Assassin’s Creed Prova de Fogo, de Anthony Del Col, Conor McCreery e Neil Edwards

Assassin's Creed Prova de Fogo marca uma nova aventura editorial no domínio da edição de comics em português. Uma série que não surpreende nem deslumbra, apenas entretém.

A Goody tem uma estratégia curiosa de edição. Não se limita a lançar títulos timidamente, quando se atira ao mercado, vai em força. Notou-se com a sua aventura Disney. Do nada, saturou o público com um alinhamento de títulos mensais, ao ritmo de um por semana. Ao fim de alguns anos disso, foi o público que saturou e a Goody abandonou a única publicação de BD infantil regular em Portugal. Ainda podem encontrar alguns quilos destas edições nas prateleiras dos supermercados. Esta não parece ser uma estratégia de longo prazo, antes uma aposta que vai dando dando frutos até ao dia que deixa de o fazer.

Após o colapso das edições Disney, a Goody voltou à carga com a edição regular de comics Marvel. Novamente, de bandeiras desfraldadas e a todo o vapor. De zero edições regulares, tirando a coleção da Salvat, passámos a ter edições quinzenais, depois alargadas com mais títulos para semanais. Juntem-lhe edições especiais e séries limitadas, e da míngua que os fãs tanto gostavam de lamentar passámos a ter um verdadeiro dilúvio de comics em português. A estratégia mantém o foco na intensidade editorial, embora me pareça ser mais estruturada. Em vez de lançamentos sem fim definido, organiza-se em séries, o que dá algumas garantias aos fãs que, ao contrário de anteriores iniciativas editoriais, caso dos malfadados comics da Panini em português europeu que deixaram de ser publicados sem pré-aviso, os arcos narrativos sejam publicados até ao fim.

Pergunto-me se a Goody tem um modelo sustentável neste tipo de modelo. Sem saber números reais de vendas, não há informação suficiente para me pronunciar. Diria que o único ponto comum identificável de estratégia editorial é a sua aposta em títulos de puro entretenimento. A editora não nos traz obras marcantes, optando pela publicação de continuidades de títulos actuais. Como se nota nos alinhamentos da série Marvel Especial, esforça-se muito por não editar momentos marcantes dos comics.

O que me surpreendeu ao ler este primeiro volume de Assassin’s Creed foi até ter gostado da história. Franchisings transmedia que exploram o filão do mundo ficcional de jogos de computador não me são especialmente apelativos como leitor. São, essencialmente, um remastigar em diferentes media de ideias que em si raramente são originais. Sem querer ser injusto com um campo artístico e narrativo hoje de enorme importância cultural tematicamente, por muitos adereços que lhes coloquem a disfarçar, o mundo dos videojogos é especialmente uniforme.

O filão transmedia de Assassin’s Creed despoletou uma série de romances, alguns publicados cá pela Saída de Emergência, e um filme que me manterei a evitar mesmo naquelas tardes mais entediantes de domingo. Parte deste esnobismo tem a ver com a sensação que o melhor dos videojogos está na forma como estimulam o jogador a construir os seus próprios percursos narrativos, com diferentes níveis de estruturação previstos no game design. No entanto, os fãs gostam de explorar estes mundos para lá dos limites dos ecrãs, e os mercados editoriais respondem à necessidade. Para fãs conhecedores, não é difícil desconsiderar este tipo de produto, criados a metro dentro de espartilhos definidos por equipes de marketing, escritos e ilustrados por tarefeiros dos quais não se espera mais do que o estrito cumprimento dos normativos editoriais.

No fundo, não me deveria surpreender ter apreciado este volume, A história está bem montada e estruturada. A mitografia específica de Assassin’s Creed, aquele mergulho virtual num passado orientado pela luta de titãs entre a liga de assassinos e templários, é bem conseguida com um duplo ponto de vista que nos leva ao passado das bruxas de Salem, e a um presente onde uma nova potencial agente dá os seus primeiros passos no universo oculto de conspiração e violência. A busca por um artefato que se revelará não ser um objeto mistura-se com a história pessoal da personagem, intricada com a dos antepassados.

A nível visual, esta série não é interessante. Não se espera deste tipo de produtos visuais inovadores. O estilo é realista, bastante banal, acompanhado por um trabalho de cores sóbrias. Para os fãs mais ferrenhos da saga Assassin’s Creed, esta é uma boa adição que leva o mundo ficcional da série para lá do ecrã. Para leitores de BD apostados em entretenimento, diria que safam melhor com com o alinhamento Marvel da Goody, embora como as expectativas não são à partida elevadas, este volume não desiluda.

Assassin’s Creed: Prova de Fogo

Autores: Anthony Del Col, Conor McCreery, Neil Edwards
Editora: Goody
Páginas: 128, capa mole
PVP: 7,90 €

5 Argumento

6 Planificação

4 Temática

4 Desenho

5 Arte-Final

4 Cor

5 Legendagem

6 Produção

Assassin's Creed Prova de Fogo marca uma nova aventura editorial no domínio da edição de comics em português. Uma série que não surpreende nem deslumbra, apenas entretém.

4.9
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  • “De zero edições regulares, tirando a coleção da Salvat, passámos a ter edições quinzenais, depois alargadas com mais títulos para semanais. Juntem-lhe edições especiais e séries limitadas, e da míngua que os fãs tanto gostavam de lamentar passámos a ter um verdadeiro dilúvio de comics em português. A estratégia mantém o foco na intensidade editorial, embora me pareça ser mais estruturada. Em vez de lançamentos sem fim definido, organiza-se em séries, o que dá algumas garantias aos fãs que, ao contrário de anteriores iniciativas editoriais, caso dos malfadados comics da Panini em português europeu que deixaram de ser publicados sem pré-aviso, os arcos narrativos sejam publicados até ao fim.”

    Pois mas na 1a fase da goody a serie era tanta que queimaram certos arcos como o Steve Rogers Capitain America,Invencible Iron Man ,Venom Space Night,NOVAetc com a pressa de ser mais rápido que as sobras Panini BR,ah e tal pode sair em mini e marvel especial claro que pode mas nao podiam ter evitado a Salada editorial,tipo Ciclope nos Campeões e X-men Blue.Quanto a este esta na pilha nao espero grande coisa.

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