As polémicas dos PNBD do AmadoraBD: versão 2014, parte II

Bem, vamos lá a uma segunda ronda, começando por uns esclarecimentos sobre o artigo anterior.

As obras para serem submetidas a concurso é com base na data de depósito legal e não de distribuição/comercialização, que eu tenha conhecimento todas as obras nomeadas cumprem esse requisito, com a excepção de “The Untold Tales of Dog Mendonça and Pizzaboy”. A polémica geralmente advém do facto de se confundir a data de edição (depósito legal) com a data de distribuição/comercialização.

Deixem-me salientar que no aCalopsia quando é mencionado nas fichas técnicas “Edição” estava a referir-me à data de distribuição/comercialização das obras, que é a data relevante para os leitores, para saberem quando podem começar a procurar as obras nos pontos de venda. Para evitar confusões futuras nas fichas técnicas vai a passar a constar “distribuição” ao invés de “edição”, até porque para mencionar a data de edição “técnica” seria necessário as editoras fornecerem a data de depósito legal, algo que não acontece.

Existe um aspecto que não foi mencionado, e existiu quem considerasse estranho esse tópico não ser abordado: Joana Afonso é membro do júri e “Living Will” está nomeado na categoria de Melhor Álbum Português em Língua Estrangeira.

Isso é contingência do modo como é constituído o júri dos prémios. Nos últimos anos tem sido norma que o único autor que faz parte do júri é um dos vencedores do ano anterior. Algo que no passado não causava qualquer constrangimento, porque a produção dos autores nacionais era parca. Actualmente já não acontece isso.

Os vencedores do ano passado como o Osvaldo Medina, Nuno Duarte e Joana Afonso estão todos nomeados este ano.

Se não fosse a Joana nesta situação delicada seria outro. A Joana Afonso (como é hábito nestas situações) não vota na categoria onde está nomeada.

Esta era uma situação em que a organização escusava de colocar os autores, até porque só existe um autor que faz parte do júri dos PNBD.

Falta a célebre questão dos seis exemplares para as obras serem passíveis de serem nomeadas, o que não é completamente verdade, uma vez que o regulamento prevê uma excepção que permite a nomeação de obras, mesmo que os editores e autores não enviem os exemplares que a organização solicita.

Os membros do júri poderão nomear outros álbuns que não constem da listagem, devendo para tal comunicar antecipadamente os dados e apresentar à organização a publicação em causa.

Este ponto pode suscitar reacções como a do Rogério Ribeiro:

Tendo em conta que a data limite de envio de exemplares era 10 de Outubro, e que a decisão do júri foi divulgada a 15 de Outubro, sinceramente alguém acredita que um membro do júri poderia “nomear outros álbuns que não constem da listagem, devendo para tal comunicar antecipadamente os dados e apresentar à organização a publicação em causa”?! É que eu não acredito!

Na maioria dos casos, não parece existir nomeação para além das obras apresentadas em concurso, como parece ser evidente na categoria de fanzines onde só existem 3 nomeados, apesar de terem existido um número superior de edições, incluindo por autores nomeados para o PNBD em outras categorias. Agora, é possível que o júri tenha tempo para nomear obras que não são apresentadas a concurso, apesar dos prazos apertados.

Vamos pegar por exemplo no caso de Desenhador Defunto e Zona de Desconforto, duas obras pela Chilli Com Carne, que não tem por hábito enviar obras a concurso, segundo consta.

O Desenhador Defunto foi considerado por Sara Figueiredo Costa (membro do júri e co-comissária da exposição central do AmadoraBD), nas páginas do Expresso, como um dos 10 (melhores) livros de 2013. No mesmo jornal escreveu o seguinte sobre o Zona de Desconforto:

Dez autores com registos muito distintos criam uma harmonia que já vai sendo regra nos livros colectivos da editora e que deve mais à mundividência partilhada do que qualquer esforço de homogeneização. (…) tem algo de antologia de BD contemporânea, mas a sua verdadeira vocação é a de dar a ver / ler o mundo estilhaçado que nos coube.

Seja neste caso, como em outros um membro do júri que também escreva sobre BD terá sempre facilidade em apresentar a concurso uma obra que não seja submetida por uma editora, basta enviar a crítica que já escreveu (para fundamentar a sua nomeação) e apresentar o exemplar que obviamente tem. É uma situação prevista no regulamento que dá latitude suficiente ao júri para ignorar ou não nomear obras (com base no desconhecimento) por não terem sido enviados exemplares, mas que permite simultaneamente nomear obras que não sejam apresentadas a concurso pelas editoras. É uma opção que não considera que seja equitativa para os nomeados.

Quer o método de nomeação pura por parte do júri, quer o método de apresentação de exemplares por parte das editoras têm lados menos positivos, já esta solução híbrida parece ser mais injusta e menos clara que a opção por uma solução única: nomeação ou entrega de exemplares. Em particular, porque a partir do momento em que é possível ao júri nomear obras que não são enviadas a concurso, para que serve estar a solicitar exemplares?

Deixem-me só salientar que desconheço por completo se foi o que sucedeu (ou não) com as obras em causa, mas é uma situação que está prevista nos regulamentos, seja com esta editora, estes autores, este membro do júri ou qualquer outro.

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9 Comments

    • Não utilizo sublinhados, assim como cores nos texto porque são dois elementos que individualmente ou costumam ser indicadores de hiperligações (links) num texto.

      Não é um trabalho assim tão hercúleo se quiseres podes ir ao textos arquivados em lançamentos e ficas com uma boa ideia do que foi editado em Portugal, podem não estar todos os lançamentos mas encontras lá a grande maioria deles.

    • Existem lacunas porque nem todas as editoras enviam informação e não estou para andar à caça de informação sobre tudo o que é editado, mas ficam aqui algumas achegas:

      Álbum Nacional:
      – Obscurum Nocturnos
      – Cidade Suspensa
      – Terminal Tower (que merecia uma nomeação no melhor desenho)

      Tiras Humoristicas:
      – Baby Blues e Pérolas a Porcos, salvo erro tiveram ambos edições no período indicado

      Clássicos da BD
      – Calvin e Hobbes – foi (está) a ser reeditado na integra.
      (Principe Valente e Rip Kirby, creio que tiveram edições novas.)

      Fanzines
      – Efeméride, Preto no Branco, fanzines do Clube do Inferno e mais algumas edições que nem sei bem se os autores gostavam de ver numa categoria de fanzines como o TLS Webmag.

      Álbum de autores portugueses em língua estrangeira.
      A menos que contem só one-shots e TPB/OGN tens Venom, Avengers AI, Captain Marvel, Sleepy Hollow, Suicide Risk, X, isto sem contar com o álbum do Tércio para França, ou o QCDA 1000 que se calhar encaixava melhor era nos fanzines.

      Enfim, isto são coisas que me estou a lembrar de memória, é capaz de existirem mais coisas…

  • O que queria dizer é que não seria assim tão difícil, criar uma estrutura de registo online não é difícil, especialmente num país com tantos interessados.
    Mais tempo para o júri avaliar todas (novamente a negrito e sublinhado) as publicações e podia ser que assim houvesse uma verdadeira representatividade.

    • Isso que descreves não existe em qualquer prémio que eu me lembre, existem sites que fazem esse registo mas é para manterem uma base de dados das edições como o comicbookdb, ou bedetheque.

      Tendo em conta que na Amadora existe algo chamado CNBDI, que até tem um biblioteca (salvo erro) até seria muito fácil terem esses registo. Do mesmo modo que quem quiser fazer um listagem do que é editado se consultar sites e blogues como o aCalopsia, bd, leituras do pedro e Central Comics consegue ficar a saber 90% (no mínimo) do que é editado em Portugal.

      A falta de “representatividade” é fruto do regulamento do enviem 6 exemplares para se candidatarem, com a ressalva de que o júri até pode nomear outras obras se quiser.

      Já agora, do mesmo modo que existem pessoas/editoras que optam por não enviar exemplares nada te garante que também não iriam abdicar de se registar.

  • Bem,

    Ano após ano aparecem estas polémicas porque, na minha perspectiva, qualquer concurso será sempre vítima das burocracias auto impostas.

    Não será já tempo de simplificar esses processos e em vez de se obrigar as editoras a enviar os exemplares, o CNBD ter uma equipa atenta ao que ao longo do ano vai sendo publicado?

    É que não é assim tão difícil. Basta estar atento a três-quatro blogues nacionais e ser um pouco como o Geraldes Lino, isto é, ser um verdadeiro interessado pela Banda Desenhada.

    Quanto à categoria do prémio para o álbum em Língua Estrangeira, acho que já era tempo de desistirem disso, mesmo que muitos dos autores nacionais façam trabalhos lá fora.

    E porquê?

    Porque se formos a ver bem, em grande parte dos casos o público em geral não teve acesso a essas obras e dificilmente lhes terá acesso e, a não ser por iniciativa dos próprios autores, as editoras estrangeiras nunca irão mandar nem uma cópia para avaliação o que deixa muitas boas obras de fora.

    Por exemplo, uma obra que considero uma pena não ter sido considerada para esta categoria foi o Polarity do Jorge Coelho, mas, lá está, se calhar sou só eu que acho isso, visto que os membros do júri podem nomear obras e nenhum deles escolheu este livro para a categoria.

    É uma pena, pois a não ser que uma editora nacional o traduza e o edite por cá, será uma obra à qual o grande público nunca terá acesso.

    Precisaremos mesmo destes concursos (PNBD, TCC, PPBD) para homenagear a Nona Arte em Portugal?

    É verdade que podem ajudar um pouco na divulgação, mas se formos a ver bem resumem-se a uns irritantes autocolantes que depois se colam nas capas dos álbuns vencedores e criam sempre mais guerras do que harmonia e se há algo que não precisámos neste panorama é de “guerrinhas”.

    Uma vez que a edição deste ano parece ser de retrospectiva, que percebam que a partir do próximo ano os PNBD já não são necessários.

    Poupam o dinheiro dos contribuintes que gastam naquelas horrorosas cerimónias de entrega de prémios e concentram-se mais nas exposições como faz a organização do Festival de Beja e em divulgar de forma mais eficiente o que se faz de bom em Portugal.

  • Diogo, como se diz na gíria, estás a deitar fora o menino com a água do banho. Quaisquer prémios, em qualquer parte do mundo, são uma coisa salutar e potencialmente positiva para as obras, autores e editoras, nomeadamente os premiados. Não há que ter medo de avaliar, de comparar, de premiar uns em detrimento dos outros, porque, em última instância, é uma evidência que há obras superiores a outras, por alguma componente subjectiva que tal comparação inevitavelmente tenha.

    A questão está nos modelos (e rigor) dos prémios, a questão está na mentalidades das pessoas. Ouvem-me reclamar? Claro que ouvem! Eu odeio perder, nem que seja a feijões, sobretudo quando não tenho o devido distanciamento das obras que escrevo ou edito. Mas se reclamo, se critico, também ponho o dinheiro onde tenho a boca (isto em português soa a uma javardice medonha): co-criei os PPBD, com um modelo que não é estanque e que se adapta e ajusta às críticas e à realidade editorial. E mais: nos PPBD já ganhei e já perdi e posso afirmar que as “derrotas” até me incomodaram bem menos, porque foi a prova inequívoca da seriedade dos prémios, apesar das atoardas lançadas pelo pantomineiros do costume, que medem as atitudes potenciais dos outros por aquilo que costumam ser as suas próprias.

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