Apocryphus Volume 2, editada por Miguel Jorge

Adotando o crime como tema estruturante, o segundo volume da Apocryphus mantém o nível de qualidade gráfica e técnica que mostrou desde o primeiro momento, assumindo-se como uma edição independente de banda desenhada portuguesa de excelência.

Reforço do projeto Apocryphus

O primeiro volume da Apocryphus surpreendeu pela qualidade gráfica e editorial. Este segundo não lhe fica atrás, mostrando também que o projeto está a manter continuidade como veículo de edição de BD de autor em Portugal. Algo que, apesar do dinamismo da comunidade portuguesa de autores e ilustradores de banda desenhada, nunca é demais. Miguel Jorge, editor, mostra que estando consciente das peculiaridades do mercado nacional e da natureza efémera a longo prazo destes projetos, não deixa de manter a aposta numa edição temática focada para o público específico dos fãs portugueses de Banda Desenhada e Fantástico. Apesar da revista estar a chegar a algumas livrarias, continua a estratégia de utilizar convenções e eventos para venda direta aos fãs, algo que creio fazer muito sentido. Num meio reduzido como nosso, os eventos são o ponto de encontro do público alvo da Apocryphus.

A leitura deste segundo volume já beneficiou de algumas informações do editor em trocas de impressões durante o Fórum Fantástico 2017, que me levaram a perceber melhor esta iniciativa. Se pensava que a primeira, pelo currículo dos participantes, era uma espécie de afirmação do talento de veteranos que se dedicaram a outras carreiras no domínio das indústrias criativas, era de facto uma impressão errada. Há veteranos, claro, mas há também muitos nomes novos, e diga-se que iniciar aqui a experiência na BD deve ser uma excecional experiência de aprendizagem. A Apocryphus também nos traz o registo e trabalho de outras e dinâmicas comunidades de prática dedicadas à BD em Portugal. Centrados como estamos em Lisboa, com os seus eventos, editoras e instituições, é fácil desconhecer quase por completo que no Algarve há um grupo muito ativo de criadores dedicados de BD. A revista desempenha aqui um importante papel de ponte, trazendo os trabalhos a um público nacional, e despertando a atenção dos núcleos clássicos da BD para as comunidades que se estimulam em zonas consideradas periféricas.

Diversidade Temática na Continuidade da Apocryphus

Outra aposta que a Apocryphus mantém é a diversidade temática. Quando surgiu, pensei que se mantivesse estritamente dentro da fantasia épica como tema, tendo em conta o forte pendor que há por cá para esse género do fantástico. Mas não o fez. Cada nova edição terá um novo tema. Crime foi o escolhido para esta segunda edição, e a próxima teve a sua temática revelada na apresentação no Fórum Fantástico, ainda indefinida mas focada no papel da mulher. Fiquei com esperança que alguma vez o tema chegasse à Ficção Científica. Apesar de boa parte das histórias desenvolvidas nesta edição tocarem no género, seria interessante ver o que é que os autores e ilustradores que trabalham na Apocryphus seriam capazes de fazer focalizados na Ficção Científica.

Posto isto, o que podemos esperar desta Apocryphus? Tabula Rasa abre esta edição, com argumento de Keith Cunningham e desenho de Miguel Jorge. Uma história de terror psicológico com elementos de Ficção Científica, onde um criminoso cuja pena foi o apagar de todas as suas memórias é forçado a recordar os seus crimes. Patrícia Furtado e Pedro Potier, com um traço encantador, trazem-nos Pesadelo de uma Noite de Verão, uma história policial clássica no estilo whodoneit de recorte vitoriano, a misturar muito bem Shakespeare e Agatha Christie nas suas influências. Num registo mais experimental, a funcionar de forma muito interessante a nível gráfico, Nuno Amaral Jorge e Daniel Lopes assinam Impressões. A romanização ibérica é revista por Inocência Dias com traço de Diana Andrade em Dois Gládios e um Copo de Vinho, história de um assassinato no Portugal romano. Miguel Montenegro revê o crime não sob a perspetiva clássica de assalto ou assassínio, mas como revolta ou recusa a adaptação à ordem instituída em O Olho, talvez a história desta edição mais próxima da Ficção Científica pura. As palavras de Sofia Freire, acompanhadas do traço de Filipe Coelho e trabalho de cor de Phermad, encerram a edição com A Futilidade do Mal, parábola sobre o poder corrompido e a degradação social, económica e ecológica. Jacky Filipe é o ilustrador em destaque nesta edição, com uma entrevista recheada de promissores trabalhos e uma capa espantosa.

A edição cuidada da Apocryphus denota o caráter metódico com que pretende dar espaço aos criadores de Banda Desenhada portugueses, sendo alternativa aos círculos tradicionais de edição. O esforço colocado no trabalho dos autores participantes é notório, dando-lhes voz e compensando, na medida do possível, o seu trabalho. Focar a venda da revista apenas em eventos dedicados, ou compra por encomenda, sublinha o conhecimento do real mercado editorial na Banda Desenhada e Fantástico, embora não possa surpreender outros leitores que a encontrem enquanto navegam os escaparates das livrarias. A vontade de manter uma edição de qualidade é notável, e como leitor, espero que este projeto se aguente, usando a diversidade temática como forma de se manter atual e pertinente.

Apocryphus Volume 2: Crime

Autores: Keith W. Cunningham, Miguel Jorge, Patrícia Furtado, Pedro Potier, Nuno Amaral Jorge, Daniel Da Silva Lopes, Inocência Dias, Diana Andrade, Miguel Montenegro, Sofia Freire, Filipe Coelho, Fernando Madeira, Pedro Daniel, Jacky Filipe
Editora: Edição de Autor
Páginas: 80, capa mole
PVP: 13

Está à venda no site do projecto.

8 Argumento

8 Planificação

7 Temática

9 Desenho

9 Arte-Final

9 Cor

8 Legendagem

10 Produção

O primeiro volume da Apocryphus surpreendeu pela qualidade gráfica e editorial. Este segundo não lhe fica atrás, mostrando também que o projeto está a manter continuidade como veículo de edição de BD de autor em Portugal.

8.5
Tags from the story
,
Written By
More from Artur Coelho

SINtra, de Tiago Cruz e Inês Garcia

Sob a cobertura da noite, seres amaldiçoados percorrem o arvoredo em busca...
Read More

3 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *