Pequena Edição

No passado dia 21 de Novembro, o jornal Público dedicou duas páginas à banda desenhada nacional. O artigo, assinado por Tiago da Bernarda (que merece nota positiva, apesar de tratar fanzines e AmadoraBD no feminino), começava com a seguinte afirmação: “Vender 400 exemplares de um livro é motivo de júbilo para qualquer editora independente de banda desenhada portuguesa.”

Quem ler esta afirmação inicial sem conhecer o contexto do panorama português de banda desenhada, até pode imaginar que, por trás destas “editoras independentes” haverá grandes editoras “comerciais”, que vendem dezenas de milhares de exemplares. Mas não há. Confirmando um diagnóstico feito há já alguns anos por José Carlos Fernandes, em Portugal o “mainstream” é o alternativo. Os actuais números de tiragens e vendas são equivalentes aos números que há alguns anos só eram apresentados por fanzines.

É considerando esta realidade que defendemos também que um projeto de banda desenhada como o da cidade da Amadora deve apoiar a divulgação de obras e autores representados por pequenas estruturas editoriais, desde logo a edição de autor. Não se trata, uma vez mais, de apoio financeiro, mas antes de, por exemplo, integrar estes autores em exposições colectivas de divulgação, em cada edição do AmadoraBD. Este apoio à divulgação deve ser orientado no sentido de uma igualdade de oportunidades, pelo que a divulgação das restantes obras deve constituir preocupação da Amadora se estiver a ser deficientemente encaminhada pelas respectivas editoras.

Dir-se-á que, neste aspecto, a Amadora corre o risco de desempenhar um papel que deve caber antes às editoras, mas os diferentes espaços que as editoras ocupam permite este tipo de atenção, sem inviabilizar uma abordagem mais profissional que uma grande editora pretenda empreender. Uma forte presença na Amadora traduz-se em vendas. Um festival com a dimensão do AmadoraBD é um importantíssimo ponto de venda para uma pequena estrutura que não queira passar pelos circuitos da distribuição. Há que criar um evento a partir do momento em que se consegue compatibilizar a existência de uma exposição com a presença do autor, e isso é um interesse comum à Amadora e à editora (e, já agora, ao autor): entre os autores que melhor aproveitaram esta oportunidade contam-se Luís Louro e, mais recentemente, Filipe Melo.

É certo que, tradicionalmente, o AmadoraBD fecha as portas a propostas cujo nível qualitativo não apresenta garantias de profissionalismo. É uma orientação diferente da que tem seguido o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, por exemplo, que reconhece e garante visibilidade à iniciativa e ao dinamismo das propostas, ainda que de qualidade pouco profissional. Certo é que foi por esta porta que o festival bejense começou a divulgar a BD criada pelo atelier Toupeira, de Beja, constituído por autores com valências (idades, experiências e influências) muito desiguais mas que têm em comum uma salutar energia e capacidade de concretização. Diga-se também que, normalmente, as editoras (mesmo as mais pequenas) tendem a apresentar à Amadora propostas individuais, não apresentando grande receptividade para a integração em mostras colectivas. Neste aspecto, também deverão ter maior consciência de que a programação do AmadoraBD ou do CNBDI tem uma determinada escala, e uma determinada linha orientadora. Mas a oportunidade existe. Pequeníssimas estruturas de edição contam com autores de enorme talento, e o apoio à divulgação como parte integrante do projecto de BD que vem sendo desenvolvido pela Amadora prestigia todos os envolvidos.

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1 Comment

  • Olá.
    Não sei até que ponto é que tem havido discussão neste espaço, mas tenho seguido com muito interesse os artigos do Pedro Mota. Gostaria de deixar aqui um contributo a continuarmos esta discussão, mas não sei bem se o faço sob a forma de pergunta, adição, comentário, etc. Não estou totalmente seguro se a Amadora está fechada a este circuito, e diria antes que muitas vezes desconhece o que se passa nesses circuitos menores (digo-o de uma forma central, pois sempre o discuti com a equipa do FIDBA). Incorrendo na presunção de falar do umbigo, quando organizei a exposição de autores portugueses há uns anos, estiveram presentes excelentes nomes que jamais haviam estado lá presentes, a começar pelo Marco Mendes (mais tarde “descoberto” por um público maior). Penso que o FIBDA ganharia em abrir portas a mais comissários, como sempre disse, ou que as pessoas interessadas e competentes avançassem com propostas que permitissem essa “entrada” e “espaço de divulgação”. No entanto, existirão sempre plataformas que não estão interessadas em estar no FIBDA, por várias razões, e que daria outra discussão. De resto, essa discussão da “falta de profissionalismo” tem muito que se lhe diga, e nem sequer pela dimensão da “remuneração”. É da ideia de uma certa “qualidade gráfica e narrativa” que presumo o Pedro se referir. Ora, nesse sentido, existem alguns projectos mesmo em editoras comerciais ou de tamanho médio que, apesar de terem uma chancela “profissional”, ou circulação maior (ou sua aparência), estão algo aquém dessa suposta qualidade. Mas esse é ainda um outro tema.
    Bom, espero que possamos continuar esta conversa, iniciada há anos, mas aqui talvez possa ganhar um espaço mais participativo e público.
    Obrigado, Pedro, e até breve.
    Pedro Moura

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