As polémicas dos PNBD do AmadoraBD: versão 2014

Não existem prémios sem polémicas e as nomeações do PNBD suscitaram a sua quota parte de reacções, maioritariamente no Facebook como é habitual por cá.

A grande ausência notada nos nomeados foi “Cidade Suspensa” de Penim Loureiro, editado pela Polvo, cujo lançamento foi durante o X Festival Internacional de Beja.

O motivo da consternação foi resumido de modo sucinto por Dário Duarte (vulgo Derradé) citando uma das críticas bastante positivas que a obra recebeu.

As opiniões valem o que valem mas sobre a “Cidade Suspensa” estas são muito unânimes: “Por vezes surgem livros surpreendentes que a princípio nem sabemos bem como abordar. “Cidade Suspensa” de Penim Loureiro (Polvo) é um desses livros.”

A ausência de uma obra não significa que esta não tenha o valor – que até é reconhecido pela generalidade da crítica – embora estas ausências de obras meritórias nas listas de nomeados seja algo que é usual neste tipo de prémios, seja em Portugal ou não.

A defesa do júri acabou por ser realizada por Mário Freitas (Kingpin Books) que em outros anos foi extremamente crítico da ausência ou não atribuição de prémios a obras (editadas por si) que considerava terem mérito.

Apenas uma achega, porque creio que há aqui alguma injustiça para com os jurados, quando foi dito que se eles não nomeiam um livro é porque não o leram. Há muitos mais candidatos do que nomeados, tal como, obviamente, há muitos mais nomeados que vencedores (apenas um por categoria). Durante os últimos 12 meses, em particular, foi publicado um rol considerável de obras de qualidade, pelo que este ano o cartaz de potenciais nomeados era bastante alargado e nem todos o poderiam ser. De resto, uma decisão de um júri é sempre subjectiva e escuso de relevar disso.

Finalmente, o facto de obras de qualidade não serem nomeadas não lhes tira mérito, é um facto, mas também não faz do júri um bando de mentecaptos nem das obras nomeadas coisas menores ou inferiores. O empenho ou dedicação dos autores das obras nomeadas não foi certamente inferior aos daqueles que não tiveram a felicidade de o ser, pelo que sentimentos de injustiça baseados apenas na dedicação ou no esforço não me parecem os mais racionais.

Um dos motivos para a ausência de algumas obras costuma ser o facto de só serem nomeadas obras que sejam apresentadas a concurso pela editora (ou autor), como frisou José Hartvig de Freitas (responsável pelas colecções da Levoir, editor-assistente da Panini e colaborador da G-Floy).

A selecção dos livros é feita pelo júri EXCLUSIVAMENTE com base nos livros que as editoras
mandam a concurso – se a editora não mandar seis exemplares do livro para o FIBDA, nunca será seleccionado. Algumas das editoras pequenas às vezes não enviam livros (foi o caso de um livro editado pela Mundo Fantasma na edição passada).

Este facto que justifica a ausência de algumas obras (mas não da Cidade Suspensa que enviado a concurso pela editora) levantou uma outra questão, a presença de Desenhador Defunto entre os nomeados, como foi salientado por Gabriel Martins (Alternative Prison).

Aliás questiono-me se as regras não terão mudado, porque normalmente a Chilli não envia exemplares. Mas sobre isso não me posso pronunciar, não estou a par.

A política de não se candidatar as obras que edita a prémios é uma política da Associação Chilli Com Carne que não se restringe aos Prémios Nacionais de Banda Desenhada, mas também se estende aos Prémios Profissionais de Banda Desenhada, onde Francisco Sousa Lobo enviou os PDF solicitados pela organização que a editora preferiu não enviar. Por isso, poderá até ter acontecido o mesmo com os PNBD, onde a Zona de Desconforto, que também é editada pela Chilli. surge entre os nomeados.

Existe que prefira não se candidatar a prémios, como é o caso do Clube do Inferno que fez questão de o frisar na sua página de Facebook, depois de felicitar um dos seus membros nomeado por outras obras editadas fora do colectivo.

Parabéns ao André, nomeado para vários prémios no AMADORA BD, incluindo pelo Safe Place! Porque consideramos o concurso de fanzines uma forma de prostituição, não enviámos o 9-2-5 do André. Senão ele estava em todas.

Mário Freitas no lançamento de "Eu Mato Gigantes" no AniFest em Setembro de 2014
Mário Freitas no lançamento de “Eu Mato Gigantes” no AniFest em Setembro de 2014

Como é habitual, existe a habitual polémica sobre as obras nomeadas que foram comercializadas após Julho do ano de atribuição dos prémios. Este ano é o caso de “Jim Curioso”, “Portugueses na Grande Guerra” e “Eu Mato Gigantes”.

Convém salientar (mais uma vez) o regulamento:

Podem concorrer aos Prémios Nacionais de Banda Desenhada todos os álbuns / livros de BD publicados em português por uma editora portuguesa entre Agosto de 2013 e Julho de 2014 (inclusive).

Serão consideradas as datas de depósito legal, sendo desejável que os livros já se encontrem distribuídos no mercado livreiro.

O que é tido em conta pelo Amadora BD para uma obra poder ser aceite a concurso é a data do depósito legal e não a data em que o álbum é comercializado e distribuído.

Estando esclarecido este ponto, vamos então passar ao caso caricato: “The Untold Tales of Dog Mendonça and Pizzaboy”, obra editada em 2012 pela Dark Horse.

Segundo foi possível apurar, foi apresentado a concurso o segundo volume das Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy que foi efectivamente editado em 2013 pela Dark Horse, contudo esse álbum não é inédito, uma vez que já tinha sido editado (e premiado) em Portugal, contudo a versão da Dark Horse republica “The Untold Tales of Dog Mendonça and Pizzaboy” que, por sua vez, é uma reedição das história realizadas por Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa para a “Dark Horse Presents” em 2011.

De salientar que a categoria onde The Untold Tales está nomeado: Melhor Álbum Português em Língua Estrangeira, não se destina a premiar – ao contrário do que alguns poderiam julgar – o trabalho de autores portugueses para editoras estrangeiras, uma vez que dos cinco títulos a concurso só um foi de facto uma edição de uma editora estrangeira (em 2012) sendo os restantes quatro títulos de editoras portuguesas, mas editados em inglês.

Convém salientar que entre Agosto de 2013 e Julho de 2014 existiram diversos trabalhos de autores portugueses editados em outros mercados. Embora na sua maioria não tenham sido álbuns mas comics, ou se preferirem: revistas. Contudo não terá sido esse o factor que os excluíu desta categoria – uma vez que “Untold Tales” é um comic, “Living Will” é um mini-comic de 16 páginas e “Safe Place” é um edição de 24 páginas – talvez, a Marvel e outras editoras não tenham é enviado os 6 exemplares solicitados pela organização e, provavelmente, os autores também não os tinham para enviar.

O facto de esta categoria premiar obras editadas por editoras portuguesas em língua estrangeira acaba por nos levar de novo ao início e à “Cidade Suspensa”, uma obra editada em Junho deste ano em português e inglês e que ficou ausente em todas as categorias possíveis, ou talvez tenha sido esse o problema e o júri ficou indeciso entre a nomear na categoria de melhor álbum nacional editado em língua portuguesa ou do melhor álbum nacional editado em língua inglesa.

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10 Comments

  • Bruno,

    Em relação à obrigatoriedade de enviar 6 exemplares de um determinado livro para que este seja possivelmente nomeado, aconselho a que se leia bem o regulamento porque está escrito na segunda página:

    “Os membros do júri poderão nomear outros álbuns que não constem da listagem, devendo para tal comunicar antecipadamente os dados e apresentar à organização a publicação em causa.”

    Por isso parece-me claro que TODAS as edições, e havendo categoria onde se encaixem, são passíveis de serem seleccionadas pelo júri e não só exclusivamente as enviadas em sextuplicado para o concurso.

    • André isso quer dizer que estás a defender que só existem 3 fanzines nomeados por o júri considerar que não existiam outros passiveis de serem nomeados por falta de qualidade? Quer dizer, dava para nomear mais do que 3 fanzines!

      E no caso da categoria de melhor álbum de autor português em língua estrangeira, estás a indicar que foi só uma questão de qualidade que ditou aqueles 5 nomeados?

      • Claro Bruno! Nestas condições validadas pelo regulamento, se o júri só nomeou 3 fanzines é por que acha que os outros não possuem as características mínimas necessárias para serem nomeados. E isto para todas as categorias incluindo claro a de melhor álbum de autor português em língua estrangeira.

        Mas desconheço quais os critérios da selecção, que poderão passar não só por questões de qualidade, mas de relevância, popularidade ou outras.

        Acho é que deve-se por de lado essa ideia transmitida e difundida todos os anos de que só os que enviam os 6 livros é que são nomeados, porque se assim fosse, o júri estaria a ir contra o próprio regulamento que aceitou implementar.

      • O ponto que mencionas é o mais caricato do regulamento dos prémios, se o júri pode nomear obras sem ser as que se candidatam porque é que solicita o envio de 6 exemplares.

        Porque é que não opta simplesmente por ser o júri a nomear obras sem abrir concurso, é que até de um ponto de vista ético, acabo por ser injusto para quem envia os 6 exemplares a nomeação de quem não envia obras.

        Dito isto, não me lembro de muitas obras nomeadas ou premiadas que não tenham sido enviadas pela editora. Mas posso estar enganado. Agora é usual quando existem obras ausentes dos nomeados (que a generalidade das pessoas considera terem qualidade para ser nomeada) ficamos a saber que não foram submetidas a concurso.

        De qualquer modo volto a frisar, qual é lógica de solicitar exemplares e nomear obras independentemente de enviarem ou não os exemplares?

        Já agora? Eu estou falar com o André Azevedo do blog “A Garagem” não é? Se não for desculpa lá, a confusão mas caso contrário, olha que existem fanzines sobre os quais já falaste e que tinham qualidade para ocupar a duas vagas que faltam nessa categoria…

        Não consegui perceber muito bem essa defesa/concordância com a nomeação só daqueles 3 títulos….

  • Bruno, tu leste bem o que eu disse? É evidente que fui crítico noutros anos e continuo a ser crítico quanto a certos pontos do modelo, nomeadamente haver categorias com mais nomeados do que membros do júri (ainda assim, este modelo personalizado é infinitamente preferível ao dos “votos anónimos por correspondência”). E continuarei a ser crítico sempre que tal se justifique ou não seria eu próprio. E compreendo o “desabafo” do Diogo Carvalho por não ser nomeado, tal como eu tive outros quando não fui premiado durante a vigência do modelo anterior, em particular em relação a “A Fórmula da Felicidade”, O que vim ripostar prendeu-se com a conversa do “merecimento pelo esforço” ou “isto está tudo feito porque houve 2 livros que não foram nomeados”. Essa conversa é ridícula, lança suspeitas absurdas e faz-me pensar que nunca há o devido distanciamento entre os autores das obras e a sua qualidade real.

    O livro do Penim teve críticas muito positivas? Acredito que sim e quem as fez certamente apreciou o livro. Mas agora pergunto: os que foram nomeados não tiveram? Vou precisar de andar a citar frases de críticas elogiosas ao “Hawk”, ao “Impaciente Inglês”, ao “Desenhador Defunto”, ao “Dog Mendonça 3”? (curiosamente, o Filipe Melo está nomeado para o Argumento, mas o livro desta feita não foi nomeado para Melhor Álbum, isso sim uma surpresa para mim)

    E o André Azevedo tem razão: os membros do júri têm liberdade de sugerir a concurso qualquer livro, mesmo sem o envio dos 6 exemplares da praxe. Se não o fazem com certos livros ou fanzines, é porque se calhar não os conhecem, simplesmente.

    Em resumo: falem menos do que não sabem ou sabem pouco, em particular os fãs, amigalhaços e nacional-porreiraços do costume. Há livros que não foram nomeados que se calhar são bons, há livros nomeados que se calhar são melhores; ou não; simple as that.

    • Mário eu li o que tu leste e os motivos da revolta do Penim Loureiro e do Diogo Carvalho é idêntico ao teu motivo de revolta em anos anteriores: realizaram uma obra que consideram que têm qualidade e que não foi nomeada.

      As críticas deles são tão válidas e tão dignas de reprovação como aquelas que tu fizeste em anos anteriores quando tu ou as obras que editaste não foram nomeadas. Não estou a ver qualquer tipo de mudança radical nos regulamentos do concurso. Sim as pessoas questionarem as nomeações ou prémios atribuídos coloca em questão os nomeados e vencedores, mas tu fizeste isso no passado. O Diogo Carvalho e o Penim Loureiro têm menos razões para reclamarem do que tu tinhas?

      O facto do júri poder indicar obras para mim não faz sentido e em certos casos vai fazer é que exista uma situação injusta para quem envia obras. E apesar daquilo que consta no regulamento 99% (no mínimo só são nomeadas por terem sido enviadas a concurso).

      O André Pereira está nomeado para Melhor Desenho Nacional, por um álbum que também está nomeado para Melhor Álbum Português, o Safe Place que ele escreveu e desenhou está nomeado para Melhor Álbum em Língua Estrangeira. É óbvio que o juri reconhece a qualidade que ele tem, contudo nenhum dos fanzines que ele realizou está nomeado nessa categoria – porque não foram enviados! Ou consideras que ele é bom para ser nomeado em outras categorias mas não na de fanzine! Estar a salientar um loophole que existe nos regulamentos e que é utilizado esporadicamente, no melhor dos casos, parece-me ser uma simples manobra de diversão daquilo que é a questão essencial: os regulamentos do concurso. Regulamentos que não me parece que tenham sofrido qualquer tipo de reformulação profunda e continua a gerar as mesmas discussões, mudando unicamente os intervenientes consoante a nomeação ou não.

      Aquilo que estou a falar ou analisar não é as obras, ou a emitir qualquer juízo de valor sobre elas, mas sim os regulamentos.

      • Sim. sou o André Azevedo d’A Garagem.

        Não estou a defender ou a concordar que o júri tenha nomeado só 3 fanzines mas sim a constatar que se o fez foi porque assim quis e não porque não receberam 6 exemplares de outros títulos.

        Quando se começa uma discussão sobre um assunto que deriva de um regulamento, convêm, no mínimo, LER esse regulamento, porque o que mais se vê são opiniões completamente desinformadas e foi por isso que quis esclarecer este ponto.

        Mas concordo contigo Bruno: ou mantêm a obrigatoriedade dos 6 exemplares ou deixam a escolha ao critério do júri, agora as duas possibilidades ao mesmo tempo é que não tem lógica nenhuma.

        E tenho de concordar com o Mário Freitas quando diz que se o júri não nomeia certos livros ou fanzines, é porque se calhar (infelizmente) não os conhecem.

      • Eu indiquei a categoria de fanzines por ser aquela onde considero que é flagrante que o júri se cingiu às obras enviadas. No me entender existem mais do que 3 fanzines que podiam ser nomeados, e não vejo qualquer motivo para só estarem nomeados 3, tirando o facto de não terem sido enviados exemplares.

        Sobre o regulamento que dá para tudo, já comento em mais detalhe, deixa-me só acabar umas coisas.

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