À Volta do Tacho

Em comentário à minha última crónica, o internauta Cesário escreve o seguinte:

“Um festival que necessita de se renovar para atrair as novas gerações vai aliar-se a um clube do tempo dos afonsinhos, Urray for tachos!”

O comentário merece toda uma crónica de resposta.

Em primeiro lugar, eu tinha procurado dar como ponto assente que a Amadora assume que é mais do que o festival, e o Cesário começa o comentário por reduzir o projeto da Amadora ao festival. Houve aqui uma evidente falha de comunicação. Para o caso de não me ter feito entender, repito que desde 2000 que o projeto da Amadora em torno da banda desenhada vai muito além do festival AmadoraBD.

Em segundo lugar, defende o Cesário que o festival necessita de se renovar para atrair as novas gerações. É uma opinião com a qual não concordo. Quem tem de se renovar para atrair as novas gerações é todo o panorama da BD nacional, a começar nos leitores. Um festival pode promover e celebrar o livro, mas não o substitui.

Em terceiro lugar, o Cesário entende que o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) é “um clube do tempo dos afonsinhos”. Mais uma vez, toda a crónica partia do pressuposto de que o CPBD anunciou uma renovação. Podemos questionar qual a capacidade de renovação do CPBD, e se essa renovação é suficiente para contagiar outras entidades. Mas o facto de o CPBD ser uma associação com quase quarenta anos e – antes da anunciada renovação – apresentar uma estrutura e atividade envelhecidas, não é argumento para concluir pela falta de capacidade do CPBD enquanto agente de renovação. Neste campo, é preciso que também os Cesários que andam espalhados pela internet façam mais do que aquele tipo de comentários que já se ouve desde antes do tempo dos Afonsinhos.

Em quarto lugar, “Urray” é uma mistura de Dona Urraca (do tempo do primeiro dos Afonsinhos) com hurray (ou hooray ou hurrah ou hoorah, mas sempre com “h”), que demonstra bem a capacidade que tem algo do tempo dos Afonsinhos para se afirmar como algo novo e nunca visto. Assim haja vontade, e existam condições.

Finalmente, a ideia dos tachos na banda desenhada portuguesa é uma preciosidade. O meu conceito de tacho, no sentido aqui em causa, é a de um emprego com elevadas regalias e/ou salário, de modo a que o trabalho desenvolvido é bastante inferior aos ganhos que se retiram. Confesso que a ideia que tenho de quem trabalha na banda desenhada em Portugal é a inversa: a de que se trabalha muito mais do que aquilo que se recebe, e que, se não fosse a paixão, ninguém trabalharia em BD. A começar nos autores. Mas parece que não é assim. Algures na aliança entre a Amadora e o CPBD, o Cesário encontrou um tacho. É um achado só comparável ao achado daqueles senhores que se sentam na mesa do café, cada um conhecedor da tática perfeita que – se o treinador a seguir – fará dos seus clubes de futebol o campeão nacional. Espero que o Cesário leia esta crónica, e me diga se o tacho é na Câmara da Amadora ou no CPBD, para que eu me possa fazer ao lugar, e juntar ao tacho que já tenho aqui no aCalopsia. Afinal, um tacho na BD portuguesa é uma coisa boa demais para deixar passar.

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