A BD nas malhas da literatura

Rui Zink trouxe à reflexão sobre BD a perspetiva de que a narrativa gráfica (ou de parte dela) está integrada no património da literatura, o que torna legítimo antever que o futuro da banda desenhada possa passar pelo futuro da literatura.

Este ano, completam-se 15 anos sobre a publicação em livro da tese de doutoramento de Rui Zink, “Literatura Gráfica? – Banda Desenhada Portuguesa Contemporânea”. Zink trouxe à reflexão sobre BD a perspetiva de que a narrativa gráfica (ou de parte dela) está integrada no património da literatura, o que torna legítimo antever que o futuro da banda desenhada possa passar pelo futuro da literatura.

No blogue Kuentro, foi serializado (a um ponto em que se tornou verdadeiramente impossível seguir o fio condutor) um interessantíssimo texto de José Ruy que, para além de fazer as actas dos encontros promovidos pelo CNBDI da Amadora, dá conta de rumores sobre a possível integração deste equipamento na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos.

Embora não conheça qualquer acto formal que confirme este rumor, importa tomar uma posição sobre esta ideia, que parece pretender acolher a ideia de Zink de que o actual momento da BD deve situar-se no quadro da literatura.

A questão liga-se a uma outra, que é a do chumbo, na assembleia municipal da Amadora, de proposta para a promoção de um museu de banda desenhada na Amadora. Este chumbo é um dado concreto, e podemos tomá-lo como ponto de partida. Entendendo que não é necessário, conveniente ou oportuno que a Amadora tenha um museu dedicado à BD, será boa ideia integrar o CNBDI na Biblioteca Municipal?

Parece-me que não, por quatro razões.

Em primeiro lugar, integrar o CNBDI na Biblioteca Municipal irá sublinhar a diluição da BD no meio de outras artes, perdendo-se (mais uma vez) a identidade da Amadora com a falta de referência autónoma à BD. Já o Regulamento Orgânico dos Serviços Municipais tinha sido pouco feliz neste domínio, limitando-se a referir, genericamente, as “artes visuais”, que concretiza com “artes plásticas, escultura, instalação, fotografia e outras”.

Em segundo lugar, o nome de Fernando Piteira Santos não tem, apesar do percurso notável, qualquer relação com a banda desenhada. Seria, também por aqui, uma despromoção para a banda desenhada (que passava do 80 de “Centro Nacional” para o 8 de “Fernando Piteira Santos”). A integração do CNBDI sempre faria repensar o nome da biblioteca municipal, o que também não é muito justo.

Em terceiro lugar, a integração iria certamente multiplicar as dificuldades burocráticas e de gestão orçamental. A banda desenhada não tem, ao nível da estrutura do executivo municipal da Amadora, autonomia departamental. Não há um diretor de banda desenhada na Câmara Municipal da Amadora. O CNBDI (como o Amadora BD ou a biblioteca municipal) está integrado numa das divisões que integram o Departamento de Educação e Desenvolvimento Sociocultural, que, por sua vez, depende do vereador responsável pela cultura e turismo (sim, a Amadora não tem um pelouro de banda desenhada, mas tem um pelouro do turismo).

Finalmente, apesar do acerto da visão de Zink, a reflexão em torno da banda desenhada ainda não está tão avançada, e a integração da BD na biblioteca municipal corre facilmente o risco de ser interpretada de acordo com a velha (e ultrapassada) teoria segundo a qual a BD é um aperitivo para a verdadeira literatura.

O sentido a percorrer deve ser, na minha opinião, o do pleno reconhecimento da autonomia da banda desenhada, caminhando a partir daí para a afirmação da identidade da cidade. E, nesse sentido, o papel do CNBDI deve ser repensado, até porque já não está em causa um aperitivo para um verdadeiro museu.

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