as páginas sem texto e as páginas com texto, em que sentimos quando é que o autor, respetivamente, comunica por uma voz única ou é “dobrado” pela legendagem.

A fidelidade à legendagem original não é novidade no mercado editorial português, onde é assegurada nas grandes séries franco-belgas, como Tintin, Blake e Mortimer ou Lucky Luke, mas também nalguns trabalhos de autor, como o Portugal de Cyril Pedrosa.

Poderá dizer-se que o mais importante era publicar Baudoin. É um argumento válido. Afinal, o livro aconselha-se vivamente, e é um excelente cartão de apresentação de Baudoin ao leitor português que desconhecia o seu trabalho. Mas mantenho que aquilo que a contracapa apelida de o “traço sensual do autor” não se revela apenas no desenho que está dentro do limite dos balões para fora.

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1 Comment

  • Olá Pedro. Também concordo contigo. O problema é que a escrita do Baudoin é manual e não arranjamos uma fonte igual à letra dele e no tempo em que este livro foi feito, não houve tempo de criar uma fonte baseada na caligrafia dele. Mas entre ter o livro legendado com uma fonte que não é a ideal, ou não ter livro, a opção parece-me óbvia.

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