O Ateneu, de Marcello Quintanilha

O Ateneu
Marcello Quintanilha recupera em O Ateneu um mundo perdido, feito de falsa nobreza e honra oca, num registo cumulativo de sensações e impressões.

Retrato de época, pouco lisonjeiro para a sociedade brasileira, O Ateneu mergulha-nos no clima opressivo de um colégio interno no Brasil do século XIX. Este romance de Romeu Pompéia é revisitado pelo traço de Marcello Quintanilha, num registo gráfico que remete para as estéticas da viragem do século, entre cruzado com as palavras da obra original. Um livro que chega aos leitores portugueses através da oferta editorial da Polvo.

Rever o Impressionismo com o traço de Quintanilha

Quando pensamos em Impressionismo, geralmente remetemos a alguns quadros icónicos. Os nenúfares de Monet, os bailes de Renoir, talvez a pincelada vigorosa de Van Gogh (em bom rigor, um pós impressionista), são algumas das imagens que estão a mente cultural colectiva associa ao movimento impressionista, estando subjacentes conceitos de um bucolismo modernizado, em sensações despertas pela paisagem e transmitidas para a tela pelo pincel do artista. Esquecemos que este movimento artístico foi, na sua essência, uma revolução nos modos de ver. Essencialmente pela técnica de pintura, que procurava transmitir pela pincelada a sensação óptica da cor. Indo além da técnica, o impressionismo caracteriza-se por uma incessante procura de novos pontos de vista, que quebravam abertamente as regras da representação pictórica. Degas, um apaixonando pelas novas possibilidades perspéticas trazidas pelo acaso da fotografia, legou-nos as suas bailarinas desenhadas de ângulos impossíveis, enquanto Pissarro olhava para a cidade com um tipo de olhar que hoje seria de fotografia instantânea. Alguns quadros impressionistas, menos icónicos e estáticos do que aqueles que atraem multidões aos museus, subvertem a perspetiva tradicional. Quando os contemplamos, parecem ter sido criados com o cuidado com que um fotógrafo amador coloca nos enquadramentos, sem preocupação de pesos visuais, como se fossem fotografias tiradas ao acaso. O olhar não é estático, e a beleza pode ser encontrada em pontos de vista fugazes.

Há um quadro em particular de que me recordei ao ler este livro de Marcello Quintanilha. Les raboteurs de parquet retrata homens esforçados a polir um soalho de madeira. A luz rebrilha na superfície recém-polida, e o ponto de vista coloca-nos muito próximos do chão. Há uma vinheta de Quintanilha muito similar, sem polidores mas com brinquedos, e a mesma sensação de luz. Suspeito que com uma análise cuidada, encontraria outras referências visuais diretas ao impressionismo. Indiretas não faltam, com a cor a sobrepor-se como elemento estético principal, um saudável desrespeito pela perspetiva clássica, descentramento de pontos de vista, e composições gráficas que tanto fazem recordar quadros impressionistas como a estética dura do retrato no expressionismo ou o decorativismo de Matisse. Um nível gráfico que Quintanilha mantém ao longo do livro, e que se torna aparente logo nas primeiras páginas, as mais luminosas. Este é um dos artifícios estético que sustenta o livro, toda a história é um progressivo mergulho na escuridão do comportamento humano, a cor vibrante e luminosa das primeiras vinhetas contrasta com a negritude e cinzento das que o encerram.

Lendo um pouco sobre o romance O Ateneu do escritor brasileiro Raúl Pompeia, que Quintanilha adapta neste livro, descobri que é ao mesmo tempo uma obra naturalista, com aquele toque de retrato desapaixonado do real, e impressionista, que se centra nas sensações de um narrador que nos conta uma sucessão de episódios com final trágico. O romantismo anda longe desta história impiedosa, daquelas que mostra pouca fé nas ideias de bondade inata no homem. A pergunta que me faço, mas não conheço o suficiente da obra de Quintanilha para responder, é se o estilo visual da sua adaptação foi concebido para remeter o leitor para a cultura visual da viragem do século XIX para o XX, época de onde nos chega o livro original, ou se é o estilo do ilustrador.

Num cruzamento de vozes do passado e do presente

Na sua adaptação, Quintanilha não tenta traduzir as palavras originais para os leitores atuais. Isso é intencional. O seu traço expressivo e cor vibrante ilustram as palavras do narrador, com as linguagens do final do século XIX. Fica claro que Quintanilha não quer diluir da força do livro, apenas complementá-la com o seu traço, trazendo o ponto de vista de um escritor, a voz de um século que passou, sem concessões para os leitores actuais.

O livro em si é implacável, uma história de maldade humana que não se centra no grande mal, antes nas pequenas perversidades e malevolências que, acumuladas, são o mal do dia a dia. Em O Ateneu, seguimos o percurso de pura sobrevivência do jovem Sérgio, uma criança inocente que é colocada pelos pais naquele que seria o melhor colégio interno da cidade. Liderado por um reitor rígido e pretensioso, o seu ambiente moral repressivo é um cadinho de injustiças e maldades. O sentimento de opressão, de submissão face à força dos outros, é permanente. A violência entre as crianças é a norma, a humilhação e o castigo o método pedagógico. Aqueles que revelam fraquezas são depressa esmagados pelos colegas mais fortes e violentos. O recreio é um campo de batalha, o dormitório um purgatório, e a sala de aula um bastião escolástico. Não há futuro para amizades no turbilhão das emoções, e assiste-se ao despontar de diferentes sexualidades no ambiente opressivo de jovens com as hormonas a despertar.

A mensagem de Pompeia, e por extensão de Quintanilha, é a da descrença na inocência bucólica da infância, bem como a crítica aos sistemas rígidos de educação, que se focam na memorização pura, postura e projeção de imagens de inflexibilidade. Quando se isolam crianças num ambiente fechado, as piores pulsões saltam ao de cima (e isso não se perdeu com a passagem do tempo, qualquer professor sabe isso apenas por observar o comportamento dos alunos nos intervalos). Sérgio é um sobrevivente, e depressa perderá a sua inocência para se aguentar no colégio. Ou melhor, não a perde, mas aprende a ser como aqueles que despreza, tornando-se vitimador para não ser vitimado. A intensidade das emoções na obra mostra um óbvio caráter autobiográfico, que Quintanilha consegue transmitir quer pelo estilo visual quer pelo uso do texto narrativo original.

O Ateneu

Autores: Marcello Quintanilha
Editora: Polvo
Páginas: 84, capa mole
PVP: 13,99 €

9 Argumento

9 Planificação

8 Temática

9 Desenho

9 Arte Final

9 Cor

8 Legendagem

9 Produção

O Ateneu impressiona pela intensidade das emoções que Quintanilha consegue transmitir. quer pelo seu estilo visual quer pelo uso do texto narrativo original

8.8
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