Amadora BD 2016: As Primeiras Impressões

Está a decorrer a 27ª edição do Amadora BD, e o certame volta a apresentar as mesmas lacunas, que em alguns casos até se agravaram.

Ainda o Amadora BD (ABD) não tinha aberto as portas e eu já me sentia saturado. Acabei por não ir ao festival durante o primeiro fim-de-semana, o que não fez grande diferença se tivermos em conta que havia exposições que ainda não estavam concluídas.

Antes de continuar, deixem-me sublinhar que esta crónica é sobre a falta de divulgação atempada das actividades, a estranha desorganização do ABD e a ausência de grandes nomes da BD no festival.

Tirei umas férias durante uns meses do aCalopsia. Nesses dias, o site esteve a funcionar praticamente em modo automático. Quando voltei, tinham-se acumulado notas de imprensa no correio electrónico, e deparei-me com dois factores: não tinha recebido qualquer informação sobre o ABD, enquanto os press releases da Comic Con se tinham acumulado. Quando fui à procura de informação sobre o ABD, fui surpreendido com o ir começar dentro de uma semana. O festival quase que começava e eu não dava por isso! Para além disso, a informação que existia era menor do que aquilo que é usual.

A sete dias do início do festival existia muito pouca informação disponível- Eu bem que fui à procura, sem sucesso, e não fui o único que não tinha qualquer informação sobre o que iria ser o ABD 2016.

O não ter recebido qualquer informação até tinha uma justificação “aceitável”, a recente mudança da responsabilidade de divulgação de informação na organização do festival. Há outra, que é inaceitável, para aquele que é suposto ser o evento cultural de maior relevo de uma Camâra Municipal e que tem relevância a nível nacional e internacional, a divulgação do evento e das diversas actividades que promove foi parca e quase toda feita em cima da hora. Mesmo após o início do festival, ainda existem informações que estão indisponíveis, como o local e hora do entrega dos PNBD e os vencedores do concursos promovidos pelos ABD.

Os atrasos do ABD já são lendários, mas se nos últimos anos existiu uma melhoria a nível da divulgação do evento, este ano conseguiram bater recordes, pela negativa.

Para além da falta de informação, divulgada atempadamente, o festival volta a primar pela falta de grandes nomes da BD, daqueles que atraem público, tornam o festival numa referência a nível nacional e lhe deram projecção a nível internacional.

 

As vedetas estão mortas

A organização do ABD fez questão de salientar que Morris, “autor em destaque” este ano, esteve presente na primeira edição do evento, tendo sido um dos nomes que ajudou a dar dimensão nacional e internacional ao certame da Amadora. Contudo, a organização parece ter-se esquecido desse facto – a relevância de ter grandes nomes da BD no certame -na altura de organizar a edição deste ano, como já tem acontecido nos anos anteriores.

Faltam ao festival convidados que atraiam público, nomes como Brian Michael Bendis, Chris Claremont, Miguelanxo Prado ou Brian K. Vaughan, só para mencionar alguns dos que estão presentes este ano na Comic Con, ou que estiveram nas últimas edições.

As grandes vedetas deste ano na Amadora são Hergé, Moebius, Hugo Pratt e o já mencionado Morris, autores já falecidos e que estão presentes através da exposição de pranchas originais. A aposta em ter exposições com arte de grandes mestres da banda desenhada mundial, em detrimento da presença física de grandes nomes (daqueles que ainda estão vivos!) até podia ser defendida… se não fosse o facto de as exposições não estarem montadas a tempo da abertura do festival.

Falta tempo e sobra espaço

À semelhança do que tem acontecido em outros anos, nomeadamente em 2015, a exposição central do festival voltou a não estar pronta a tempo dos visitantes do primeiro fim-de-semana a poderem ver na íntegra. E não foi a única.

Pedro Mota escreveu um texto sobre a exposição exposição dedicada aos 70 anos de Lucky Luke, da qual é comissário, onde fala sobre os desafios que é montar uma exposição de um autor cujos originais estão avaliados em milhares de euros, e como tentou ultrapassar essa limitação. Contudo, viu-se forçado a fazer uma correcção ao texto:

Em nota de atualização, o festival (ainda) não colocou os textos explicativos, o que faz com que a mostra (e esta crónica) façam pouco sentido. Procurarei tentar salvar a coisa nas visitas guiadas…

É por estas que comecei esta crónica a dizer que não fez mal não ter ido ao ABD no primeiro fim-de-semana. As exposições ainda não estavam completas, como verificaram alguns visitantes que também tiveram de lidar com outras situações que revelam a desorganização do evento. Como no caso de uma visitante, chamada Vera Ataíde Bettencourt, que deixou bem patente na página do evento o seu desagrado, com motivos bem concretos.

Fomos (Ricardo e Diogo) ontem ao festival para participar neste workshop [Desenhar Caras com Música] às 17h conforme estava no programa. Tive o cuidado de telefonar antes para confirmar vaga. Quando chegamos, com mais de uma hora de antecedência, ninguém sabia da existência do workshop. Passamos imenso tempo no piso -1 à espera. Quando subimos ao piso 0 a fila para autógrafos do Sandoval já estava encerrada.
No piso -1 havia pelo menos duas molduras ao contrario e no 0 a exposição estava incompleta – uma Sra ainda limpava os vidros das molduras. Gastamos o dinheiro dos bilhetes para ficarmos extremamente desiludidos.

O preço dos bilhetes do ABD é reduzido, três euros, mas isso não desculpa uma falta de organização num evento que já vai na 27ª edição.Como salientou, Pedro Cortesão Monteiro  também na página de Facebook do evento:

Já se percebeu que, ao contrário do que se pensava, o nome do festival não tem nada a ver com o topónimo, mas apenas com o amadorismo de quem o faz. Como é que ao fim de 27 edições ainda acontecem falhas tão gritantes como esta e outras referidas noutros posts, é que custa a perceber. A menos que, em vez de amadores, sejam mesmo profissionais da incompetência.

 

Como esta crónica já vai longa ,vou guardar outras considerações para depois. Em princípio, neste segundo fim-de-semana as exposições já estarão em condições de serem apreciadas na integra, e, apesar da pobreza geral do cartaz, existem algumas apresentações e lançamentos aos quais vale a pena assistir.

É irritante que o evento persista nestes erros de palmatória e pareça estar mais interessado em promover-se a si próprio do que aos autores e ás suas obras, que, supostamente, são o motivo desta festa anual dedicada à nona arte.

O Umbigo da Amadora

Desenvolvendo um pouco mais esta questão, refira-se que dos 19 convidados internacionais do festival, 12 vêem e são “promovidos” como sendo autores que estão presentes no âmbito da exposição central, inclusive aqueles que já têm obra publicada em Portugal, como é o caso de Altarriba, Kim, Quintanilha e José Aguiar.

À excepção destes autores, os restantes 8 convidados não têm trabalho editado em Portugal, pelo que vão estar presentes especificamente para desenharem de borla em suposta sessões de autógrafos. Alguns destes autores são nomes bastantes obscuros e não existe o menor esforço os tornar mais conhecidos do público.

Num ano em que existem em média três apresentações/lançamentos por dia no festival, os convidados no âmbito da exposição  O Tempo e o Espaço na BD não têm previsto nenhum painel para divulgar aos visitantes o seu trabalho. Se existisse esse contacto com o público, até se justificaria a sua presença, contudo sem obra editada em Portugal e sem participarem em painéis ou conversas com o público, parece-me que a sua presença serve unicamente para dizer que vêem X autores estrangeiros no âmbito da exposição central, um dos eixos do festival que é valorizado pela organização.

A presença de autores sem obra publicada é algo que hoje, já não faz muito sentido num evento de BD nacional, em particular quando não parece haver uma aposta ou destaque especial dado a esses autores, ou propostas editoriais futuras, como aliás não é dada a outros que já têm obras publicadas.

O festival de Beja tem por hábito trazer a Portugal autores que não estão publicado no mercado nacional, contudo essa presença é contextualizada com exposições individuais e contacto com o público, o que permite um promoção efectiva dos autores e do seu trabalho.

Para além disso, a calendarização da sessões de autógrafos, aparentemente a única coisa que alguns autores vêem fazer ao festival, só foi anunciada na véspera. Foi no dia 21 que o festival anunciou a que horas iriam decorrer as sessões de autógrafos dos dias 22 e 23.

O meio privilegiado pelo ABD para comunicar com o público têm sido a sua página de Facebook. No entanto, nem aí foi dado qualquer destaque aos autores que iriam estar presentes, tal como se esqueceram de destacar os lançamentos e apresentações do fim-de-semana. Essa informação foi toda despejada num listagem dos eventos, sem ter qualquer promoção especial.

Se tivermos em conta que estão marcadas cerca de seis apresentações em cada fim-de-semana (nalguns casos, menos),  daria perfeitamente para promover uma por dia, salientando os eventos que vão decorrer. Contudo, o enfoque do festival parece mesmo ficar-se pelas exposições,  e o facto de surgirem como resultados do prémios atribuídos pela organização. É por isto que observo que o festival Amadora BD está mais interessado em promover-se a si próprio do que aos autores ou às obras que criam.

O festival tem vindo a transformar-se numa numa inevitabilidade cultural institucionalizada que vive completamente desligada do mercado nacional, perdendo dinamismo e interesse em comparação com outros eventos do género, mas com filosofias distintas, como a Comic Con Portugal  e o Festival Internacional de BD de Beja.

A Comic Con traz ao Porto grandes nomes da BD, o outro, sendo mais modesto também consegue ter alguns nomes de peso, embora a exista uma aposta deliberada na promoção novos autores nacionais e internacionais.

O critério do Amadora BD parece ser, cada vez mais, a instituição Amadora BD, com a sua exposição central e os seus prémios , desligado da realidade do mercado editorial nacional… excepto na exposição do ano editorial. Uma que exposição faz pouco sentido quando existe uma área comercial dinamizada por lojas e editoras,  e quando na Bedeteca da Amadora é suposto, existirem durante todos os dias do ano, obras de BD disponíveis para leitura pelos visitantes.

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