Lusofonia

Sem prejuízo de acções específicas no âmbito da promoção do livro, é natural que haja um intercâmbio de exposições concebidas pela Amadora em países como o Brasil ou Angola, que têm marcado – e devem continuar a marcar – presença no AmadoraBD (e têm demonstrado interesse pelo trabalho desenvolvido pela cidade em torno da BD).

No âmbito da edição de 2010 do AmadoraBD, teve lugar o “Encontro Lusofonia: Nona Arte em Língua Portuguesa”. O encontro, surgido da iniciativa de Nelson Dona, contava com a presença de quatro países (Angola, Brasil, Moçambique e Portugal) representados por autores e especialistas. Os autores representados estavam, de resto, integrados numa exposição “Lusofonia”. Os representantes de cada um dos quatro países tiveram oportunidade de dar a conhecer o panorama da banda desenhada do seu país, e o percurso do autor seleccionado. No caso português, o especialista João Miguel Lameiras e o autor Nuno Saraiva foram os representantes.

Do referido encontro, retirei as seguintes conclusões:

  1. A identificação de uma comunidade lusófona de banda desenhada.
  2. A necessidade de dar continuidade à iniciativa da Amadora através de acções individuais.
  3. A ideia de fazer passar essa continuidade por uma publicação que expressasse a identidade lusófona e contemporânea que norteou o encontro (lusófona por partir de uma base localizada ou individual para uma mensagem universal, e contemporânea por privilegiar a linguagem que as pessoas efectivamente falam sobre a “linguagem dos livros”).
  4. A ideia de realizar novos encontros (falou-se mesmo num encontro anual) para ponto da situação.
  5. A necessidade de conhecer melhor as diferenças e semelhanças dos países participantes desta comunidade.
  6. A necessidade de aumentar o número de países participantes.
  7. A necessidade de redimensionar a identidade local à escala da comunidade lusófona.
  8. A necessidade de criar uma página da Internet para este projeto.
  9. A necessidade de preparar mecanismos de apoio e formação.
  10. A possibilidade de concretizar residências artísticas.

A sempre atenta Sónia B. Luyten tratou mesmo de enquadrar estas conclusões em diferentes períodos temporais de concretização: no curto prazo, seria possível verificar as diferenças e semelhanças e promover itinerância de exposições; a médio prazo, seria possível conceber projectos de intercâmbio, e a longo prazo seria possível apostar na vertente comercial.

Durante algum tempo, a Amadora desligou-se da sequência desta valiosa iniciativa. Tal sequência concretizou-se sobretudo no fanzine BDLP, em resultado da boa ligação entre o angolano Olindomar estúdio e o português Grupo Extractus (muito por acção de João Mascarenhas). Mas no AmadoraBD 2013, o fanzine BDLP foi distinguido como o melhor fanzine no ano, o que recoloca o projeto do espaço lusófono de BD na rota do projeto da cidade da Amadora para a banda desenhada.

De resto, no momento em que recebeu o Prémio Nacional de banda Desenhada para o fanzine BDLP, João Mascarenhas não se esqueceu da iniciativa da Amadora, e revelou contar com a cidade para concretizar outro tipo de metas identificadas no encontro de 2010.

Por coincidência, foi também neste ano de 2013 que as Edições Polvo iniciaram um projeto e colaboração regular com autores brasileiros.

A comunidade lusófona de banda desenhada identifica-se por uma raiz cultural comum. Especialmente em paralelo com o Brasil, há uma fase de ditadura, a que se sucede, com o fim da limitação da liberdade de expressão, uma vontade de quebrar tabus (aliada a uma boa capacidade de rir de si próprio), que leva a um desenvolvimento das linguagens da BD e do cartoon. Pensar o projeto da Amadora à escala do espaço lusófono permite também o reencontro da identidade cultural.

Autor, coleccionador, crítico e divulgador de banda desenhada, Pedro Mota colabora com o AmadoraBD desde 1995. aElipse é uma crónica semanal que será publicada no aCalopsia aos sábados.

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