Alan Moore na Amadora

Em Portugal, os festivais de banda desenhada trouxeram uma dignidade à BD que permitiu o surgimento de grandes valores a nível do desenho. Continua a faltar algo que permita o mesmo fenómeno no que respeita aos argumentistas.

Em 2002, o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem da Amadora (CNBDI) procurou uma primeira tentativa de resposta ao promover uma exposição centrada no trabalho daquele que é, a nível mundial, o mais importante argumentista de banda desenhada dos últimos trinta anos: o britânico Alan Moore.

Inaugurada no dia 20 de Setembro de 2002 e patente até 31 de Dezembro daquele ano, a exposição (comissariada por mim com o apoio do norte-americano Rick Veitch) visava objectivos tão vastos como mostrar a técnica de elaboração de um argumento e um guião de BD; mostrar todo o processo criativo que envolve a concepção de uma BD em colaboração, incluindo o permanente diálogo entre argumentista e desenhador, permitindo a visualização dos contributos individuais de cada um para o resultado final, e as concessões de parte a parte; mostrar uma retrospectiva (a primeira ao nível mundial) da obra do mais conceituado argumentista de banda desenhada dos últimos vinte anos, reunindo pranchas de desenhadores e trabalhos famosos e conceituados, bem como documentos de trabalho que nunca estiveram acessíveis ao grande público (desde logo, os guiões do argumentista); criar um forte impacto sobre os potenciais argumentistas nacionais, a partir do método de Alan Moore; mostrar a banda desenhada como linguagem multidisciplinar e interdisciplinar e verdadeiramente participativa, dando conta das suas potencialidades no ensino (da história, de línguas, etc.); abordar a questão da presença da banda desenhada nas bibliotecas escolares; mostrar a enorme actualidade da obra de Moore em termos de discurso de linguagem; mostrar a forma como Moore aborda os temas mais complexos e variados na banda desenhada, levando a BD à descoberta de novos rumos narrativos e gráficos, e como constrói as suas narrativas plenas de referências dos mundos das artes, letras e ideias (muito para além dos exemplos apontados no livro «A Linguagem da BD»), sempre contribuindo para a plena integração da banda desenhada no panorama cultural.

A exposição, retrospectiva de toda a obra em colaboração de Alan Moore, englobou mais de cento e cinquenta pranchas e desenhos originais de cerca de três dezenas de títulos ou séries distintas, guiões, esboços, livros e revistas. A mostra suscitou o interesse de Bruxelas e Londres, em termos de itinerância, para além de diversos destaques na imprensa internacional, e o CNBDI conseguiu, para a sua colecção, duas dezenas de pranchas e diversos guiões que integraram a exposição.
A colaboração da Amadora foi preciosa nas mostras internacionais que se seguiram, sobre a obra de Alan Moore, designadamente em Barcelona e em Charleroi (comissariada pelo estudioso Paul Gravett, que esteve na Amadora em 2002, e escreveu, inclusivamente, um artigo sobre a mostra para o prestigiado The Comics Journal).

Actualmente, prepara-se nova importante retrospetiva da obra de Alan Moore, desta vez na Cité du Livre, de Aix-en-Provence (França), para apresentação entre 1 de Abril e 10 de Maio de 2014. E, uma vez mais, foi solicitada a colaboração da Amadora para a concretização do projeto.

Autor, coleccionador, crítico e divulgador de banda desenhada, Pedro Mota colabora com o AmadoraBD desde 1995. aElipse é uma crónica semanal que será publicada no aCalopsia aos sábados.

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