Banda Escrita: Rui Zink na Bedeteca da Amadora

Terceira exposição de um ciclo de cinco dedicada a argumentistas contemporâneos da banda desenhada portuguesa.

Rui Zink (Lisboa, 1961) é um profícuo autor literário (de Hotel Lusitano, 1987, a Osso, 2015), tendo escrito romances, contos, teatro, libretos de ópera e novelas (como a extraordinária A espera, de 2007) e mesmo alguns objectos literários inusitados. Nessa sua produção, integrar-se-á sem diferença de grau ou natureza a sua produção de banda desenhada, que, nas duas colaborações com António Jorge Gonçalves (A arte suprema, 1997, e Rei, 2007) assumiu de imediato um lugar de destaque na história da produção contemporânea portuguesa nessa disciplina. Além disso, mas ainda relacionado com esta área, recordemos que o seu trabalho académico também aí incide, destacando-se o seu importantísismo projecto de doutoramento, que veio a lume em 1999 com o título A Literatura Gráfica? Banda Desenhada Portuguesa Contemporânea.

Tal como ocorre na sua escrita literária, Zink dá uma particular atenção para com a “intriga” na banda desenhada, voltando a um prazer na narrativa, na construção de personagens, no espelhamento de uma sociedade concreta e hodierna, de que as letras nacionais, de certa forma, andavam arredadas, preferindo voos líricos ou abstracções conceptuais que, ainda que atingissem cumes estéticos, acabavam por pouco reflectir a sociedade imediata em que se mergulhava. Isso não significa, porém, que as suas bandas desenhadas sejam imbuídas de um realismo ao rés-do-chão. Na verdade, esse realismo encontra-se atravessado pelo absurdo, pela ironia política, pela fantasia onírica que transborda das suas personagens para as percepções distorcidas. Isso é ainda reforçado pelas “colaborações”, tão distintas, com os artistas.

Com efeito, os métodos de escrita do autor são muito particulares e nascem de um entendimento muito profundo do que significa a “escrita em colaboração”, jamais subsumindo o artista a um transcritor em imagens de uma hipotética história autónoma, mas antes compreendo aforma como duas vozes se podem reformular mutuamente para chegar a um objecto uno. Poder-se-ia dizer que Zink não é de forma alguma um mero argumentista para artistas, mas antes um co-desenhador dos livros com os seus co-escritores. Esta exposição não se centrará somente nos livros acima indicados, mas igualmente na “peça teatral em banda desenhada” O halo casto, com Luís Louro (1999), algumas das pranchas da imensa saga Major Alvega, com Manuel João Ramos (algumas das quais jamais repescadas d’O independente) e peças curtas que criou com o mesmo artista para a mítica revista K e outras plataformas, com um então iniciante André Carrilho e uma brochura com Cristina Sampaio (destes dois recuperados em alguns dos seus volumes de contos), assim como outros objectos em torno dos métodos e processos de escrita.

Uma vez que muitos dos seus romances estabelecem alianças particulares com os universos da banda desenhada, seja em termos temáticos ou formais – pense-se nos contos de Homens-Aranhas, 1994, ou em O amante é sempre o último a saber, 2011 -, a exposição contará ainda com mostras bibliográficas dos seus escritos.

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