A Beterraba de Miguel Rocha

O retrato que Miguel Rocha fazia, há cerca de uma década, da banda desenhada portuguesa constitui uma interessante pista de reflexão. Entre os factores que informam a situação da BD portuguesa, Miguel Rocha começava por destacar a ausência de um verdadeiro público e de meios próprios de divulgação. Depois, existe uma crítica a que falta profissionalismo. Tudo somado, faltava sobretudo uma verdadeira cultura de banda desenhada em Portugal. As Edições Polvo permaneciam, para o autor, como a única editora com um plano consistente em termos de publicação de autores nacionais, e a ESBAL e Ar.Co mantinham-se os grandes fornecedores de novos autores para um mercado que não existe. E as exposições de originais continuam a ser o grande veículo de divulgação e reconhecimento.

Se é certo que em dez anos alguma (pouca) coisa mudou, não é menos certo que a conclusão a que este retrato nos leva é invariavelmente a mesma: a BD em Portugal continua a fazer-se por gosto, alimentada pelo desafio da linguagem.

Miguel Rocha nunca poupou elogios aos novos autores nacionais, que têm uma mensagem própria e constroem as suas próprias referências. Mas um dos exemplos mais bem definidos desta singularidade, quer ao nível gráfico quer ao nível temático, é o próprio Miguel.

Ao nível gráfico, cultiva uma grande expressividade dominada por uma enorme diversidade de técnicas. Quando trabalha a cor directamente na prancha, desafia as fronteiras entre a pintura e a banda desenhada, dando lugar a pinturas com sentido narrativo. Quando trabalha a preto e branco, existe uma economia de traço que optimiza a mensagem. Nada está a mais. Quando passou para a utilizar o computador, reinventou-se enquanto autor.

Ao nível narrativo, a obra de Miguel Rocha traduz um forte apelo referencial, entre o discurso filosófico, literário e a memória da história mais recente de Portugal, em especial do período que antecedeu a revolução do 25 de Abril, e que não foi ainda suficientemente aprofundado na banda desenhada portuguesa. Quer porque naquele período se incentivava a abordagem de outros tempos da História, quer porque após aquele período os novos autores de banda desenhada portuguesa começaram a demarcar-se um pouco da perspectiva histórica.

Miguel Rocha nasceu em 7 de Março de 1968. Viveu a sua infância em Alhandra, no Ribatejo, passando para Lisboa com treze anos de idade. Tem o curso secundário de Artes e Técnicas do Fogo da Escola António Arroio e o Curso de Desenho do SNBA.

O percurso de Miguel Rocha foge ao modelo tradicional do autor de BD. Miguel não participou em fanzines nem concursos. Dedica-se à publicidade durante nove anos, e, após uma passagem pela revista Pais & Filhos, onde publica Pequenos Sarilhos, estreia-se para o público da BD em 1998.

Após a publicação de vários (e premiados) álbuns, candidata-se às (então existentes) bolsas de criação do Ministério da Cultura, e ganha, com o seu projeto mais pessoal: Beterraba – A Vida Numa Colher, uma das melhores concretizações da história da BD portuguesa e dos melhores exemplos do gosto com que ela se faz, que na próxima quinta-feira é publicada em nova edição, integrando a coleção Novela Gráfica.

O livro foi originalmente publicado em 2003, assinalando a primeira vez que a Polvo se aventura num trabalho de fôlego de um autor português, a cores, com edição francesa e cedência de direitos para uma edição espanhola, publicada pela Devir.

Beterraba é uma história que nos mostra que não há sonhos irreais nem impossíveis. Tudo pode ser alcançado, mesmo quando o mundo não foi feito à medida do que sonhamos!

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