Apocryphus Volume 1, editada por Miguel Jorge e João Raz

Uma nova publicação independente dedicada à banda desenhada portuguesa é sempre de saudar, e pelo que revela nesta primeira edição, a revista Apocryphus promete trazer banda desenhada de qualidade ao seu público alvo. Especializada na fantasia épica, a Apocryphus evita as livrarias e foca-se exclusivamente no circuito dos festivais e eventos ligados à Ficção Científica e Fantástico.

Apocryphus: aposta focada na qualidade e público específico

Há um elemento, algures na entrevista a Carlos Amaral, autor da capa da Apcryphus, que pode explicar o que me surpreendeu à primeira vista nesta publicação: a sua grande qualidade gráfica, algo raro neste género de edições. Não me interpretem mal. A minha perceção, enquanto leitor, é que estes projetos de banda desenhada independente mostram o trabalho de autores incipientes ou com estilo em desenvolvimento, com exceção feita aos dos que ao longo de anos se dedicam à BD. É uma das agruras do mercado português e dos seus nichos culturais, o praticar este género de artes obriga sempre a uma condição de amador. Notem que não diminui qualidade, mas o nível estético alcançado por alguém que trabalha diariamente nestes campos é substancialmente maior do que o de alguém que, com muito amor à arte, apenas os consegue praticar nos seus tempos livres. Algo que, creio, só dignifica os verdadeiros resistentes que continuam a fazer BD em Portugal.

Na entrevista de Nuno Jorge, é referido o Trojan Horse Was An Unicorn, evento internacional dedicado aos especialistas em new media e artes digitais que se realiza em Tróia, como ponto de encontro do ilustrado e do editor. Fique com a sensação que por detrás da Apcryphus está o desafio a ilustradores veteranos, que se dedicam à concept art, publicidade e ilustração, sensação essa reforçada pelas biografias dos autores participantes.

Outro pormenor que distingue a Apocryphus é conhecer muito bem o seu público alvo. Nas suas apresentações a que assisti, recordo o Fórum Fantástico, ficou no ar a sensação de enorme lucidez, sem ilusões quanto ao seu sucesso. Não há sonhos quanto à sua disponibilidade nas livrarias. A revista está diretamente focada no público alvo, disseminada apenas em festivais e eventos dedicados. É uma aposta direcionada, que faz sentido, e que certamente parte de muita reflexão sobre as reais dimensões do mercado do fantástico por cá.

O que nos reservam as páginas da Apocryphus

Apocryphus
A Destruição de Azalur, por Inocência Dias, Pedro Potier e Mariana Flores.

Posto isto, o que é que esta edição tem para nos oferecer? Com argumento de Inocência Dias, ilustração de Pedro Potier e cores por Mariana Flores, A Destruição de Azalur leva-nos ao misticismo arábico, onde a vitória contra um demónio traz consigo uma maldição que retira a magia dos djinn das areias desérticas. Nuno Amaral Jorge e Miguel Jorge dão-nos em Absolvição um divertido exercício de estilo, onde deuses e figuras mitológicas mortas chegam aos portões dos céus, controlados por um despótico S. Pedro e um nonchalant Lúcifer, com a Esfinge a responder aos novos enigmas.

Apocryphus
Sinais, de Phermad
Apocryphus
Duelo, Miguel Jorge e João Raz.

Miguel Jorge e João Raz trazem-nos a clássica fantasia de espada e fantasia medievalista em Duelo, história repleta de acção violenta, com um final a remeter para Ingmar Bergman. Em Sinais, Phermad reinventa com ironia o imaginário do fantástico, com um personagem que se vê como um caçador primevo nas florestas geladas, mas talvez não passe de um mero funcionário de loja de fast food.

Coisas Viris, Miguel Montenegro.
Apocryphus
Mutatis Mutandis, Miguel Montenegro e Rui Gamito.

Miguel Montenegro aborda de forma brilhante a violência entre géneros numa história onde um bárbaro exerce o seu machismo até às ultimas consequências, sublinhando a vontade de posse total da mulher, em Coisas Viris. Com argumento de Miguel Montenegro e arte de Rui Gamito, Mutatis Mutandis leva-nos simultaneamente a um hospital psiquiátrico e a uma masmorra da inquisição, mostrando como reagimos mal à diferença, e imaginando um futuro onde a estabilidade mental tem como preço a tirania da bonomia.

A qualidade desta primeira Apocryphus

É normal, neste género de edições, distinguir os trabalhos mais marcantes e esteticamente bem conseguidos. Nesta, não é possível. As histórias da antologia estão bem conseguidas e os estilos visuais refletem a maturidade dos seus autores.

A primeira edição de Apocryphus foi dedicada à Fantasia. Poderemos esperar uma próxima, dedicada à Ficção Científica? Ou melhor, poderemos sequer esperar outra edição? É normal, no panorama restrito da cultura de géneros portuguesa, que o surgimento destes projetos não se traduza em continuidade. por várias razões, estes projetos sao essencialmente trabalhos por gosto dos que nele participam e as condicionantes profissionais e de vida complicam. Há exceçoes, caso da H-alt, que continua com um dinamismo invejável. Esperemos que a Apocryphus se junte a esta como revista especializada, enriquecendo o panorama editorial da banda desenhada em Portugal.

Apocryphus Volume 1: Fantasia

Autores: Nuno Jorge, Inocência Dias, Mariana Flores, Rui Gamito, Miguel Jorge, Miguel Montenegro, Phermad, Pedro Potier, João Raz, Pedro Daniel
Editora: Apocryphus
Páginas: 76, capa cartonada
PVP: 13,00 €

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