As Formigas

Há uma velha anedota que nos conta que uma formiga, ao atravessar a linha do caminho de ferro (certamente perto da estação da Amadora) entalou uma pata. Não estava a conseguir retirar a pata entalada, quando percebeu que se aproximava o comboio. Conformada com o destino dos acontecimentos, suspirou: “Que se lixe! Se descarrilar, descarrilou!”

Vem isto a propósito de uma mensagem do José Eduardo Ferreira, divulgado no Kuentro, em que este informa que, “por indicações superiores”, deixa de colaborar com o AmadoraBD. Pede às pessoas para não chorarem, e explica que o AmadoraBD foi um projeto que sempre abraçou com gosto, defendeu, procurou melhorar, criticou, sentiu o exterior, e ouviu os agentes participantes. “Que se lixe! Se descarrilar, descarrilou!”

Por muita consideração que tenha pela pessoa do José Eduardo Ferreira, no que respeita ao aspecto profissional, o trabalho por ele desenvolvido está ligado a algumas das áreas em que o AmadoraBD foi menos forte, nomeadamente a divulgação, a promoção e a informação. Talvez o afastamento não seja mau para o festival, e talvez o José Eduardo Ferreira possa canalizar a sua paixão bedéfila para um maior papel do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, um outro projeto que pode ser abraçado com gosto, defendido, melhorado, e criticado.

Seguindo o carreiro como boa formiga, Machado-Dias revela que não deverá ter stand no espaço dos editores e livreiros do AmadoraBD deste ano. Também aqui, não acho que seja necessariamente mau, mas a questão lembra-me, sobretudo, que os donos de lojas de BD em Portugal são uns seres curiosos, sobre os quais nunca se escreveu o suficiente.

Têm, desde logo, uma grande iniciativa e capacidade de concretização. São pessoas que fazem. Não são o género de pessoa que se limita a dizer como fariam se fossem eles a fazer.

Em segundo lugar, em resultado da primeira característica, são pessoas que estão habituadas a depender apenas de si próprios. Ou seja, somando as duas características, são espíritos independentes e concretizadores, e muito trabalhadores.

Em terceiro lugar, honra lhes seja feita, são conhecedores e bons profissionais. Convenhamos que o público leitor de BD não é o mais fácil de contentar. Ter uma loja de BD deve obrigar a alguma paciência e a muita dedicação para chegar a um consumidor apaixonado. Mas estes profissionais conseguem-no. Não são meros comerciantes. Não são pessoas que poderiam estar à frente de qualquer outro negócio. São inteligentes e bons no que fazem. É a soma desta característica às anteriores que traz os primeiros defeitos: acabam por ser demasiado críticos no que respeita aos outros. Na sua visão, os outros tendem a estar mal, e eles tendem a ser pouco reconhecidos.

A coisa complica-se quando têm de se relacionar uns com os outros. Por regra, são incapazes de actuar em conjunto, de acordar soluções consensuais, ou de fazer concessões se isso beneficiar os outros. O exemplo clássico é o da necessidade de articulação no que respeita à colaboração com o AmadoraBD para a vinda de autores estrangeiros. Teoricamente, as lojas de BD estavam disponíveis para investir na vinda de autores estrangeiros, desde que o retorno de tal investimento não fosse desviado… pela acção das outras lojas. Tudo o que era preciso era que as diferentes lojas se entendessem para que não perturbassem as apostas umas das outras. Parece fácil, certo? Mas tal entendimento nunca foi possível.

De ano para ano, os donos de lojas de BD vão desaparecendo do espaço comercial do AmadoraBD. Não existirá uma única razão para isto, e possivelmente algumas das razões serão tão específicas que não cabem no texto desta análise, mas o fenómeno deve merecer alguma reflexão. Para todos os efeitos, o maior e mais prestigiado festival internacional de banda desenhada realizado em Portugal, que pretende ser representativo de toda a banda desenhada, não consegue manter este tipo de agentes. Dir-se-á que o desgaste do tempo trouxe uma espécie de selecção natural, com a sobrevivência daqueles que apostam de forma mais agressiva e que melhor se adaptam ao modelo do festival. Mas também não é totalmente verdade.

A organização do AmadoraBD definiu como mínimo haver UMA loja de BD que faça por ter disponíveis os livros dos autores convidados (com maior ou menor sucesso). A partir daí, tudo o que existir é ganho, ainda que se corra o risco de passar a ferro algo maior do que patas de formiga.

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3 Comments

  • Pedro Mota,

    Dizes muitas coisas acertadas, com a clareza que te é peculiar, MAS…

    A conversa sobre o “entendimento” entre lojas é uma falsa questão. Mas por que carga de água tem de existir tal coisa para que um festival como o da Amadora funcione? Se cada loja apostasse em determinado(s) autor(es), sozinha ou em parceria com o Festival, tal não ditaria, em última instância, o bem maior de que falas? Por que raio são precisam falsos consensos ou falsos entendimentos, nomeadamente com lojas que, como dizes e bem, deixaram de apostar no festival e foram incapazes de se adaptar à evolução deste, mais, à evolução do próprio mercado?

    Quem participa na área comercial a cada 3 anos, sempre na vã tentativa de despachar monos, ou quem foi reduzindo progressivamente, até ao desaparecimento, a sua área de comercialização, fará assim tanto parte da solução? Não afirmo, atenção, que faça parte do problema; esse reside em tudo o que tem sido discutido sobre falta de flexibilidade organizativa e capacidade de resposta atempada dos responsáveis do festival; mas não fazem, repito, certamente, parte da solução. Antes transformaram-se em agentes anódinos, espécie de memória gloriosa do final do século 20, que só a falta de informação, a fidelidade canina e e inércia de certos consumidores permitem perpetuar a existência.

    Abraço.

  • A formiga, quando se quer perder, cria asas. Não percebo como é que a crónica sobre as formigas foi tão mal compreendida. Toda a crónica procura explicitar que, em determinadas questões, não há protagonistas individuais. Os méritos do AmadoraBD (ou da sua área comercial) não são do José Eduardo ou do Machado-Dias, tal como, coerentemente e na mesma linha de pensamento, as culpas e responsabilidades não são de nenhum dos dois. Não estou (nem sequer implicitamente) a centrar ações nos indivíduos. Estou justamente a (tentar) descentrá-las.

    Às pessoas que ficaram muito revoltadas com o texto mas que não o perceberam, sugiro que leiam com mais atenção antes de partirem para a internet a disparatar. O texto foi bem compreendido por várias outras pessoas, pelo que posso presumir que (aqui sim, estou a identificar culpados) a culpa é das primeiras.

    Agradeço o contributo do Mário Freitas, que não só conhece bem esta realidade, como costuma aparecer no AmadoraBD (e não só) com uma verdadeira estratégia comercial. Dito isto, reafirmo o meu ponto da discórdia com o Mário. Acho que um entendimento entre os agentes representados no espaço comercial levaria a um outro protagonismo e a outra dignidade desse espaço. Pessoalmente, prefiro que os autores autografem nos stands das suas editoras, por exemplo

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