Outro Ponto de Vista sobre o Amadora BD 2016

A edição de 2016 do Amadora BD, festival internacional de banda desenhada da Amadora é, seguramente, uma das menos bem conseguidas. Vale, como sempre, a visita, mas não ficará guardado na memória como outras edições anteriores.

A edição de 2016 do Amadora BD, festival internacional de banda desenhada da Amadora é, seguramente, uma das menos bem conseguidas. Vale, como sempre, a visita, mas não ficará guardado na memória como outras edições anteriores.

Mais uma vez, o peso da exposição central não foi suficiente para afastar a ideia de um festival muito virado para o ano que passou. Num ano editorial particularmente agitado, já aconteceu muita coisa desde a edição da grande maioria das obras que o festival agora destaca. Paradoxalmente, por circunstâncias várias (algumas alheias à organização e outras da sua inteira responsabilidade), o festival inaugurou de forma muito incompleta (tal como já sucedera no ano passado), situação que será, espera-se, suprida ao longo do tempo de duração do evento. Assim, no conjunto, temos um festival tardio nos conteúdos e prematuro na forma. Parece que “espaço, tempo e banda desenhada” não foi uma equação fácil de resolver.

Justifica-se alguma reflexão sobre a forma como a Amadora está a mostrar e a considerar a banda desenhada. É que a estes tropeções do festival há que somar a oferta da programação da Bedeteca que, independentemente dos méritos de Pedro Moura, não assegurou qualquer continuidade com o trabalho anteriormente desenvolvido pelo município (nem qualquer plano distintivo assente na identidade da Amadora), e não conseguiu a adesão do público. Depois do trabalho desenvolvido (desde logo pelo CNBDI) que apresentou um projeto de BD na Amadora para além dos dias do festival, a cidade – já o podemos dizer – volta a ser apenas o festival (e o festival durante os dias do evento, já que o catálogo que o perpetuava também deixou de existir).

O único sinal de esperança reside na atividade do Clube Português de Banda Desenhada, agora sediado na Amadora, com plano, com projetos, com público, mas sem os meios financeiros do festival ou da Bedeteca.

Mas voltemos ao festival. Numa apreciação naturalmente subjetiva, vou passar em (curta) revista as mostras do espaço central do Amadora BD.

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Exposição central: Espaço, Tempo e Banda Desenhada

O que falhou: demasiado pretensiosa, dispersa e desinserida da identidade do festival, a exposição não consegue passar a sua mensagem (mensagem que, diga-se, já não era isenta de críticas). Como se isto fosse pouco, no primeiro fim de semana do festival, a mostra estava demasiado incompleta.

O que não falhou: um bom trabalho de cenografia, e alguns bons originais. A ideia de ter como ponto de partida três autores conhecidos do grande público é boa.

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Exposição: Lucky Luke – 70 anos

O que falhou: a ausência dos textos explicativos (atempadamente elaborados e entregues por mim) tornou a mostra incompreensível. Acrescem os inúmeros erros nas legendas (a que o comissário é alheio, diga-se).

O que não falhou: um excelente trabalho de cenografia.

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Exposição: Zombie, de Marco Mendes

O que falhou: um espaço demasiado “de passagem” para acolher o autor em destaque. A apresentação das pranchas fora da sequência perturba o sentido da exposição.

O que não falhou: a apresentação de uma imagem gráfica forte, como se pretende quando se destaca um autor.

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Exposição: Democracia

O que falhou: a exposição justificava ir além do livro, explorando o tema, o que não se fez. Ou seja, faltou comissariado.

O que não falhou: a apresentação do processo criativo, e a eficácia da cenografia, com boa escolha das imagens a destacar.

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Exposição: Tex e a BD de Pasquale Frisenda

É um modelo de aposta sóbria, sem grande exigência na execução, e que funciona.

Concursos

O que falhou: a exposição dos concursos só apareceu no último dia do primeiro fim de semana. Há uns anos, a exposição dos trabalhos concorrentes era um dos motivos fortes que levava famílias inteiras à amadora logo na 6ª feira da inauguração. A exposição num espaço corredor (com quadros dum lado e doutro) também não é muito boa.

O que não falhou: considerando também o pouco tempo que houve para apresentar trabalhos a concurso, o nível médio dos trabalhos a concurso é elevado.

Ano editorial português

O que falhou: é o “espaço, tempo e banda desenhada” do piso inferior. Muito disperso, não permite (ao contrário do que aconteceu no ano passado) que se veja um panorama global do ano editorial. Num ano de intensa atividade editorial, é uma pena que o visitante não consiga ter a visão do conjunto.

O que não falhou: muito boa síntese dos comissários, em cada um dos capítulos abordados.

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Exposição: Crumbs

Sem grandes riscos, funciona, enquanto retrato do álbum. É um modelo que a Amadora devia pensar para livros que são lançados durante o festival (este ano, só Democracia teve exposição), e não apenas para livros de anos que já passaram.

Papá em África

O que falhou: como sintetizou José Marmeleira no jornal Público, a propósito do álbum, “os riscos são evidentes; aceita-se a vontade de fustigar os leitores, mas o terreno fica livre para interpretações contaminadas pela racismo e o preconceito.” Não me parece muito positivo apresentar uma mostra com estes riscos.

O que não falhou: bom trabalho de cenografia.

Exposições: Daqui ninguém passa e O Tempo do Gigante

O que falhou: Abandonou-se a ideia de ter as crianças como prioridade no público-alvo, o que se manifestava em detalhes como a (mais baixa) altura a que estavam os quadros.

O que não falhou: As exposições sobre ilustração infantil voltam a ser das mais bem conseguidas do festival, com tudo o que, historicamente, carateriza uma exposição “made in Amadora”: bom trabalho de cenografia, boa apresentação do processo criativo, bons originais, conteúdo e mensagem.

Exposição: Erzsébet

O que falhou: o espaço que acolhe a mostra é mau e não se presta a grande aproveitamento. Ainda assim, podia fazer-se melhor. Acresce que, na sequência do prémio de 2015 (melhor desenho para álbum português”), a mostra devia permitir conhecer melhor o percurso do autor, o que não acontece.

O que não falhou: o apontamento de técnica individual de trabalho com as plantas dos espaços onde se desenrola a ação de Erzébet é muito bom.

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Exposição: Volta – O Segredo do vale das Sombras

O que falhou: À semelhança de outras exposições, o espaço é demasiado reduzido, dificultando qualquer possibilidade de percurso expositivo.

O que não falhou: o destaque conferido ao guião

Exposição: Loki – Agent of Asgard #6

O que falhou: faz sentido fazer uma exposição sobre um número de um “comic” quando temos um pretexto para fazer uma mostra com o trabalho de Jorge Coelho, cuja evolução como artista é absolutamente extraordinária? Não me parece. Foi uma oportunidade desaproveitada. O prémio do “melhor álbum estrangeiro de autor português” permite descobrir a obra de autores que estão a trabalhar para outros mercados. Mas não assim.

O que não falhou: a qualidade do trabalho de Jorge Coelho, que justifica a sua crescente aceitação no competitivo mercado norte-americano, valoriza qualquer festival de BD.

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