A Bedeteca da Amadora

Ao mesmo tempo que, na última crónica, eu questionava a necessidade de a Amadora definir se vai haver banda desenhada para além dos dias do AmadoraBD, a Câmara Municipal enviava o convite para a inauguração da nova bedeteca da Amadora, a funcionar dentro da Biblioteca Municipal, e para uma primeira exposição bibliográfica promovida pela referida bedeteca (para além da exposição sobre os 25 cartazes das 25 edições do AmadoraBD).

O convite começava justamente pela afirmação da ideia de que “a inauguração da Bedeteca dá continuidade à aposta da Banda Desenhada na Amadora durante todo o ano”.

Se o projeto da cidade da Amadora em torno da banda desenhada é apenas continuar a fazer o AmadoraBD nos mesmos moldes e arranjar uma bedeteca, é, evidentemente, um não-projeto.

Da minha parte, acredito que há vontade política para fazer mais na Amadora em torno da banda desenhada. Esses têm sido os sinais dados pela Presidente da Câmara em diversas ocasiões. Mas acredito também que não se faz grande ideia do que se deve e pode fazer, e que o caminho se vai fazendo de pequeninos (e muito seguros) passos.

Deixarei o tema do festival e do seu modelo para futuras crónicas, falando hoje da bedeteca.

A Amadora já tinha uma (muito representativa) biblioteca especializada em banda desenhada inaugurada em 2000 como parte integrante do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI). A novidade de inaugurar o que já tinha inaugurado, assumindo o nome de bedeteca (que antes não se assumia para não criar confusões com o questionável projeto que se desenvolveu em Lisboa desde os finais da década de 90 do século XX), é portanto algo que não deixa de ser um pouco estranho, e que pode mesmo ser interpretado como um aparente decréscimo do seu próprio projeto, retirando uma componente ao CNBDI.

Dir-se-á que estou a contradizer-me face às minhas últimas crónicas, e que a pretensão de levar, verdadeiramente, a banda desenhada à cidade deve passar por retirar a BD do “ghetto”, integrando-a noutros equipamentos municipais mais abrangentes. Mas acontece que não parece haver aqui qualquer grande plano que vá além da valorização da Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos. Assim sendo, e não sei se o é, a banda desenhada pode naturalmente sair fragilizada, e a afirmação da identidade da Amadora através desta forma de linguagem também pode não ficar bem resolvida. Aqui, o futuro responderá.

Questiona-se sobretudo o que vai acontecer ao CNBDI, e se, depois da “bedeteca”, também as restantes valências, como o acervo de originais, o centro de documentação ou o espaço de galeria passarão para outras paragens. É que, claramente, o CNBDI já deixou de entrar este ano para as contas do executivo. De acordo com as Grandes Opções do Plano para 2014, documento disponível no site da Câmara Municipal, a cultura representava cerca de 25% do investimento programado para o ano de 2014, sendo que 95% deste investimento eram relativos à remodelação e reabilitação do Cineteatro D. João V. Na distribuição dos restantes 5%, vê-se bem a falta de peso do CNBDI (que no documento das Grandes Opções do Plano ainda aparece como CNBDII – Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem Impressa, designação que o equipamento não usa desde que inaugurou, há quase 15 anos). O orçamento do CNBDI é cerca de um quarto do da Galeria Municipal, e cerca de metade do orçamento do Museu Municipal de Arqueologia, sendo equiparado aos orçamentos definidos para a Casa Roque Gameiro, ou para o Prémio Literário Cidade da Amadora. Se tivermos em conta que este ano o Centro adquiriu originais (de Relvas), conclui-se que em 2014 o CNBDI não teve verba para ser parte ativa no projeto da cidade.

Para já, a notícia é o novo espaço da bedeteca, com áreas dedicadas a álbuns, livros e revistas, facilidades de pesquisa, confortáveis zonas de leitura e trabalho, duas zonas de exposições, uma área dedicada à bedeteca júnior, e uma sala que será a futura fanzineteca, beneficiando da recente doação de Geraldes Lino. A inauguração da bedeteca, no passado dia 8, foi muito animada e bem sucedida, e o espaço e condições do mesmo são magníficas e muito dignas. A Amadora está de parabéns por este passo (que não é assim tão seguro nem assim tão pequenino).

A partir da próxima crónica, começo a refletir sobre o que pode ser feito em termos mais globais. Mas a nova bedeteca é desde já chamada ao barulho. É preciso criar e manter dinâmicas, e definir uma programação que faça da bedeteca da Amadora uma paragem regular no circuito da tribo da BD. A Amadora tem que trabalhar o “pós-inauguração”, e essa continuidade é uma área em que, historicamente, a cidade tem mostrado fragilidades. Espero sinceramente que aquilo que vi no dia 8 tenha sido a semente de algo que vai crescer e dar frutos, e não o expoente máximo de um equipamento que, a partir daqui, cairá no esquecimento.

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