A Cidade Suspensa de Penim Loureiro

Vista do céu em 1962, Lisboa possuía a ponte sobre o Tejo ainda em construção, enquanto, lá em baixo, as pessoas e os bonecos dos matraquilhos pareciam partilhar um destino semelhante.

Vista do céu em 1962, Lisboa possuía a ponte sobre o Tejo ainda em construção, enquanto, lá em baixo, as pessoas e os bonecos dos matraquilhos pareciam partilhar um destino semelhante.

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Raul e Rodrigo cresceram numa Lisboa em mutação, assistindo ao quotidiano de demolições com o desconforto de quem tem um prego espetado no olho. Anos mais tarde, separados por diferentes caminhos, acordaram reunir-se numa viagem ao continente africano. Eram, porém, já três estranhos. O destino foi um campo arqueológico situado às portas do Saara, no sul da Tunísia. Aí conheceram Enzo, participante vindo de Itália, e Nabil, um habitante local. Por razões que só descobririam mais tarde, Raul nunca chegou a juntar-se ao grupo.

Durante uma deslocação ao Saara foram surpreendidos por uma tempestade de areia que os isolou no deserto e revelou a faceta mentalmente desequilibrada de Rodrigo, o “Voador”. Enzo e Nabil partiram sozinhos em busca de auxílio mas foram confundidos por contrabandistas por uma patrulha da polícia que, abrindo fogo, feriu Renzo.
De retorno a Lisboa souberam da notícia que Raul tinha sido um dos desaparecidos num atentado bombista na Gare de Bolonha. A partir desse dia Raul passou a representar um incontornável peso na consciência, com a secreta esperança de o ver regressado de Alcácer-Quibir, numa manhã de nevoeiro. Enquanto, do outro lado do Mediterrâneo Nabil escrevia cartas pedindo ajuda para ir para os “Estados Unidos”, por cá foi feito um inquérito a estes dois incidentes, no qual o agente Elias, suspeitando de Rodrigo, perseguiu-o com inabalável fervor.

Inesperadamente Enzo, já restabelecido do ferimento sofrido no Incidente El-Ksour, viajou até Lisboa, portador de um embrulho cujo remetente jurara não divulgar e que continha a mala de Raul. Teriam os acontecimentos no Saara sido realmente um acidente? Que fazia Raul na Gare de Bolonha e qual o conteúdo da sua misteriosa mala.

Fugindo á resposta destas questões Rodrigo partiu para Angola onde descobriu que Raul, afinal, não tinha morrido em Bolonha, estando a viver na ilha do Mussulo na baía de Luanda. Voador só sairia daquela ilha quinze anos depois. Nesse mesmo ano de 2001, enquanto Rodrigo escapava ao seu fado africano, Nabil conseguiu finalmente a sua tão almejada viagem para a América num avião que despenhar-se-ia contra o edifício do World Trade Center.

img114Simultaneamente inventada e real o painel de azulejos da vida torna-se ilegível com o tempo, uma vez que destinos interrompidos, paixões imaginárias e obsessões duma vida inteira conduziram estas personagens á insanidade, comungando uma amizade com duas caras; uma leal outra enganadora.

“A Cidade Suspensa” é um projecto de Penim Loureiro, ainda sem editora. Nascido em 1963, Penim Loureiro desenhou intensamente de 1979 (ano onde já era participante habitual nos concursos e exposições de BD em Portugal) a 1984, com BD’s publicadas em jornais como o Sete, O Diário, Notícia ou Diário Popular, na revista Tintin, Jornal de BD, Ruptura, Ritmo, Amargem, Boletim do CPBD e na revista espanhola Un Fanzine Llamado Camello. A partir deste ano interrompeu a banda desenhada para se dedicar à arquitetura. E mais tarde à arqueologia.

Iniciado em 2013, “A Cidade Suspensa” é um projeto autobiográfico ficcionado – mais um para adicionar às múltiplas de obras de catarse produzidas na atualidade – que procura arrumar, definitivamente, alguns episódios e questões reais por resolver.

Podem acompanhar o trabalho a evolução de “A Cidade Suspensa” na sua página de Facebook.

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