Até os muçulmanos são Charlie

Chegou, de facto, a altura de dizer que nós somos Charlie Hebdo. Porque nós gostamos do humor, seja acerca de Maomé, Jeová, Jesus Cristo ou Buda. Porque nós não confundimos o respeito e a tolerância devida a todos, com a possibilidade de nos rirmos e de vivermos. De achar que Maomé tem um mau feitio pior ainda que o Jeová do Antigo Testamento e que o seu filho Jesus Cristo, era um totó que achava que a humanidade se converteria pelo exemplo (e Buda um tipo a necessitar urgentemente de ir ao ginásio).

É deste modo que Henrique Monteiro inicia um crónica sobre a tragédia que se verificou ontem em França. Na manhã de 7 de Janeiro três homens armados entraram na sede do jornal satírico “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas. Entre as vitímas encontravam-se Charb (Stephane Charbonnier), Georges Wolinski, Cabu (Jean Cabut) e Tignous (Bernard Velhac), quatro nomes importantes do cartoon político cuja relevância é destacada no artigo do Público que contam com os depoimentos de João Paulo Coutrim (ex-director da Bedeteca de Lisboa e editor), Sara Figueiredo Costa (crítica de BD), Osvaldo Macedo de Sousa (comissário do Amadora Cartoon), Luís Humberto Marcos (director do Porto Cartoon )e Pedro Moura (crítico de BD).

O semanário, de cariz esssencialmente satírico e humorista, já tinha sido atacado e ameaçado pelas suas constantes caricaturas do islão, do profeta Maomé e do grupo terrorista auto-denominado Estado Islâmico. Na verdade, o “Charlie” disparava para todo o lado e era também crítico de outros elementos voláteis, incluindo a extrema direita francesa, representada pela sua actual líder Marine Le Pen.
Paulo Costa in Leituras de BD

Pouco antes do atentado a redacção do Charlie Hebo tinha publicado uma imagem de Abu Bakr Al-Baghdadi, líder do jihadísta ISIS, na sua conta de twitter.

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O que poderá estar (ou não) relacionado com o motivo do ataque, em declarações prestadas por uma desenhadora da revista site Humanité, transcritas pelo Observador, é indicado que os assasinos reivindicaram ser da Al-Queda.

Fui buscar a minha filha à creche e, ao chegar à porta do edifício do jornal, dois homens mascarados e armados ameaçaram-nos brutalmente. Eles queriam entrar, subir. Marquei o código. Dispararam contra Wolinski, Cabu… isso durou cinco minutos. Eu refugiei-me num escritório. Eles falavam perfeitamente francês.Reivindicaram ser da al-Qaeda.

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A redes sociais foram inundadas com mensagens de pesar e cartoons dedicados aqueles que foram massacrados pelos seus desenhos, uma homenagem de colegas de profissão a autores que mais não fizeram que exprimir a sua opinião.

Alguns desses cartoons e ilustrações estão compiladas no Buzzfeed e Le Monde.

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“Cabu, Wolinski, Tignous, Charb. Uma morte estúpida e cruel. / Deus: Cabu? Por uma vez chegas cedo.”

No twitter a hastag #JeSuisCharlie serve de mote a mensagens de repúdio pelo sucedido. “Je suis Charlie”, Eu sou Charlie. Uma afirmação singela de que todos somos Charlie, com direito a proferir uma opinião sem sermos mortos por isso. Como refere Henrique Monteiro, “nós somos Charlie Hebo”, mas é um nós que não se restringe a não-mulçumanos, mas se estende a muçulmanos também. Em Julho de 2014 a ISIS, cujo líder foi caricaturado pelo Charlie Hebo pouco tempo antes do massacre, ofereceu uma recompensa a quem assassinasse Nayef al-Mutawa (autor de BD muçulmano) que criou The 99, grupo de super-heróis criado com o objectivo de “voltar à fonte de onde [os extremistas] tiraram as mensagens de ódio e violência e oferecer mensagens de tolerância e paz no seu lugar”.

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