Até ao Dia

O que é que faz mexer a banda desenhada portuguesa? A resposta é evidente, mas é diferente da que encontramos na quase totalidade dos países com alguma tradição histórica nesta área.

A banda desenhada portuguesa não vive de séries nem de personagens que atravessam gerações de leitores. Também não vive de publicações especializadas que sobrevivem décadas, dando a conhecer novos talentos e pré-publicando histórias que depois são recolhidas em formato de álbum. Também não vive de míticas casas de edição, com projetos editoriais planificados com anos de antecedência, e que fidelizam leitores. Também não vive de históricas coleções de álbuns, que movem leitores e colecionadores. Também não vive da ligação a outros públicos, com adaptações cinematográficas ou produtos derivados de relevo. Também não vive de um grande número de novidades editoriais ou reedições, que mantenha vivo todo um mercado. E não vive de grandes estúdios ou escolas de autores que assegurem uma formação contínua, e estilos que identificam a produção de um país. E não vive de um circuito intenso de salões e festivais, que defina momentos históricos. E não vive de grandes lojas especializadas que promovam produções próprias e eventos regulares.

A banda desenhada portuguesa vive de algumas (poucas e facilmente identificáveis) pessoas. Uns autores, uns editores, uns livreiros, uns promotores, uns divulgadores.

A semana que passou foi marcada pela morte do Estrompa. E essa morte lembrou-me isto: a banda desenhada portuguesa vive de algumas pessoas, até ao dia.

Não há uma renovação natural, nem uma garantia de continuidade. Tudo depende da circunstância de, na altura em que desaparecerem algumas pessoas, existirem outras.

Já abordei a questão da continuidade a propósito do projeto da cidade da Amadora. Durante muitos anos, a cidade não assumiu qualquer projeto. Ano após ano, o festival internacional de banda desenhada marcava um momento zero, que acontecia como se a cidade nada tivesse feito antes na área da banda desenhada. E no fim do festival, era a mesma coisa. Tudo desaparecia como se a seguir não viesse mais nada. O circo chegava à cidade e partia.

Posteriormente (e muito lentamente), as coisas começaram a alterar-se. Apareceu o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI) que mantinha a Amadora a trabalhar na BD para além dos dias do festival. E o próprio festival começou a defender propostas de continuidade (ainda que muito descontinuadas), como a aposta na lusofonia.

É ainda muito pouco, e está tudo ainda demasiado dependente de algumas (poucas e facilmente identificáveis) pessoas. Até ao dia.

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2 Comments

  • Olá, Pedro.

    A tua crónica vai ao encontro de alguns pontos de raciocínio que alimento em relação ao problema da cultura em Portugal, no qual, evidentemente, a banda desenhada portuguesa se inclui. Tenho pensado muito nessa problemática, nos anos mais recentes, e se hesito em formular uma tese, mesmo esquemática, sobre ela, é porque as interrogações são muitas e até paradoxais, Mesmo assim, é possível esboçar algumas perplexidades que, à falta de melhor estribo, terão de nos conduzir a respostas mais ou menos satisfatórias:

    A) Grosso modo, os indivíduos somente se preocupam com a cultura quando veêm resolvidas outras urgências (subsistência, abrigo, segurança, etc.). Portugal sempre foi um país pobre, desabrigado e inseguro, de maneira que, ao longo da sua história, apenas punhados de pessoas estariam dispostos a olhar para a cultura – olhando-a, claro, sob as idiossincrasias das suas épocas.

    B) Portugal (e Espanha, já agora) sempre foi observado com muito preconceito pela remanescente Europa, em principal pela do Norte. Poderemos pensar que isso é um fenómeno recente, liderado pelos objectivos monetaristas alemães, mas, de facto, por motivos diferentes ao longo dos séculos, Portugal sempre foi votado ao ridículo e ao preconceito – forças que ditaram muitíssimas vezes as nossas políticas internas e externas. Em suma: Portugal nunca foi observado como sendo um país de cultura e, por essa via, nunca tentou valorizar-se pela cultura.

    C) A Banda Desenhada é um fenómeno recente no grande fôlego da história e, por culpa disso, ainda não se inscreveu, ainda não criou raízes. Como tal, algo que é inventado “ontem”, figurativamente falando, pode sempre desaparecer “no dia seguinte” se falhar em captar atenção, agentes, defensores, etc. Quanto mais tempo algo subsiste, mais tempo irá susbistir: é quase uma regra. Quantas coisas foram inventadas nos últimos cinco anos e já desapareceram, mas quantas coisas foram inventadas nos últimos quinhentos e que ainda estão connosco? Ou seja: a BD portuguesa, infelizmente, pode desaparecer. Para nós, que gostamos dela e que lhe damos vida, ela é intemporal, mas a sua natureza não é essa. De um ponto de vista pragmático, ela é muito recente e ainda está na fase da inscrição: aquela fase em que algo “ou vai ou racha”. É uma fase em que, mais uma vez, um punhado de pessoas idealistas e entusiastas tentam fazer vingar algo, mas esse algo pode desaparecer se não angariar massa crítica. Não sou capaz de dizer quanto tempo a BD portuguesa poderá aguentar nessa situação, mas não será para sempre, isso parece-me evidente. Daí que há medida que as pessoas que a corporizam forem desaparecendo, ela também irá desaparecendo, se não angariar gente nova.

    A BD arrisca-se a ser algo tão especializado e microscópico quanto certas indústrias artesanais, como a do vitral: mantida viva por dois ou três mestres, que ainda conhecem os melhores truques do ofício, mas totalmente impenetrável e considerada excêntrica e meramente decorativa – ou, pior, até desnecessária – por todos os outros.

    Acho que olhar sem medo para este facto é meio-caminho para resolver este problema.

    Um abraço,
    David Soares

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