Circuitos

Uma frase célebre da história da banda desenhada, vem da série Pogo, do genial Walt Kelly: “I have met the enemy and he is us”.

O maior adversário da plena realização do plano de banda desenhada para a cidade da Amadora é a cidade da Amadora. Tal como se verificou na cerimónia de abertura desta 24ª edição do AmadoraBD, nem parece muito certo o futuro do festival. O actual presidente da assembleia municipal (ex-presidente da câmara) Joaquim Raposo deixou pública e claramente expressa a sua vontade, no breve discurso de apresentação da exposição dedicada a Geraldes Lino: o festival deve continuar.

Parece, pois, que o primeiro passo é expressar um inequívoco apoio à acção do festival e do Centro Nacional de banda Desenhada e Imagem (CNBDI), permitindo a sua concretização em termos de plena realização dos seus objectivos, particularmente a celebração da banda desenhada em torno do livro, e o reforço da dimensão internacional como forma de divulgação da obra e autores nacionais.

Para isso, era conveniente que, como sucedia na década de noventa, a estrutura básica do evento fosse divulgada por alturas de Julho, permitindo que, com antecedência, se concretizassem acções de intercâmbio e se avaliassem planos alternativos a falhas no programa a partir de uma definição orçamental certa. A estrutura básica do evento, com um tema central, homenagem a um autor consagrado, destaque a um autor contemporâneo, e festivais paralelos (celebrando linguagens próximas como a do cartoon), mantém-se uma fórmula válida para o alcançar destes objectivos.

Mas é preciso mais ainda, nesta linha de pensamento. É preciso agilizar percursos burocráticos, garantir a eficácia do trabalho da equipa de banda desenhada. Alguém acima da equipa tem de aparecer para resolver. Em última análise, alguém tem de funcionar como vereador com o pelouro da banda desenhada, actuando com polivalência nas vertentes administrativa, financeira, etc.

Em Beja, cidade que consagrou um festival internacional de banda desenhada de menor dimensão mas com fortíssima identidade (reforçada por um total empenho e profissionalismo), o director do festival, Paulo Monteiro, tem uma autonomia e uma flexibilidade de circuitos que devia ser seguida na Amadora. Em alternativa, a Amadora poderá sempre contratar o festival num modelo “chave na mão”, mas teria que haver uma entidade privada (eventualmente uma associação de autores e outros agentes) que oferecesse garantias de cumprir determinadas obrigações de resultado, e que pudesse trabalhar numa articulação muito próxima com o executivo municipal, para que o resultado final não desvirtue o projecto da cidade. A existência de uma tal entidade poderia sempre facilitar algumas questões que são simples para um privado mas que são muito complicadas para uma entidade pública, como a aquisição de originais ou de uma viagem de última hora, por exemplo.

Enquanto presença que fica para além dos dias do festival, o CNBDI pode ter um papel chave neste acompanhamento da execução do projecto. Oficialmente inaugurado em Setembro de 2000, CNBDI é em si mesmo um projecto integrado e ambicioso que procura acompanhar as diferentes vertentes ligadas à banda desenhada. O CNBDI representa uma casa de edição, um local de exposição, uma biblioteca especializada em BD, um centro de pesquisa e um arquivo de originais. Tem a vocação ideal para veículo de desenvolvimento do projecto da cidade para lá do festival.

Mas o apoio do município ao projecto de BD para a Amadora passa, desde logo, pelo reconhecimento desse projecto global em que se devem inserir AmadoraBD e CNBDI.

 

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