A Longevidade do AmadoraBD

Aproxima-se mais uma edição do AmadoraBD, o festival internacional de banda desenhada da Amadora. Será a 26.ª edição, o que representa uma longevidade verdadeiramente anormal no panorama dos eventos culturais portugueses.

O segredo da longevidade do AmadoraBD é, em primeiro lugar, o facto de celebrar a banda desenhada, uma forma de linguagem suficientemente obscura para permitir a continuidade da celebração sem grandes perturbações. E também é, em segundo lugar, o facto de celebrar a banda desenhada em Portugal, o que se consegue fazer com orçamento variável, com leitores e autores ocasionais, com editores pequenos ou amadores, sem mercado, numa cidade que não tem grandes hábitos de leitura. Mas é, em terceiro lugar, uma estranha aposta em fazer um festival muito melhor do que o panorama português justifica. A verdade é que os leitores, os autores, os livreiros, os editores, os críticos e os demais agentes da BD portuguesa raramente estão à altura do conceito de banda desenhada apresentado e celebrado anualmente na Amadora. E esta é uma verdade incómoda porque o AmadoraBD faz muita coisa mal, e os outros fazem muita coisa bem.

A diferença está sobretudo em que, para a Amadora, vale a pena celebrar a banda desenhada. Vale a pena aproximar o livro de BD do seu leitor, vale a pena dar a conhecer o autor que está por detrás do livro, vale a pena reconhecer – com a instituição de prémios – o trabalho dos autores, vale a pena juntar todos os que se interessam pela banda desenhada, vale a pena expor a banda desenhada como arte (sem esquecer a vertente narrativa ao lado da vertente gráfica), vale a pena aprofundar temas a partir da BD.

A Amadora não tem o discurso do “não vale a pena”, nem parte do princípio de que os outros (leitores, editores ou seja quem for) são uns ignorantes e que está tudo cada vez pior de ano para ano. E por isso continua a acreditar, e a fazer.

Mas o facto de se dimensionar para lá do que o panorama português justifica, faz com que haja um certo distanciamento da realidade, e se perca alguma noção até do próprio trabalho. A afirmação tão repetida por Nelson Dona de que o festival prefere “não fazer as coisas do que as fazer mal feitas” é um bom exemplo dessa falta de noção. O AmadoraBD faz muita coisa mal, e deve existir sempre a capacidade de aprender com os erros e de fazer melhor. Mesmo que os outros estejam noutro campeonato.

Este fazer melhor passa por dar oportunidade àqueles que se querem dimensionar à mesma escala do festival. Que garantias tem uma novidade editorial com capacidade para ser um motor de dinâmicas de mercado (e uma referência para o desenvolvimento imediato da BD nacional) quanto à receptividade do AmadoraBD? Há dois anos, faltou o palco do AmadoraBD para o lançamento de O Baile, de Nuno Duarte e Joana Afonso, quando estavam reunidas todas as condições para justificar essa oportunidade. No ano passado, a exposição sobre O Baile já pareceu claramente fora de tempo. Para este ano, anunciam-se pelo menos três obras que poderiam justificar uma aposta forte do AmadoraBD: o regresso de Jim del Monaco, de Louro & Simões, Kong – The King, de Osvaldo Medina, e Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia. Qualquer destes trabalhos oferece garantias (falando só de apostas absolutamente seguras) de se posicionar na linha editorial do AmadoraBD, e de contribuir positivamente para o prestígio e longevidade do evento. Veremos se o festival os acolhe numa oportunidade que rentabilize aquilo que o AmadoraBD representa, corrigindo um dos erros mais elementares que tem vindo a repetir.

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