A BD como parte da vida

Numa conferência da edição de 2000 do AmadoraBD (que na altura se chamava FIBDA – Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora), foi perguntado ao consagrado autor japonês Kotabe Yoichi (envolvido na criação de séries animadas tão populares como Heidi ou Pokémon) o que era preciso para vir a fazer cinema de animação no Japão.

A resposta — válida para a BD — foi: além de muita prática, ter gosto, muita imaginação, ler muito e criar a partir dessas bases, visitar museus, ler poesia, ouvir música, ver televisão, etc. Tudo o que se acha interessante.

Apesar do ar desiludido do rapaz que fez a pergunta, julgo que ainda não houve resposta mais completa desde que faço (ou sigo) as conferências do AmadoraBD. A razão da desilusão de quem fez a pergunta liga-se certamente a esta “desconfortável” necessidade de ligação entre a animação (ou a BD) e a própria vida (com todos os interesses e linguagens que a norteiam). Em regra, quando se faz o discurso legitimador da banda desenhada enquanto forma de arte, utiliza-se a opção “desligada” entre a BD e a vida. Fala-se apenas para a “gente da BD”, utilizando um discurso que, para quem está fora do meio, é incompreensível ou compreensivelmente ridículo. Há uma tendência generalizada em Portugal de se falar de BD fazendo esquecer tudo o resto, como que assumindo que quem sabe de BD nada sabe de outras coisas, e quem sabe de outras coisas nada sabe de BD. Há autores que introduzem o “mundo exterior” na reflexão sobre BD apenas para mostrar o conhecimento ou a inteligência que a reflexão desmente.

E, no entanto, a linguagem da BD é, para além das especificidades da banda desenhada, feita de importações de outras formas de linguagem, identificáveis para quem sabe o que é a música, a pintura, a caricatura, o cinema, o teatro, a poesia, etc.

Promover a integração da banda desenhada no panorama das artes, e sublinhar o diálogo entre a banda desenhada e outras formas de linguagem, numa perspectiva pluridisciplinar e interdisciplinar, tem sido um dos traços distintivos do projeto da Amadora em torno da BD. É uma das permanentes preocupações do AmadoraBD e do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), e deve continuar a ser um elemento presente no projeto da cidade.

Mas pretende-se ir mais além, numa perspectiva integrada da banda desenhada com a vida, ou, mais concretamente, com a vida de quem vive na Amadora. Em entrevista ao jornal gratuito Expresso da Linha, a presidente da Câmara Municipal da Amadora, Carla Tavares, recupera as ideias de mudar a toponímia da cidade, de modo a que as placas com os nomes das ruas tenham a forma de balão de BD (como acontece em Angoulême), e de pintar as fachadas de edifícios com elementos de BD. São, naturalmente, ideias que se saúdam, e que ajudam a reforçar a banda desenhada como elemento distintivo da identidade do município da Amadora.

Afinal, não é assim tão desconhecida a fórmula para que a Amadora possa afirmar a sua identidade pela BD, numa perspectiva integrada: além de muita prática, ter gosto, muita imaginação…

Autor, coleccionador, crítico e divulgador de banda desenhada, Pedro Mota colabora com o AmadoraBD desde 1995. aElipse é uma crónica semanal que será publicada no aCalopsia aos sábados.

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