António de Macedo

António de Macedo, ou a Vã Glória do Imaginário

A estreia de Nos Interstícios da Realidade, documentário de João Monteiro sobre a vida e obra do cineasta António de Macedo, vem-nos recordar o seu papel fundamental na história do cinema português e a sua obra única, mas também o conservadorismo que caracteriza o pensamento cultural português.

O Tardio Reconhecimento de António de Macedo

António de Macedo
António de Macedo entrevistado por João Monteiro para o documentário Nos Interstícios da Realidade.

Pela segunda vez num espaço de poucos meses, assisti a uma plateia a aplaudir de pé a obra do cineasta António de Macedo. A primeira foi em setembro, no festival MOTELx, quando o realizador foi aplaudido antes e depois da estreia de O Segredo das Pedras Vivas. Neste seu filme mais recente, criado a partir de uma série televisiva dos anos 90, conseguiu finalmente explorar a história que queria contar da forma que não conseguiu no meio televisivo. Foi um fugaz regresso, longamente adiado, do realizador ao cinema.

O segundo longo aplauso decorreu após a projecção do documentário de encerramento do festival Doclisboa 2016. Com o auditório da Culturgest quase cheio, novamente uma plateia se levantou para aplaudir a significância de Macedo para o cinema português. O Doclisboa encerrou com a estreia de um documentário de parto longo e difícil. Nos Interstícios da Realidade: O Cinema de António de Macedo é um trabalho de paixão que João Monteiro, um dos organizadores do festival MOTELx, dedicou à obra deste cineasta marcante e apagado da memória institucional do cinema.

António de Macedo
Sessão de Encerramento do Doclisboa, no auditório da Culturgest.

Para lá deste documentário, o trabalho de João Monteiro como programador do MOTELx tem sido fundamental para a recuperação do trabalho de Macedo, trazendo regularmente ao festival alguma da sua cinematografia. Este factor, conjugado com o surpreendente (tornado ainda mais surpreendente, após ver a animosidade entre esta instituição e o realizador mostrada neste este documentário) ciclo na Cinemateca, outros ciclos de cinema, recordando como exemplo que o Arquitecturas Film Festival mostrou no seu âmbito o filme Os Emissarios de Khâlom, bem como os esforços de divulgação da sua obra fílmica e literária pelos fãs do género fantástico na literatura e outras artes, tem contribuído para este redescobrir de um autor injustamente esquecido. Mais não se faz, suspeito, porque grande parte da sua obra é invisível, fechada nos arquivos da Cinemateca, de onde sai para raras sessões de mostra. Não há no mercado DVDs com os filmes de Macedo, restando a existência online de algumas cópias dos seus filmes, geralmente de má qualidade, que dão uma pálida ideia do que é a sua cinematografia. Há uma diferença vastíssima entre ver Chá Forte com Limão, o seu último filme antes de ser forçado a abandonar a carreira de realizador, num ecrã de cinema ou na cópia que circula no YouTube. A primeira raramente é vista, na segunda todo o trabalho esplendoroso de fotografia e iluminação coordenado por Amílcar Lyra se perde numa imagem baça. Sublinhe-se que se há algo que este documentário desperta, é fome de filmes de Macedo.

Nestes últimos anos, António de Macedo tem sido reconhecido e premiado. Os primeiros prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema, e Adamastor, do Fórum Fantástico, foram-lhe merecidamente atribuídos. De autor esquecido, parece estar a ser recuperado quer como autor de culto quer como criador de filmes do cânone do cinema nacional. Elogiado, mas com obra raramente vista, o que tem o seu quê de paradoxal, e um certo sentimento de ressentimento institucional para com a sua redescoberta. O que é que Macedo terá feito de tão incómodo para merecer este esquecimento institucionalizado?

Revisão Sustentada da Obra de Macedo

É esse o foco do documentário de João Monteiro. Através de uma análise à vida e obra de Macedo, construída com depoimentos do próprio, dos seus filhos, de realizadores seus contemporâneos, historiadores, críticos de cinema e cinéfilos, parte para uma visão fortemente crítica das sensibilidades culturais da elite bem pensante portuguesa, mostrando tudo o que Macedo fez de errado para merecer a sua ira. Essencialmente, o cineasta atreveu-se a seguir o seu caminho pessoal, a fazer cinema pensando nos espectadorer, equilibrando popularidade com o domínio técnico e estilístico do cinema de autor, abordando temas e estilos narrativos pouco queridos aos píncaros das torres de marfim das elites intelectuais nacionais. Foi, por isso, ostracizado, vilipendiado e, num acto que julgaríamos impensável numa sociedade democrática contemporânea, activamente censurado. Entre Bénard da Costa a proibir a presença dos seus filmes na cinemateca (algo que me desiludiu, Bénard da Costa é uma das grandes referências cinéfilas e o homem que, numa crónica no Independente, me levou a perceber o porquê do brilhantismo de Dune de David Lynch, esse filme atípico de Ficção Científica que ou se gosta ou se odeia), ou os organismos institucionais que garantem o financiamento ao cinema português recusarem sistematicamente as suas candidaturas sob pretexto da falta de pertinência e interesse dos seus temas. É uma censura de facto e não de jure, não institucional, política ou religiosa, que certamente despertaria a atenção de todos. É algo mais insidioso, uma censura de gosto, como refere e muito bem Fernando Lopes nos seus depoimentos.

O documentário está estruturado de uma forma curiosa. Inicia com análises detalhadas dos filmes de Macedo, em ordem cronológica. Mostra-nos o elevado grau de experimentalismo das suas curtas metragens iniciais, que se iria repercutir nos filmes publicitários e institucionais que realizaria para se manter financeiramente, o contributo profundo para a estética do Cinema Novo que foi Domingo à Tarde, a ironia mal recebida do policial Sete Balas para Selma, o experimentalismo radical de Nojo aos Cães, o sucesso crítico de A Promessa, primeiro filme português em competição no festival de Cannes, o anarco-misticismo surreal de O Princípio da Sabedoria, o choque cultural de As Horas de Maria. Cheguei a temer que, dada a relativamente extensa cinematografia do autor, o documentário se estendesse para lá do expectável. Apesar de cada filme ter histórias interessantes, ou melhor, delirantes, e depoimentos de valor histórico para a compreensão da evolução do cinema português, estranhei a lentidão e minúcia desta parte do documentário. Só ao reflectir posteriormente é que percebi o porquê desta abordagem exaustiva.

António de Macedo
Fotograma de Domingo à Tarde, 1965.

Ao chegar à cinematografia de Macedo no género fantástico, Monteiro acelera o passo. É uma dualidade aparente de critérios que faz todo o sentido. Que Macedo é um autor seminal no cinema fantástico português (aliás, o único autor consistente no género em cinema por cá) já todos sabemos. Conhecemos a sua importância, revemos alguns dos seus filmes em festivais e ciclos de cinema, discutimos e reconhecemos a sua obra. É um argumento que não precisa de ser sublinhado. O que João Monteiro faz, de forma sustentada e muito inteligente, é elaborar toda uma tese que demonstra que a importância de Macedo vai muito para além do fantástico. Comprova que foi um dos cineastas de charneira do qual nasceu o cinema novo, como Domingo à Tarde como obra riscada da historiografia cinéfila que deveria estar a par de Belarmino de Fernando Lopes e Verdes Anos de Paulo Rocha. Refere que Macedo sempre teve atenção ao agradar aos espectadores, fugindo da ideia elitista de cinema de autor com inacessibilidade desejável aos públicos. Sublinha o lado experimental e rebelde de um cineasta que a cada novo filme subia a fasquia, dava algo novo ao cinema português, sendo ainda pioneiro no uso de efeitos especiais e muito aberto ao papel da evolução tecnológica. Mostra o seu lado mais intelectual e influente, quer ao nível da análise e estrutura técnica e estilística do cinema com o seu seminal estudo A Evolução Estética do Cinema, quer como elemento determinante na elaboração das linhas guia que suportaram intelectualmente o cinema novo com a criação do Centro Português de Cinema. Tudo isto apesar de ser um assumido outsider, fiel aos seus ideários pessoais, sem ceder o redil dos grupos de influência. Ou como coloca, se não me engano, o realizador José Fonseca e Costa, alguém que não frequentava as tertúlias do café Vává.

António de Macedo
Fotograma do filme A Promessa, 1972.

A tese construída por João Monteiro é bem sustentada, demonstrando a importância deste cineasta no contexto do cinema português. Importância que gerou, e talvez ainda hoje gere, invejas e mal estar junto dos seus contemporâneos, que se moveram nas estruturas intelectuais e acabaram por o neutralizar efectivamente. Suspeito que no grupo dos cineastas que queriam reformular o cinema em Portugal tenha caído muito mal a popularidade dos filmes de Macedo, a sua iconoclastia e recusa em alinhar pelos espartilhos estéticos de influência francófona, o ser intelectual sem ser intelectualizante, a sua rebeldia, como cineasta que de facto levava mais longe as fronteiras do cinema. Suspeito, igualmente, que a escolha de A Promessa para ir a Cannes, tornando-se o primeiro filme português a ser mostrado na competição oficial, preterindo o cinema mais intelectual e imitador das vagas conceptuais vindas do exterior, tenha sido um choque demasiado elevado para um país de pequenas mentalidades. Imperdoável, até, para uma certa elite. Quando João Salaviza refere que na escola de cinema o nome e obra de António de Macedo nunca são referidas, percebe-se o quão fundo vai a vontade do seu apagamento da memória institucional.

O Lado Rocambolesco da Obra de Macedo

Para além desta tese, o documentário está recheado de histórias. E que histórias deliciosas! Não há filme de Macedo que não tenha tido histórias rocambolescas ou simbólicas, pelas peripécias de rodagem, reacções que despertou ou constante vanguardismo estético e temático. Impossível não rir com Sinde Filipe a recordar ter ficado pendurado nas pás de uma escavadora nas filmagens de cenas de acção nas ribanceiras ao pé de uma ponte sobre o Tejo ainda em construção, em Sete Balas para Selma; perceber a enorme ousadia para o contexto nacional de filmar o nu de Helena Isabel, ficando para a história como a primeira cena com uma actriz nua no cinema português. Ou a ainda ousadia de uma cena em que uma muher branca beija um negro, seguida do beijo do negro a um homem branco em Nojo aos Cães, cena que dever ter provocado síncopes em catadupa aos censores. De todos os seus filmes, é as Horas de Maria que nos lega as melhores histórias, terrivelmente sintomáticas de um país que se afirma moderno, mas moderno com muito cuidadinho que as tradições são para se respeitar.

António de Macedo
Cartaz de As Horas de Maria, 1976.

O recontar da história de Maria, aqui como a paciente cega de um hospício após ser violada pelo padrasto que confia cegamente num milagre de Fátima e é abusada por um psiquiatra lúbrico e impotente, remexendo num dos pilares mais preciosos para os seguidores da mitologia judaico-cristã e numa das mais veneradas figuras da tradição religiosa portuguesa, mostrou-se demais para a época. Seguiu-se um fortíssimo ataque público ao cineasta e à obra, com a Igreja Católica a declarar a obra como blasfema, excomungando Macedo, com exortações de todos os padres de província e cidade do alto dos púlpitos (no fundo, a atiçar a curiosidade e a levar mais espectadores ao cinema, que é o que acontece nestas coisas), declarações de fogo e enxofre nos jornais da parte de colunistas ultrajados, políticos de direita em comício a mostrar a firme promessa eleitoral de cortar o financiamento público o cinema português porque sustentar com o dinheiro dos contribuintes poucas vergonhas destas era coisa que não se admitia. A estreia delirante no cinema Nimas, sob protecção policial, com gangues de motoqueiros católicos vigilantes a espancar quem apanhassem a sair do cinema, talvez para lhes com bondade limpar a alma à cacetada. Até parece que Portugal estaria nos tempos do Estado Novo, mas não, à época viviam-se os primeiros anos da democracia e das liberdades. Teria Macedo ido longe de mais? Sim, no sentido em que a sua obra mostrou que o país da recém-descoberta liberdade não era afinal assim tão livre, que as velhas forças conservadoras se mantinham vivas e viçosas. Aliás, suspeito que se o filme tivesse sido realizado hoje, as reacções não seriam muito diferentes.

O Ostracismo de Macedo num País Culturalmente Conservador

É inevitável que o documentário sublinhe o quanto, em Portugal, só se pode pertencer a uma de duas culturas. Ou se é pimba, popularucho, agradando a públicos pouco exigentes pela falta de qualidade, e com isso ter garantida a zombaria institucionalizada, ou se pertence aos píncaros rarefeitos da intelectualidade, partilhando das suas estéticas estanques, dos seus espartilhos conceptuais, de um certo pedigree social e geracional, do forte sentido grupal, e tendo com isso acesso garantido aos privilégios institucionais. Uma intelectualidade que se assume como erudita e de vanguarda quando de facto é profundamente conservadora. Ser-se culturalmente activo mas independente destes dois campos antagónicos é sinal de anátema e descrédito, como se de uma traição se tratasse à grande cultura. Isto parece ser tão verdade no cinema como noutras áreas, com a diferença que noutras, na literatura ou banda desenhada, por exemplo, é mais fácil criar e chegar às comunidades de fãs que existem e não se revêem nos espartilhos conceptuais da alta cultura portuguesa. Os custos e complexidades associados à realização de filmes, dependentes de financiamentos controlados em larga medida pelos bem apessoados representantes dessa rarefeita intelectualidade, tornam muito difícil que algo ultrapasse o crivo da tal censura de gosto, que continua por cá tão prevalente hoje como noutros tempos.

António de Macedo
António de Macedo com os adereços do filme Os Abismos de Meia Noite, 1983.

Nos Interstícios da Realidade contribui, de forma altamente crítica, para tentar derrubar esta ostracização de António Macedo. Rigoroso e bem estruturado, não poupa críticas, conseguindo levar alguns dos entrevistados a reconhecer injustiças em que, de certa forma, também colaboraram. João Monteiro consegue ser profundamente crítico sem ser panfletário ou tendencioso, mostrando-nos apenas factos da história recente do cinema português. Temo que este documentário não lhe granjeie olhares simpáticos por parte das elites culturais portuguesas, presas aos vícios de sempre. Mas desenganem-se se pensam que este é um filme pesado e sorumbático. Macedo é bem conhecido pelo seu bom humor, uma qualidade que perpassa ao longo de todo o documentário. Ouvir os depoimentos do realizador e não sorrir com a forma divertida com que nos fala é impossível. Há uma forte corrente de absurdismo que atravessa a sua vida e obra.

António de Macedo
Cartaz do documentário Nos Interstícios da Realidade: O Cinema de António de Macedo, 2016.

Realizador incómodo e iconoclasta, António de Macedo sofreu a censura respeitável da alta intelectualidade. Respeitado como autor de culto, vive nestes anos em que a idade e problemas de saúde não permitem grandes presenças públicas a necessária redescoberta da sua carreira. Pessoalmente, sempre que me cruzo com Macedo, fico paralisado, incapaz de falar, reverente perante um homem de marcada acessibilidade e simpatia. Ouço-o, porque há tanto a aprender com o que nos diz. Neste sentido, é um privilégio vê-lo, e às suas histórias que fazem parte da história cultural contemporânea, em Nos Interstícios da Realidade. Após esta estreia no Doclisboa, o documentário tem chegada prevista em 2017 às salas de cinema. Já o apetite que desperta pelo visionamento das obras de Macedo é que é mais difícil de saciar. Restam os seus livros, mas mesmo aqui é preciso ter alguma paciência para mergulhar nos alfarrabistas ou prateleiras empoeiradas das livrarias.

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