A diferença entre Explosão e Implosão de um Mercado

Quem esquece os erros do passado arrisca-se a repiti-los.

Ao ler o artigo “Estamos perante um Mini-Boom editorial em Portugal?” na Central Comics parecia que tinha voltado um década atrás no tempo, quando o Daniel Maia escrevia uns textos pomposos em que confundia aumento de procura com aumento de oferta durante a explosão/implosão do mercado de Banda Desenhada em 2002/2003, foi durante esse curto período de tempo que o mercado nacional tem um aumento de oferta desproporcional ao da procura que levou a um implosão da maioria dos projectos editoriais que existiam. Felizmente o artigo de Dário Mendes limita o tom celebratório ao primeiro parágrafo apresentando pontos de vista de vários intervenientes do mercado que acabam por demonstrar um cenário menos agradável do que o autor do artigo desejava.

“Podemos estar a passar um bom momento para os fãs, em que é possível comprar mais algumas colecções ou títulos, e em que talvez se tenha editado um pouco mais. Mas na verdade, não penso que o momento seja muito bom. Aliás, para mim, a prova disso é que uma só editora, a Planeta D’Agostini, vai lançar em 2013 um total de álbuns igual a metade do TUDO o que se editou em 2012. Quando UMA SÓ editora consegue fazer isso, e com um projecto editorial que claramente não tem muito a ver com a BD, mas antes com o aproveitamento da marca e do momento, e por arrasto de colecções editadas em Espanha, então é sinal de que o mercado está tão diminuto que qualquer coisa que se faça é relevante.”

José Freitas ex-editor da Devir e actual editor da colecção Super-Heróis DC da Levoir continua a ter análises de mercado frias e assertivas sem cair nas declarações politicamente correctas da Maria José Pereira ex-editora da Méribérica e da Asa.

“Infelizmente, não há estudos específicos para o mercado de BD que nos permitam aferir se isso acontece ou não, pelo que uma resposta concreta à tua pergunta seria, da minha parte, apenas um mero «futurismo».”

Sendo verdade que não existe dados sobre as vendas das diversas edições que vão sendo efectuadas, a Maria José Pereira possui dados concretos sobre a situação da Asa e das suas vendas, para quem está de fora a situação não parece ser muito animadora. O departamento de banda desenhada da Asa tem vindo a sofrer cortes sucessivos de pessoal até ser reduzido a duas pessoas, deixando de ser uma secção autónoma sendo integrado no departamento Infanto-Juvenil. A Asa é capaz de ser a melhor editora pela qual aferir a saúde do mercado, já que tem um presença predominante no mercado livreiro e é uma das editoras que vem à longos anos a apostar no sector emergente: as colecções de BD vendidas em quiosques (com jornais). Este segmento que nos últimos anos tem sido lucrativo teve este ano um aumento da oferta brutal.

Geralmente quando existe um aumento da oferta superior à procura o resultado não costuma ser bom, algo para o qual o Pedro Cleto já tinha alertado de modo menos acutilante em Junho, antes de se estar perante este o “boom” que ainda não terminou.

Apesar de se tratar de propostas bem diversas e com públicos-alvo distintos, esperemos que tanta fartura não venha a dar indigestão e a pôr em causa futuras edições que, posso adiantar, já estão em marcha ainda para este ano…

A viabilidade deste volume de colecções de BD nas bancas é algo que só será possível de averiguar daqui a um ano, quando for possível comparar o número de “projectos” editados com o do corrente ano. Como as vendas de banda desenha em Portugal um segredo bem guardado, só a continuação de um ritmo de edições semelhante será indicador da real saúde do mercado. Se neste caso podem existir dúvidas, no canal de distribuição “tradicional” da BD em Portugal: as livrarias, a situação não é animadora, como refere Maria Yasmim responsável pela Booktree:

“Os pontos de venda e circuito de distribuição em Portugal estão um verdadeiro cancro. A Sonae está a acabar com o espaço da BD nos hipers; as [lojas] Fnac têm cada vez menos [espaços] (e ouvem-se rumores de que em termos de negócio a coisa está a correr muito mal, portanto oxalá não venha por aí uma má notícia em breve); e das grandes livrarias não resta muita escolha: há as Bertrands e pouco mais, muitas delas cheias de problemas e condenadas a acabarem, mais dia, menos dia.”

Uma situação que é mais alarmante se tivermos em conta que já em 2003 José de Freitas, então ainda editor da Devir mencionava que “as vendas estão em queda livre, as tiragens cada vez mais pequenas, e os livros cada vez menos tempo em exposição (e portanto a vender ainda menos, numa espiral descendente)”, uma década depois a situação nas livrarias não melhorou.

Independentemente de as colecções de BD serem fogo fátuo ou um realidade para ficar, o “mercado” precisar de ser saudável segmento das livrarias, já que as colecções para bancas exigem um investimento muito superior aos de um álbum ou série de álbuns para o mercado livreiro.

Entretanto, com ou sem boom, os autores nacionais continuam remetidos para edições com 300/500 exemplares de tiragem ou a serem publicados em “revistas” aperiódicas com 100/300 explares de tiragem. Ainda parece ser um bocadinho cedo para lançar foguetes.

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