All You Need Is Kill Vols. 1 e 2, de Hiroshi Sakurazaka, Ryosuke Takeuchi e Takeshi Obata

A Terra está a ser invadida por uma estranha espécie alienígena que arrasa tudo à sua passagem. Parecem imbatíveis, com as forças das Nações Unidas a ser derrotadas em todos os campos de batalha. O Japão é o único país que dispõe de tecnologia capaz de enfrentar esta ameaça, mas mesmo assim está em perigo. Em Okinawa, na base internacional das Forças Unidas de Defesa, onde os recrutas UDF treinam nos seus fatos de combate servo-mecânicos para enfrentar o inimigo alienígena, encontramos o jovem recruta Keiji Kiriya. Este apercebe-se que está preso num ciclo temporal, sendo forçado a repetir continuamente o mesmo dia, e morrendo continuamente de maneiras distintas.

Keiji está prisioneiro de um tempo que se repete, mas descobre que cada nova repetição pode ser diferente, o que o leva a decidir aplicar-se no seu treino e, uma vez que já tem conhecimento das acções dos inimigos, encontrar uma forma de sobreviver à batalha que tantas vezes o vitimou, a ele e aos seus camaradas.

O seu caminho entrecruza-se com o de Rita Vrataski, a pantera blindada, uma guerreira norte-americana imbatível cujo pelotão parece ser o único capaz de derrotar os alienígenas. Keiji irá descobrir o segredo da vulnerabilidade do invasor, viver um amor condenado e tornar-se a esperança da vitória humana.

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Aproveitando a onda mediática do filme No Limite do Amanhã, veículo de ficção-científica-espectáculo para actores com toque canastrão, e uma pálida versão da obra original – a Devir editou os dois volumes da adaptação para mangá do romance All You Need Is Kill. Escrito por Hiroshi Sakurazaka, foi galardoado com o prémio Seiun de melhor livro de ficção científica em 2004, tendo sido editado internacionalmente pela Haikasoru.

Se o filme é consumível pop, este manga desperta a atenção pela sua qualidade gráfica e fidelidade à obra original. O romance tem um marcado ritmo narrativo cinemático e imagético, o qual facilita a sua transposição para outros media. Ryosuke Takeuchi, o argumentista, faz um trabalho muito competente na transposição ddo romance para a estrutura narrativa da banda desenhada. Quem leu o original depressa revê o fio condutor e as peripécias da história no mangá.

O ilustrador Takeshi Obata socorre-se do estilismo japonês típico, gerando no papel imagens que se aproximam daquelas que a leitura do romance cria na mente do leitor. Obata dá-nos os obrigatórios personagens de aspecto fisicamente frágil, complicadas armaduras mecanizadas, colagens visuais a puxar ao cyberpunk e explosivas cenas de acção, sendo fiel ao estilo original das personagens criadas por Yoshitoshi Abe, para as ilustrações do romance. Obata é bem conhecido pelos leitores portugueses graças ao seu trabalho multipremiado em Death Note, mangá que também foi editado em Portugal pela Devir.

É uma sensação habitual, a jogadores digitais inveterados, salvar o jogo constantemente, para o reiniciar com a personagem no ponto anterior aquele em que morreu, ajuda qualquer um – até o mais experiente – a passar os níveis mais difíceis e terminar o jogo. Foi este conceito que inspirou Sakurazaka para criar esta história de ficção científica militarista com ciclos temporais. Funciona como versão de estilo mangá de Feitiço do Tempo, filme de Harold Ramis em que Bill Murray estava condenado a repetir o mesmo dia numa pequena cidade americana. All You Need Is Kill estrutura-se numa premissa interessante, em que o mito do eterno retorno é levado até ao limite.

A temporalidade cíclica que afecta os personagens é causada pela tecnologia dos alienígenas, é o seu segredo para vencer as batalhas: um constante retroceder no tempo, reiniciando a luta, após reverem os resultados anteriores para um melhor desempenho. Ideia interessante, adequa-se às estruturas narrativas onde ciclos temporais permitem a redenção dos protagonistas presos nesse ciclo. Sakurazaka define melhor esta ideia com um conjunto de alienígenas especiais: um servidor, antenas e um cópia de segurança, os quais têm de ser eliminados numa sequência exacta para quebrar o laço temporal, e dar às forças terrestres a possibilidade de prevalecer no campo de batalha. Analisada estritamente nos termos das viagens no tempo, esta é uma ideia que suscita muitas questões sobre paradoxos temporais. A mais óbvia tem a ver com a redundância: se os invasores compreendem a importância de ter uma cópia de segurança, o que é que os impede de manter mais cópias? Algo que até seria lógico. E, aumentando o nível metafísico, serão os personagens simulações dentro de computadores dedicados? Estão eles condenados à eterna repetição, com pequenas variantes das suas acções em combate numa espécie de jogo de guerra ou simulação de estratégia, controlada externamente? Suspeito que as inúmeras iterações de Lara Croft, Duke Nukem e Doomguy devem perguntar isso, caso venham a atingir níveis de sentiência, por entre o eterno calvário de sobreviver a labirintos infestados de monstros letais.

As questões de lógica temporal não são o ponto forte desta obra. Foge aos paradoxos das viagens no tempo, optando por utilizar este artifício narrativo para explorar elementos da tradição clássica da Ficção Científica militarista, infundida com um certo espírito Heileiniano. Os seus personagens são elementos de uma máquina militar: conscientes dos seus deveres, não se resignam perante as adversidades embora coloquem o cumprimento das suas obrigações raciais acima de tudo. É o Robert Heinlein de Space Cadets ou Soldados do Universo, transmutado para a cultura pop nipónica hipertecnológica, fazendo a devida vénia à longa tradição da guerra futura. Esta vertente da FC especula sobre conflitos e tecnologias militares futuras, tendo o seu primeiro auge nas vésperas da primeira guerra mundial, na literatura de antecipação europeia e americana. Recuperada a partir dos anos 50, em grande parte com o trabalho de Heinlein, está hoje, diria, num segundo apogeu dentro da Ficção Científica. Caracteriza o trabalho de muitos dos mais conhecidos escritores actuais. Chega ao grande público com forte influência no lado espectáculo da FC cinematográfica, e no panorama televisivo com séries como Falling Skies ou The Expanse, com estreia brevemente prevista. Os mais nostálgicos podem recordar Space: Above and Beyond (transmitida por cá com o título Guerra dos Mundos) como um exemplo puro desta vertente militar da FC.

Em contraposição ao militarismo alastrante temos o romance desesperado entre Keiji e Vratasky, que acabará também por sublinhar a supremacia do dever sobre as paixões individuais. É uma história de amor que se vai construindo ao longo dos laços temporais mas que finalizará num sacrifício necessário para a salvação da humanidade. Sacrifício esse que assume a forma de um violento duelo até à morte entre os dois amantes. Estabelece-se uma cumplicidade amarga com o público, uma vez que só Keiji e o leitor conhecem a totalidade da história.

Já os mimics são decididamente criaturas alienígenas. Na forma como são descritos e desenhados podem ser comparados aos Langoliers de Stephen King – os insaciáveis devoradores do passado do conto homónimo – misturados com os marcianos de Guerra dos Mundos de H. G. Wells. Tal como estes, os mimics alteram radicalmente a ecologia dos espaços que conquistam, para os adaptarem aos seus requerimentos de vida. É sempre impossível escapar à influência de uma das obras que está na génese da FC.

É muito interessante a opção de representação dos extraterrestres como criaturas esféricas com largos orifícios e dentes semelhantes a blocos de cimento. Funciona como indicador do panorama da cultura visual nipónica, influenciada pelos Yurei, e restantes panoramas feéricos de criaturas míticas, e sublinha o seu carácter alienígena. Afinal, porque é que potenciais seres de outros planetas têm de ser humanoides bípedes? Se no cinema facilitam o trabalho de efeitos especiais, a literatura e a banda desenhada não precisam de se reger por esses espartilhos. Sakurazaka, Abe e Obata foram muito eficazes neste aspecto.

All You Need Is Kill é um belíssimo manga de FC militarista. Nos seus dois volumes adapta com rigor o romance original. Entre premissas intrigantes e a ilustração explosiva, dá-nos um vislumbre do melhor que se faz na Ficção Científica japonesa.

Ficha técnica
All You Need Is Kill, Volume 1 e 2
Autores: Hiroshi Sakurazaka, Ryosuke Takeuchi, Takeshi Obata.
Editora: Devir
Páginas: 216, capa mole
PVP: 9,99 €
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